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Dias Úteis: Luísa Nóbrega constrói narrativa sonora da cidade a partir do Metrô

Abre Aspas

*Por Meiri Farias

Utilizo transporte público desde que me entendo por gente, mas comecei a usar o Metrô e a CPTM com frequência há três anos quando comecei a trabalhar em um local mais afastado de onde moro. Lembro que o primeiro impacto foi me deparar com uma quantidade inacreditável de pessoas. Entenda: como paulistana estou acostumada a pequenas aglomerações, mas para encarar a linha 9 esmeralda da CPTM ou a 2 vermelha do Metrô, é necessário um bocado de coragem. Em contraponto, aquela mistura nada homogênea de pessoas vindas de todas as partes da cidade (quiçá do país), despertam susto e certo fascínio. Quem são elas? o que têm para contar? É por essa curiosidade em relação ao passageiros, que o trabalho de Luísa Nóbrega chamou tanta atenção.

Metrô_SP

Parte do Projeto Paredes, do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), que ocupa o corredor de acesso entre o saguão de entrada e a grande sala, Dias Úteis é uma instalação sonora que reverbera áudios gravados durante uma semana pela cinco linhas de São Paulo. Em cada dia, Luísa permaneceu ininterruptamente do Metrô durante todo o funcionamento da estação, uma linha por dia. Durante esse período, a artista registrou barulhos, vozes e conversas no interior dos vagões em um gravador analógico. Dentro desse universo de passagem, Luísa quie é uma artista nômade, não tem domicílio fixo há quatro anos, evidencia a relação das pessoas com o espaço que ocupam por períodos curtos e como se relacionam com ele. A sinfonia de ruídos dos transeuntes apresenta uma narrativa sonora da cidade que onde todos passam sem parar.

A instalação fica disponível até o dia 18 de dezembro e pode ser visitada no horário de funcionamento do MAM, isto é, das 10h às 17h30, mas o áudio é ligado a partir de 4h30 e desligado meia-noite, obedecendo de forma símbolica o horário de funcionamento do Metrô.

Armazém de Cultura: Como surgiu a possibilidade de participar do “Projeto Parede”? Você já estava trabalhando com a ideia do que seria a obra “Dias úteis” ou começou a realizar a experiência a partir do convite do MAM?

Luísa Nóbrega: A possibilidade de participar do Projeto Parede surgiu de um convite do curador Paulo Miyada, para que eu pensasse algo para dialogar com a mostra 34º Panorama da Arte Brasileira, que tem como ponto de partida os sambaquis – daí surgiu a vontade de fazer algo que tivesse uma dimensão subterrânea, não inteiramente visível, deixando vestígios de uma experiência que não pudesse ser inteiramente apreendida pelo espectador. Tempos depois, pensando no espaço do corredor, me dei conta de que era o local ideal para abrigar um trabalho em que eu vinha pensando há muitos anos, desde 2008, e que foi mudando de forma com o tempo: ficar de segunda a sexta indo e voltando no mesmo vagão do mesmo trem, em cada uma das linhas do metrô, sem descanso, da hora que o metrô abria até a aora que o metrô fechava. Uma ação invisível, de muitas maneiras: para a maior parte das pessoas com que cruzei (a não ser alguns vendedores ambulantes e funcionários do metrô) eu era apenas uma passageira comum, ninguém suspeitava que eu não estava indo a lugar algum. Essa ação surgiu uma espécie de acerto de contas com a cidade de São Paulo, um lugar cheio de trajetórias apressadas que se cruzam concentradas em seus afazeres, rotas cegas e esbarrões fortuitos, em que a gente pouquíssimas vezes muda o ritmo do nosso trajeto por conta de um encontro inesperado.

8. Projeto Parede_Dias uteis_Luisa Nobrega, 2015_foto Flavio Kauffmann

Foto: Flavio Kauffmann

AC: A instalação privilegia a audição em detrimento da visão, mas por meio da audição é possível evocar cenas que são cotidianas para quem utiliza o metrô diariamente. Como foi realizar essa experiência de registro, mas também de evocação de memória?

