Abre Aspas / Música

Leo Middea: Trilha de autorreferência em um baile de sonoridades

Abre Aspas

*Por Meiri Farias

“Easter egg” (ovo de páscoa) é um termo muito usado na cultura pop e se tem a ver com referência. Esconder pequenas surpresas dentro de um filme, série ou HQ, que geralmente fazem alusão a outra obra direta ou indiretamente. A expressão tem origem no costume da brincadeira de esconder ovos de páscoa, que no Brasil não é muito comum, mas em alguns lugares como o EUA é bem tradicional. Como perseguidora da subjetividade que sou, sempre tive uma curiosidade e desejo de encontrar essas surpresinhas que acabam criando quase que uma narrativa paralela dentro do enredo central. No quadrinho isso é bem comum, mas fiquei surpresa ao perceber que é possível encontrar na música também e não por meio de um sample ou de influências. Na música de Leo Middea encontramos uma trilha de autorreferências que criam uma linearidade na temática dentro de um universo sonoro absolutamente diverso.

Ouça “Valsa”:

Geralmente começo os textos falando de como me deparei com a obra, mas nesse caso achei interessante introduzir o conceitos das referências. O trabalho do Leo chegou até mim em um dia de descobertas inspiradas da Bia Farias, que me mandou o vídeo da música “Valsa”, que estará no próximo disco de Leo “A Dança do Mundo”. A canção acertou como uma flecha, com a sinceridade de quem fala de sentimentos com tanta naturalidade que desconcerta, mas nem por isso perde sua intensidade. “A minha grande paixão por essa música é o fato dela ser uma nítida fotografia do meu sentimento ao escrevê-la”, diz Leo sobre Valsa. A partir daí foi como ser conduzida em uma dança e saímos valsando em direção ao que o Leo já tinha feito. E é aqui que voltamos aos easter eggs.

Para desvendar esse mistério de graça e sensibilidade, foi necessário escutar o primeiro disco do músico carioca, “Dois”, lançado em 2014. A sensação imediata de liberdade gostosa proporcionada por “O mochileiro” faz com que os sentidos se instiguem. Não é apenas “um toque na liberdade” que faz voar, mas o disco tem cheiro e sabor e depois do impacto inicial e com uma segunda audição mais atenta, você vai querer descobrir trechos de canções (do próprio disco) escondidas nas outras. É bem sutil no início, mas quando me dei conta estava de papel e caneta na mão recortando fragmentos e tentando montar o quebra cabeça de referências. “Sem” spoilers, para não perder a graça, escute o disco com atenção e saia a rodopiar também com a dança da menina do Porto Feliz.

Capa - Frente Capa - Verso

Armazém de Cultura: Conhecemos o seu trabalho a partir do vídeo do coletivo MIRA e ficamos muito impressionadas com “Valsa”, é o tipo de música que definitivamente continua tocando mesmo quando acaba. Poderia contar um pouco sobre ela? Estará no seu próximo disco?

Leo Middea: A Valsa é uma música que se desenrola ao assunto da perda sem muito entendimento do porque. A minha grande paixão por essa música é o fato dela ser uma nítida fotografia do meu sentimento ao escrevê-la , então ela é envolvida por amor, tristeza, raiva, alegria e por aí vai.  Ela estará no próximo disco sim, com um arranjo um pouco diferente mas espero que o povo curta!

AC: Falando sobre o coletivo MIRA, temos acompanhado vídeos bem bacanas, como funciona o projeto?

Leo: Os vídeos são parte do Mira Sessions que é um canal no Youtube onde são postos os vídeos de artistas do próprio coletivo. O Coletivo é englobado por amigos e artistas cariocas que nos reunimos pra juntar força principalmente. A principio cada uma tem uma função no coletivo onde vai desde gravação e edição do Mira Sessions aos cuidados de redes sociais.

AC: Você está preparando disco novo, certo? O que mudou nesse trabalho em relação ao primeiro? O que já pode adiantar para nós sobre “A dança do mundo”?

Leo: Sim, acho que mudou muita coisa desde o primeiro por que eu mudei bastante e isso já resulta diretamente ao trabalho artístico. A Dança do Mundo vai ter conteúdos que eu não conhecia e muito inexplorado por mim como ritmos do Pará, por exemplo , como o Marabaixo e o Carimbó que eram ritmos que eu não tinha tanto entendimento como eu tenho agora. Acho que o grande lance do novo disco é a minha busca ao inexplorado por mim mesmo, a sons mundanos e onde cada pessoa encontre sua raiz em algum lugar desse projeto. Além de tudo isso vão ter participações lindas no disco que logo mais serão anunciadas!

Imagem de divulgação do próximo disco. Foto de ZÉCA

Imagem de divulgação do próximo disco. Foto de ZÉCA

AC: Sobre “Dois”, disco anterior, quando escutamos percebemos uma ligação entre as canções, talvez uma linearidade (embora diferentes na sonoridade), isso é proposital ou apenas interpretação nossa?

Leo: É proposital sim, na época em que o disco foi feito ele havia sido para duas pessoas , contando duas histórias diferentes, porém tive a necessidade de fazer com que essas duas histórias se tornem uma. Então eu ligo uma música com a outra, seja na questão sonora  como nas próprias letras.

AC: Falando em sonoridade, “Dois”, traz uma variedade de ritmos, as vezes em uma mesma canção. O que te influencia e você percebe como referência e inspiração para o seu trabalho?

Leo: O tédio é uma boa inspiração. As vezes escuto uma música minha e acho muito padronizada a forma reta da estruturação e isso me cria um tédio, então faço com que diversos ritmos se tornem parte da música deixando ela de forma dinâmica. Claro que isso não é uma regra da minha parte, são apenas algumas necessidades que surgem como a música Bilhete.

O disco está disponível online:

AC: Você fez tour na América do Sul? Conta um pouco como foi tocar fora do país!

Leo: Foi incrível, acho que se eu não tivesse tocado na Argentina por exemplo eu não teria muitas das músicas que estarão compondo esse novo disco e provavelmente não teria um outro disco também. Eu aprendi muito por lá, seja de vida, de mercado musical , de troca com outros compositores de diversos países. A relação do nome se chamar, A Dança do Mundo, também é direcionado ao aprendizado que tive com pessoas de diversas partes do mundo que eu encontrei na capital Argentina enquanto estava tocando por lá.

AC: O blog foca muito na cena paulistana, mas gostamos muito de conhecer o que está espalhado pelo país. Na cena carioca, o que acompanha e indicaria para quem gostou da sua música?

Leo: Atualmente eu tenho escutado muito uma banda carioca que tem uma proposta bem regional chamada Pietá, eu aconselho a ouvir!

Ouça “Bilhete”:

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