Abre Aspas / Música

Anna Tréa: “Sou música da cabeça aos pés”

Abre Aspas

*Por Meiri Farias

Anna Tréa é uma mulher forte e artista consciente do movimento que seu trabalho pode gerar. Para ela, a arte é uma ferramenta poderosa de transformação e reeducação, mesmo com as dificuldades que existem para transitar no meio musical.

1 foto Tarita de Souza

Foto: Tarita de Souza

Em processo de finalização do disco “Clareia”, Anna conta sobre o sentimento de libertação que rolou durante o processo. “Foi uma explosão de sentimentos. Gravar é libertador, revelador, desafiador,  matou a ansiedade e gerou muito mais dela”, conta. O projeto foi viabilizado através do edital “Somos Nozes” da Gargolândia e é  o disco de estreia da artista que também colabora em projetos de artistas como Emicida e Arrigo Barnabé. Confira a entrevista e conheça mais dessa artista que é “música da cabeça aos pés”.

Armazém de Cultura: Você tem divulgado sobre  a produção do seu disco “Clareia”. Como está sendo esse processo? O disco foi gravado a partir de um projeto na Gargolândia, certo?

Anna Tréa: Sem dúvida, o processo de gravação do “Clareia” (meu disco de estréia) foi uma explosão de sentimentos. Gravar é libertador, revelador, desafiador,  matou a ansiedade e gerou muito mais dela (risos). O processo pós-gravação é o mais trabalhoso e angustiante, ao mesmo tempo que gera uma ansiedade boa, muita alegria, gasta bastante energia, é bastante detalhista. É um processo e cada degrau dessa escada é muito comemorado.

“Clareia” foi gravado através do edital “Somo Nozes”, promovido pela Gargolândia. Uma iniciativa louvável, um exemplo incrível de apoio, colaboração e amor à arte. Sou muito grata pelas coisas que passei lá e grata por eles existirem e continuarem gerando “lindezas” por lá.

AC:Já tem previsão de lançamento? quais são seu planos agora?

Anna: O lançamento está previsto para o comecinho de 2016. Estou tão feliz!!! Os planos são manter os braços abertos para o público que está me conhecendo e o que já acompanha o trabalho com todo carinho, chegar mais perto com uma ação linda que faremos ainda esse ano (surpresa!) e trabalhar muito, ensaiar bastante para fazer um lançamento bem legal e trabalhar para que a gente consiga levar essa turnê para muitos lugares, abraçar o máximo possível de pessoas ao redor do mundo.

5 foto Tarita de Souza

Foto: Tarita de Souza

AC: Você também participa e canta com artistas como o Emicida e Arrigo Barnabé. O Emicida acabou de lançar um disco que vem sendo super elogiado e mais uma vez chamando muita atenção, como é participar desse projeto?

Anna: Música é meu coração pulsando, acabou a música, acabou a Anna. Encontrar no caminho pessoas que também são assim, que também pulsam é um presente. Tenho muita sorte de me envolver com artistas tão comprometidos com a arte. O convite para cantar “Mãe” nesse disco novo do Emicida foi muito forte para mim. Falar de uma mãe que é também a minha e de tantas outras pessoas nesse país explodiu meu peito. Acho que consegui aproximar meu canto da emoção que senti quando ouvi o beat do DjDuh e as palavras do Leandro.

AC: No caso do Arrigo, ele é um representante da Vanguarda Paulistana que influencia artistas até hoje. É uma referência para sua música? como aconteceu esse projeto?

Anna: Conheci o som do Arrigo numa aula de análise musical quando era adolescente. Era maluco, mas fazia sentido. Eu pensava “Como faz sentido? Por quê?”. Mexeu comigo. Escutei mais coisas e ficava sempre intrigada. Abriu minha cabeça e, certamente, Arrigo me influencia de alguma forma, principalmente sua intensidade musical e essa coisa teatral que ele tem.

Quando fui convidada para fazer parte da banda no projeto O Neurótico e as Histéricas fiquei super feliz e curiosa. Foi amor “à primeira gig”. Arrigo é um cara mega inteligente, tranquilo, musical, generoso, sempre troca muito material com a gente, sempre traz novidades e as meninas são talentosíssimas, referências de profissionais para mim.