Luísa: Uma das questões mais importantes para mim era pensar um trabalho em que a ação e o registro fossem indissociáveis. Eu trabalhei com fitas cassete de uma hora, então gravar as fitas enquanto eu ia e voltava dentro do mesmo vagão do trem se tornava também uma maneira de contar o tempo. As fitas cassete são como pedaços de tempo materializados, que possuem volume, que te colocam um limite de duração determinado, exigindo interrupções, exigindo que você se adapte a ele – não é um registro limpo e confortável como o dos gravadores digitais. Além disso, as fitas cassete têm dois lados, A e B – para gravar uma fita inteira você tem que fazer um caminho de ida e volta, avesso e direito – assim como, durante o meu trajeto no metrô, eu ia de Jabaquara a Tucuruvi e depois de Tucuruvi a Jabaquara, o dia todo, sem descanso; da Barra Funda até Corinthians Itaquera, do de Corinthians Itaquera até a Barra Funda, e assim por diante. Depois da ação, eu fiz questão de digitalizar as fitas eu mesma: o que foi uma pequena loucura, já que para passar o áudio do cassete para o digital foi preciso tocar todas as fitas na íntegra, em tempo real – aproximadamente oitenta horas de gravação. Quem passa no corredor poucas vezes se dá conta, mas o áudio em momento algum se repete: as caixas de som começam a soar às quatro e meia da manhã e só param depois da meia noite. O trabalho começa e termina de soar todos os dias junto com o metrô. Além das camadas de áudio (e tempo) sobrepostas no corredor, existe essa outra sobreposição, menos evidente, que conecta o corredor aos túneis subterrâneos da cidade. Sobre a memória: optando pela sobreposição do som das cinco caixas, eu evoco uma memória suja, que mistura informações, que sobrepõe temporalidades diferentes, de um modo ruidoso e não linear.

AC: Você não tem domicílio fixo, certo? Como essa situação de quase “nomadismo” impacta as suas performances? As viagens e residências que faz em outros países influenciam sua arte?

Luísa: Sim, não tenho casa há quatro anos. De alguma forma acho que nomadismo e performance se relacionam porque quando você passa continuamente de um lugar a outro você de alguma forma se acostuma a aterrissar em tempos e mundos diferentes, em modos de vida diferentes. Em cada lugar você cria uma pequena rede de hábitos, que nunca chega a se cristalizar inteiramente: nada é inteiramente natural, nada é pura e simplesmente artifício. Acho que de certa maneira penso minhas ações segundo essa mesma lógica: elas não são tanto algo para ser apresentado ao público: são experimentos de modos vida, modos de passar o tempo com uma duração pré-determinada, um conjunto de regras auto impostas que cria um pequeno universo independente dentro do universo das nossas performances cotidianas. Viajar o tempo todo te faz desacostumar das tuas palavras, dos teus hábitos, dos teus gestos – você descobre que há muitas maneiras diferentes de viver, de comer, de tocar. Essa condição do estrangeiro, de alguém que não conhece inteiramente os códigos de conduta, perpassa quase tudo o que eu faço.

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AC: Em entrevista para a plataforma “Mulheres na Arte Contemporânea” você demonstra desinteresse pelo “controle” que acontece no universo das Artes Cênicas. Você acha que a arte precisa se amparar na espontaneidade? Em sair da zona de conforto?

Luísa: Acho que qualquer forma de arte pede um misto de rigor e provocação. Você ao mesmo tempo precisa ser um pouco obsessivo, cavar fundo ali onde se encontram os pontos que te instigam, e ao mesmo tempo nunca se permitir ficar inteiramente confortável. No mundo da arte, hoje, existe uma tendência de esperar que o artista seja sempre coerente, que faça coisas parecidas com aquilo que já fez, legíveis – mas eu acho que cabe a nós não cair nessa armadilha, testar coisas novas, descobrir novas possibilidades, coisas que te dão frio na barriga, que envolvem algum tipo de risco, mesmo que sutil. A gente não pode saber sempre onde os experimentos vão dar, senão o trabalho não cresce, a gente não se surpreende. Isso vale para as artes visuais, as artes cênicas, a música, qualquer coisa. Eu precisei romper com o teatro: mas acho que também é possível encontrar risco mesmo sendo intérprete de um espetáculo rigorosamente marcado, ou músico de orquestra – existem formas muito sutis de se provocar, de tentar algo que você nunca fez. É isso que me leva a experimentar outras linguagens além da performance: como o som, o vídeo, o texto. Tem muitas maneiras possíveis de cavar o que você quer cavar, dizer o que você quer dizer. Agora, uma coisa: não acredito muito em espontaneidade – quando a gente acha que está sendo espontâneo, a gente quase sempre está respondendo sem perceber a alguma demanda ou expectativa da sociedade, dos outros, da gente mesmo. Acho que para sair da zona de conforto a gente precisa sempre criar algumas armadilhas que nos façam tropeçar, desviar do caminho mais fácil. Às vezes trabalhar com regras pode ser mais arriscado do que improvisar livremente. Você pode se colocar alguns limites justamente para que eles te arremessam para fora das rotas que você já conhece: as regras podem criar uma tensão, gerar movimento e te catapultar para longe, como um elástico de estilingue.

 

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