Faixa a Faixa / Listas / Música

Faixa a Faixa: O Pão que o Diabo Ama Sou (Edu Sereno)

Quando recebemos o disco “O Pão que o Diabo Ama Sou” (com um pouquinho de antecedência por ter apoiado o projeto via crowdfunding), Beatriz Farias logo se empolgou e publicou uma “Dica de Segunda” cheia de energia com suas primeiras impressões sobre o assunto. Desde então, várias audições do disco e mil novas cores e texturas invadiram nossa percepção. É se baseando nessas sensações que prometemos (e agora cumprimos!) um texto faixa a faixa, comentando nossas percepções. Reforçando o espírito colaborativo e agregador do trabalho do Edu, esse texto está recheado de participações especiais.

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Lembrando que cada opinião emitida está relacionada a NOSSA (e de nossas convidadas) percepção do disco. O que interessa nesse caso é a forma que a obra nos atravessa e se ressignifica a partir da nossa escuta e experiências. Talvez cada um veja de forma absolutamente diferente e vamos adorar descobrir o que “O Pão que o Diabo Ama Sou” de vocês lá nos comentários!

1) Mantra

Sempre exerguei o Edu como um cronista excelente, seu olhar sobre a vida é perspicaz e aguçado diante das pequenas grandes coisas. Quando tivemos a ideia de fazer esse faixa a faixa de forma colaborativa, minha primeira escolha obvia foi falar sobre “Mantra“. A música que abre o disco “O Pão que o Diabo Ama Sou” é a síntese mais perfeita do como enxergo o trabalho do Edu e uma ótima crônica sobre a vida e a cidade, sobre a vida na cidade. A relação entre tempo e espaços que ocupamos, descreve uma rotina tão comum que pode ser a minha ou a sua, mas é aí que mora a mágica: o banal, melhor, o cotidiano é tão bonito se olhado de perto! E a poética do Edu é um convite realista para enxergar o presente. Em Mantra, dos menores gestos (de calçar o pé a ferver a água do chá) aos instantes únicos e sublime de encontro, tudo é parte de um cotidiano que segue. No início da semana fui buscar meu diploma e sorri entre divertida e intrigada com um trecho na cabeça “Quatro anos para graduar / e em cinco minutos jogar pro ar” e percebi que na vida, assim como na música do Edu, a graça é encontrar graça. E viver com toda intensidade cada pequeno acontecimento, encontrando assim, um pouquinho de beleza e cada um deles. Um instante ou um piscar de olhos pode fazer toda diferença, caso saiba se deixar levar. (Meiri Farias, Armazém de Cultura)

2) Agenda

Enquanto colocava “O Pão que o Diabo Ama Sou” para tocar e me preparar para escrever sobre “Agenda”, me lembrava que um amigo querido completou primaveras há 5 dias e foi morar fora do país um dia antes. Senti-me a pior pessoa porque passei os últimos dias pensando que assim que eu parasse na frente de um computador o mandaria uma mensagem. No entanto, não o fiz. Enquanto me culpo e me sinto a pior das amigas, já estou ouvindo Edu Sereno e seus versos ecoam providencialmente, confirmando o quão egoísta tornamo-nos quando somos engolidos pela rotina. Será que a nossa agenda cheia de compromissos e com seu dia minimamente planejado vale a pena se nela não reservamos 5 minutos para conversar  com quem gostamos? Por que nunca anotamos na agenda “ligar para o amigo fulano”, “parar para respirar”, “ver os amigos e a família”? E enquanto questiono e avalio a minha própria agenda vem Sereno de novo com o verso “e é fato consumado, a tua ausência ecoa” me mostrando que a rotina louca a que nos entregamos diariamente nos ausenta de nós mesmos. Porque estar com quem amamos nos aproxima de quem somos e se não temos tempo para isso, onde estamos? É hora de dar status de urgência ao que realmente é importante enquanto ainda estamos aqui. É hora de aceitar o convite de Edu Sereno e “fingir que é domingo em plena quinta-feira” e não deixar que as responsabilidades nos engulam, porque tudo se torna uma bola de neve e o que/quem realmente nos faz ser quem somos, pode não ter todo o tempo do mundo para esperar. (Camila Lopes, Elos Culturais)

3) Cê vai Lembrar

Ce Vai Lembrar“, me remete ao encontro o antigo, com o já vivido, com o saudoso. Meu primeiro contato com a canção, me pareceu ser algo com amores passados. Sim, o saudosismo da letra é o amor, o encontro com lembranças passadas e boas de uma vila. (a vila Itororo, no bairro do Bixiga em SP). Também, de alguém de um passado não tão distante. Algo que foi bom ter vivido e que indiretamente continua presente. (Mariana Monteiro, FCO Márcio Lugó e Edu Sereno)

