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Liene Bosquê: Arte que conecta memória e espaço para além do museu

Abre Aspas

* Por Meiri Farias

Liene Bosquê faz conexões entre memória e espaço. Com exposições e uma performance em Nova York, a artista brasileira apresenta o fascínio que tem pelo significado pessoal que os seres humanos atribuem a objetos e lugares físicos durante suas vidas diárias “Atribuo particular importância aos souvenirs que em suas muitas variações, são hoje em dia comumente considerados como curiosidades portáteis, indissociavelmente ligadas às memórias pessoais e do sentimento de nostalgia associada a uma viagem específica”, conta. Entre outubro e novembro, Liene apresentou a Dismissed Traces, sua primeira exposição individual em NYC e atualmente participa da mostra coletiva Greater New York no MoMa.

Além das exposições, a artista também participa da performance itinerante Collection Impressions, que estimula o engajamento do público em uma caminhada coletiva. Os participantes são incentivado a tirar moldes de detalhes arquitetônicos com blocos de argila, interagindo ativamente com a cidade e gerando conexões com suas memórias. A arte saí do museu e se torna mais acessível ao público que muito além de uma contemplação passiva, colabora com o processo de apropriação e democratização da obra. “É importante tornar a arte mais accessível e chegar a um público que não visita espaços de arte ou museus.  Levar a arte para a rua é indispensável para essa democratização”, explica Liene.

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Armazém de Cultura: Você está com três projetos em Nova York, poderia explicar um pouco sobre cada um? As duas exposições e a performance se encontram de alguma forma na temática?

Liene Bosquê: Todos os projetos apresentados nas três exposições estão inter-relacionadas pelo conceitos que venho abordando no meu trabalho como um todo, no qual exploro memórias que são evocadas por imagens históricas de arquitetura e ambientes urbanos. Investigo a passagem do tempo em lugares e seus habitantes focando nas trocas entre eles.  Tenho interesse pela arquitetura vernacular e espontânea como também as icônicas e monumentais. Eu reinterpreto as construções simbólicas em miniaturas de edifícios, cartão postais e pratos comemorativos, que são ou aludem lembranças de viagem. Tenho interesse em como humanos atribuem significados a  locais e objetos também como essas experiências podem servir como catalisador para alterar a perspectiva do público inserindo-a dentro do domínio privado.

2 -Foto de Dave Broda

Foto: Dave Broda

No Museu de Arte Moderna (MoMA) PS1, participo na exposição coletiva Greater New York, que a cada cinco anos apresenta artistas emergentes que vivem e trabalham na área metropolitana de Nova York, contudo nessa edição os curadores incluem também artistas mais estabelecidos criando conexão e intersecção entre ambos. Ao mesmo tempo, a exposição explora aspectos de histórias da própria cidade, e a mudança no tecido político, social e arquitetônico. A obra exposta é chamada Recollection (Recordação) que é composta por 200 miniaturas de edifícios e monumentos que venho colecionando ao longo de 15 anos em lojas turísticas. Atribuo particular importância aos souvenirs que em suas muitas variações, são hoje em dia comumente considerados como curiosidades portáteis, indissociavelmente ligadas às memórias pessoais e do sentimento de nostalgia associada a uma viagem específica. Ironicamente, jogo com o importante papel histórico desses “ativadores de memória” – esses pequenos objetos que fizeram parte de coleções de pessoas comuns por séculos.

Apresento também minha a primeira exposição individual Dismissed Traces (Vestígios Descartados) na cidade (NYC), na William Holman Gallery, com esculturas e instalações compostas por uma variedade de materiais  tais como gesso, cimento, porcelana, látex entre outros. Trabalho tanto com peças de grande porte como também peças menores. Nessa individual, busco recontextualizar a história de certos lugares por meio de instalações que refletem não somente a sua própria memória, mas também a memória coletiva formada em torno de tais elementos. Exploro meu  interesse em desenvolvimentos urbanos das cidades de Nova York e Syracuse ambas no estado de NY, capturando alguns detalhes arquitetônicos de edifícios e bairros que estão sob ameaça de desaparecimento. Eu reinterpreto a história urbana através dos tijolos de gesso e uma parede em deterioração feita de látex.  Também coloco em pratos de porcelana imagens de edifícios que seriam demolidos em todo o baixo oeste de Manhattam por um, felizmente cancelado, plano para a construção de uma Via Expressa para o local. A instalação comemora a vitória conquistada por ativistas urbanos sob a liderança de Jane Jacobs.

