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Dica de Segunda: Do Amor (Multishow)

*Por Beatriz FariasDica

Antes do leitor descobrir que mais uma vez um post não exatamente direcionado a este fim começará com uma canção, relembremos que tudo é som. Ouvi uma vez de alguém estudado e graduado, com cargo e respeitado que a vida não tem trilha sonora e apesar de compreender seu dizer não consigo dar-lhe razão, porque o silêncio é também sonoro, e ainda assim nosso cotidiano é repleto de buzina, farfalhar, soluço e gritaria. E se tudo isso não leva merecimento de trilha e é só essa vontade de pintar tudo de música, chame de acaso se quiser, eu vou dar o nome de poesia.

Certo dia, descendo na linha do tempo do Facebook em ócio de férias, pesco os dizeres DOAMOR com foto de Maria Flor e sem pestanejar me vem a mente: “fizeram uma série inspirada na música da Tulipa!”. A verdade é que esta confissão deveria encerrar o texto, mas como não me deixo brechas e tenho memória curta, logo digo que até hoje não sei se em algum momento os idealizadores relacionaram o nome escolhido à canção, e então ficamos com a impressão que o destino (ou o que cada ser acredita) conspira mesmo a favor do amor. “olho no olho e flor no jardim”.

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A primeira temporada da série tem como enlevo central a história da fotografa Lulu (Maria Flor) e do professor Pio (Armando Babaioff), que se cruzam numa esquina do Rio de Janeiro e quando se reencontram engatam logo num intenso relacionamento. Porém precisam lidar com a diferente forma de enxergar o cotidiano e as responsabilidades. Por meio do professor conhecemos Tomás (João Velho), Lena (Lucia Bronstein)-  que formam um casal sem muitas expectativas – e Barbara (Diana Herzog), ex aluna apaixonada por Pio. Já Lulu nos apresenta Eva, uma mulher divertida que tem como objetivo principal festejar, assim como Lucas (Fabrício Belsoff), amigo da artista que ganha real destaque em outro momento da série. A segunda temporada começa com a separação de Pio e Lulu, a moça que estava em Berlim volta para o Rio de Janeiro onde reencontra os amigos e conhece o artista plástico Braz (Emanuel Aragão1381859_515031241916251_385853843_n) durante a ocupação artística que Tiê (Jonathan Haagensen) vai organizar em uma comunidade carioca. Eva, Lena e Tomás viram uma espécie de triângulo amoroso que acaba ganhando um filho. Durante os 13 episódios, a série vai mostrar os encontros e desencontros do grupo de amigos que ainda conta com Barbara e Lucas.

Para compreender o objetivo é preciso respeitar a individualidade de cada personalidade, aceitando que não se trata de herói ou vilão e sim de seres humanos em constante estado de encontro consigo, mesmo quando não bem quisto. O personagem principal não é o casal, ainda que não fique claro nos primeiros capítulos, o que se percebe após a imersão é que ironicamente “Do amor” carrega uma solidão que dança com a música já citada e ainda há muito o que rodopiar a respeito. Lulu protagoniza  o enredo e é o seu encantamento por cada coisa e ser que amarra as pontas dando esse nó que de tão frouxo está em constante estado de nova possibilidade. A forma com que a moça recorta o mundo dentro de sua câmera dialoga com o deslumbramento do olhar que deposita nos detalhes, típico dessa necessidade de estar a par de si pelo que vem de fora.

A cidade tem relevância para além do estético e é citada em diversos momentos como essência da personagem, que conforme amadurece apresenta um Rio de Janeiro fora dos padrões da beleza imaginada, indicando que sempre há mais para observar. A produção da Fina Flor que pode ser acompanhada no Vimeo (clicando aqui) tem um jogo de cenas preciso entre presente e futuro, é involuntário o vivenciar do sensorial, essa emoção que vinda do cotidiano e envolta numa trilha sonora pertinente causa  a impressão de que a história saiu da tela, ou nós que ali adentramos porque a arte não imita a vida ou o contrário, um é que estende o outro porque seu único complemento é nunca caber no ato.

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“Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?” por este poema de Drummond reentendi o que me trazia à série, quase dois anos depois de conhecê-la, e ainda e acima de tudo por concordar que o sustento é amar o amor mais que o objeto amado, é por essa inquietação (e aqui me utilizo da canção “Cena” de Mallu Magalhães) típica dos corações vulcânicos que a correria da sociedade chama de banal, essa procura pelo sentir que vai além do romântico – a paixão desenfreada por saber que está vivo, e jamais se isentar dos tombos que o “entregar-se” acompanha – que Lulu é hino do ser intensamente inteiro. Porque o objetivo não é contar uma história de amor, mas mostrar como este se comunica através de tudo. “Amar a nossa falta mesma de amor”.

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