AC: Falando em referências, teve algum disco ou artista que marcou sua vida? te despertou como artista?

Anna: Comecei a tocar bem cedo e lembro de já ser um desejo antigo. Não me ligava em nomes, só queria escutar de novo e de novo. Os nomes que me lembro são Djavan, Caetano Veloso, Gil e diversos sambas enredo. Dançava horrores com a minha mãe e sozinha. Com meu pai ouvia new age, world music, soundscapes. Ele é artista plástico e escutava esse tipo de som para pintar. Lembro de Deep Forest e Peter Ratzenbeck me virarem do avesso, fiquei muito apaixonada. A primeira voz que me fez chorar foi a de Sara Tavares. Quando descobri que ela tocava (inclusive percussão) me identifiquei muito, foi um marco na minha adolescência escutar coisas tão lindas vindas de uma mulher negra, jovem e espiritual como ela! Conhecer “Transamazônica”, disco de Tânia Maria foi outro marco. Tânia é uma pianista maranhense fenomenal.

As carreiras que mais me inspiram hoje são as de Richard Bona (por ser multi-instrumentista, compositor e atuar com diversos outros artista como sideman) e Djavan, compositor fantástico, versátil e com uma carreira extremamente consistente, transcendental.

2 crédito na foto

Crédito na Foto

AC: E nessa nova geração, com quem se identifica? o que escuta e indicaria para quem gosta do seu trabalho?

Anna: Nossa, tenho contemporâneos que me emocionam muito e minha indicações são pensando como instrumentista, compositora e intérprete!!!  Gosto muito da Ellen Oléria. Que voz linda e que vigor! A banda Aláfia tá fazendo um trabalho lindo e muito importante! Mayra Andrade tem um trabalho maravilhoso.Tenho Daniel Conti como referência de composição e arranjos ao violão. Kabé Pinheiro é um exemplo de músico sideman para mim também. Paulo Neto é um artista muito sensível, um ser humano para ser trocar olhares e palavras, assim como a Isabela Moraes. André Fernandes é um baita cantor e compositor mega versátil, a Quartabê (grupo de música instrumental super divertido e musical). A rapper Akua Naru me emociona bastante … muita gente incrível! E agora? Vou compartilhando mais coisas nas redes sociais e aumentamos essa lista, é só acompanhar de perto!

AC: No meio do ano você participou da Virada Feminista, certo? como foi participar do evento nesse momento onde está cada vez mais importante (e urgente) falar sobre representatividade e empoderamento feminino? A música é um ambiente hostil (ou mais difícil) para mulher? 

Anna: Foi muito empoderador!

Fazer parte dessa movimentação, dessa marcha que se fortalece mais e mais a cada dia e que está derrubando barreiras e levando a mulher para onde ela quiser é muito emocionante!!! Ter os olhos abertos e perceber que muitas de nós abrem os olhos para a força feminina a cada dia que passa é encorajador demais! É realmente…libertador!  Perceber que, assim como muitas são referência para mim, me tornei referência de tantas outras mulheres me emociona muito e realmente me sinto de mãos dadas, apertadas e fortes com todas, todas, todas. VAMO TIME!!!!

Sobre a hostilidade, O MUNDO é hostil com as mulheres, ponto. Quanto mais vemos, mais percebemos como está tudo errado e pesado demais para o nosso lado. O meio musical é também, sim, muito complicado. É muito difícil transitar em paz. Tenho aberto caminhos com o meu trabalho e conquistado respeito conforme caminho, mas ainda é difícil.

Sou música da cabeça aos pés, sou para arte completamente, então tudo isso é superado, até que com certa leveza,  com meu amor, comprometimento e dedicação.Também acredito que essa força vai mostrando um novo caminho para quem está perdido achando que eu deveria estar em outro lugar ou sendo outra coisa. Se é que me entendem. Nossa união é muito importante. A arte é uma ferramenta poderosíssima de transformação e reeducação.

Ouça “Batidão”:

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