4) Viaduto do Chá

A canção “Viaduto do Chá” tem esse poder cinematográfico de apresentar uma situação que de tão intima dessa realidade paulistana parece feita sob medida para nossa necessidade diária. Não apenas por ter em título e letra o primeiro e tão conhecido viaduto da cidade, mas pela circunstância angustiante de estar sempre pelo fio da navalha prestes a sair de si. “de gravata pela rua corda no pescoço, coagido nesse estado de lobotomia”. O alívio se apresenta no olhar cuidadoso que Edu tem para com a cidade, indicando que as vezes escapar do eu pode ser a solução: “quem sabe amanhã seja um bom dia pra pular no parapeito e se fazer poesia”. (Beatriz Farias, Armazém de Cultura)

5) Confesse

Foi em um dos shows de “Esquinas, Amigos e Canções” que ouvi “Confesse” pela primeira vez. O Edu falou algo sobre ter feito essa música para uma pessoa, mas ter se dado conta depois de que era para ele mesmo. A gente tem essas coisas de não conseguir ver o óbvio, mesmo quando está gritando ali, na nossa frente. Pessoalmente, a música de Sereno se tornou um recado para mim, também. Um recado sobre a simplicidade, sobre o significado de ouvir o que vem de dentro e o que nos é externo, e um lembrete de que as coisas têm solução – e, na maioria das vezes, são menos complicadas do que pensamos. (Camila)

6) Ventar

Em outra oportunidade mencionei “Ventar” como música favorita do disco, mas sempre que me empenho no explicar do motivo tenho o embarace dos contextos. “foi aquele primeiro show” ou “o susto de beleza da primeira frase” ou ainda essa simplicidade de admissão e convite ao agora, o gosto de deixar cada coisa ser no tempo que é. Claro que Edu tirou de seus próprios significados enquanto compunha , mas daí vejo que talvez essa seja minha composição para o que a canção significa. Tudo isso misturado, e a possibilidade de transformar na coerência do tempo, bem como diz a letra: ventar e varrer, inventar. (Beatriz)

7) Ritual

É interessante com “Ritual” é uma das músicas com a qual tive menos contato do disco. Não me acertou de primeira como “Mantra”, não me causa identificação imediata como “Agenda” ou emociona como “Ventar”. Ritual é uma música a qual não me prendi na primeira audição, embora já houvesse notado que como todas as faixas do disco, dialogava perfeitamente com a temática. Só fui me ater a seu conteúdo com atenção quando decidi que escreveria sobre ela. Já no início ‘’Eu sou raro feito estrela cadente, nas noites de São Paulo’’ você é conduzido a adentrar no escuro da cidade que esconde o seu céu. O que uma cidade que esconde suas estrelas pode revelar? Edu tem o raro dom de enxergar.  E em meio a esse vem em vai, ele consegue descobrir beleza no caos. (Meiri)

8) Ninguém ta Ligado

“Ninguém tá ligado” é um instigante jogo de palavras. Com um melodia que propõe essa troca repeta de significados com a letra, a canção permeia os subtendidos, despertando uma curiosidade e desembocando no poder do discurso. Em uma interpretação bastante pessoal do disco, a faixa dialoga com a proposta do questionamento e autenticidade da fala ao mesmo tempo que dá o recado de baixar a guarda e simplesmente parar de relativizar tanto. (Beatriz)

9) SMS

“SMS” é uma das músicas que mais me atrai melodicamente falando, especialmente ao vivo onde o envolvimento e identificação com as músicas é muito mais efetivo dada a entrega de Edu no palco.  A canção mais uma vez brinca com a tecnologia, com a relação com as pessoas e as formas de comunicação que usamos atualmente e que estão cada vez mais (in)eficazes. SMS é uma lembrança de cada mensagem, SMS, e-mail, que se perde na imensidão das palavras que não dizemos. Essa língua extraterrestre que nos liga por aparelhos, limita conexões de fato, humanas. Não há tecnologia eficaz o suficiente quando se trata dos nosso sentimentos. (Meiri)

10) Zóio Vermelho

Toda vez que escuto o “Pão” consequentemente escuto “Zóio Vermelho” por algumas vezes. Escuto cantarolando alto. Tem algo que me prende na canção, saber que a música fala de um amor do passado é algo engraçado. Não tive a singeleza de notar o que a música quis passar, me parecia ser algo consigo mesmo. De uma entrega pessoal ao estava sendo vivenciado. O bom é isso, receber e perceber significados diferentes na mesma letra musicada. (Mariana)

11) Perdidos

A música “Perdidos” me faz questionar o quão bom é essa era moderna onde possuímos a tecnologia como amiga, aquela que nos permite conversar com quem está longe, interagir com estranhos mas também a mesma que tem nos afastado de nós mesmos. A sensação de estar perdido em um lugar desconhecido é terrível, mas a de estar perdido de si mesmo é ainda pior. Quando já não se sabe mais a essência de ser quem é, não nos resta muitas certezas, apenas que vamos parar “aonde o coração no peito para”. (Daisa Souza, estudante e leitora)

*Agradecimento especial: Camila Lopes (Elos Culturais), Mariana Monteiro (FCO Márcio Lugó e Edu Sereno) e Daisa Souza. Agradecimento pela colaboração indireta do Silvano Santos, também do FCO.

Confira entrevista com Edu publicada em 2014

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