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Paralelamente às duas exposições, apresento a performance itinerante e instalação Collecting Impressions (Coletando Impressões), na 6ª edição do  Peekskill Project. Apresentado pelo Centro de Arte Contemporânea The Hudson Valley Center, na região metropolitana de Nova York; o festival dedica a trazer a arte contemporânea para fora do museu; especificamente em espaços não normalmente utilizadas para apresentar arte. Collecting Impressions é um projeto de arte socialmente engajada que consiste em apresentações públicas itinerantes e participativas, além de uma exposição com peças cerâmicas de impressões arquitetônicas que buscam incentivar a reflexão sobre a complexa relação entre histórias culturais compartilhadas, o impacto de paisagens urbanas remodeladas na comunidade e os visitantes. O projeto propõe uma conexão tangível entre o público e o local, uma vez que convido os participantes a uma caminhada coletiva em busca de detalhes arquitetônicos que, visual e culturalmente, delineiam o significado histórico de uma cidade. Durante a performance incentivo que o público escolha detalhes arquitetônicos e com blocos de argila frescas, tirem molde e assim se aproximem dos detalhes da cidade, com as próprias mãos. A exposição, por sua vez cresce à medida que esses moldes se tornam peças do processo.

AC: Seu trabalho apresenta a relação entre cidade e memória. Você acha que os elementos – objetos, pertencente, etc. – pessoais têm importância na formação da memória coletiva? Como os espaços públicos de convivência contribuem nessa formação?

 Liene: Com certeza, pois geralmente os objetos pessoais muitas vezes são também para compartilhar com o outro. Por exemplo uma coleção de souvenir de viagens faz sentido para a pessoa que a possui, pois a relembra de uma experiência vivida, mas também muitas das vezes a lembrança só fica completa por quando é ativada pela narrativa por trás do objeto, quando se mostra a coleção para outros e há uma troca de experiência, valores que na minha opinião formam essa memória coletiva. O espaço público é o espaço da comunicação, da historia oral, que se passa de um para outro. Restos de edifícios ou edifícios que passaram por alterações significativas com o passar do tempo levantam curiosidades e questionam as memórias coletivas que seus habitantes tiveram de um lugar específico. Estas questões são de particular interesse para mim. Começo com fragmentos de arquitetura, cuidadosamente registrados em argila, silicone ou látex e levo a um mundo concreto ao fabricar centenas de meus próprios edifícios e cidades monumentais – mas em miniatura – dimensionados para um reino de fantasia e imaginação. Nesse sentido proponho uma alteração na passagem do tempo através de uma narração pessoal e recriação da história da arquitetura e da memora coletiva

 Por exemplo na peça AMEZ Church ( Igreja) cria três esculturas aéreas cujas paredes de tijolo são impressões feitas diretamente na parede e da Igreja Amez Zion, localizada em um bairro demolido da cidade de Syracuse. Sendo a mais antiga igreja Africo-americano na cidade e teve importância nos movimentos políticos dos direitos civis da mesma comunidade.  Escolhi-o como um símbolo visual, um ato de preservação da memória coletiva de uma arquitetura histórica em um bairro negligenciado. Mas que recentemente a comunidades esta tentando angariar fundos para a restauração do edifício.

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AC: Muitas vezes pensamos no trabalho do artista em um contexto de solidão. Na performance Collecting Impressions, o público é convidado a interagir concretamente coletando detalhes arquitetônicos com blocos de argila, contribuindo assim, com o processo de construção da obra. Você acha que a arte está mais acessível atualmente? Já que gera possibilidades de uma construção mais coletiva?

Liene: Desde os anos setenta a arte vem se tornando mais acessível. Hélio Oiticica, com os Parangolés, e Lygia Clark, com os Objetos Relacionais, foram os precursores ao inverter a posição passiva do espectador para o papel ativo, trazendo o espectador para participar da obra, dando abertura a experimentar e estruturar um novo espaço e comportamento. Já nos anos noventa Nicolas Bourriaud explora em seu livro o termo Estética Relacional, para categorizar trabalhos artísticos que tem como ponto de partida as relações humanas e seus contextos sociais ao invés do privado, tanto no lado teórico como o prático. O artista, dentro desse conceito é um catalisador ao invés de ser o centro nesse tipo de trabalho como por exemplo o artista tailandês Rirkrit Tiravanija que em suas instalações cria espaços de socialização como compartilhar refeições, cozinhar ou tocar musica dentro de museus e galerias.

Hoje em dia a arte continua cada vez mais acessível com o grafite, uma maior quantidade de arte publica e arte de engajamento social. Entretanto não são todos os artistas que produzem esse tipo de trabalho para muitos o processo é mesmo solitário em atelier. Eu mesmo tenho os dois momentos no processo, de reclusão e controle no atelier e o de abertura e engajamento social nas ruas com as performances.

AC: Ainda pensando nessa interação proporcionada por projetos como o seu, você acha que levar a obra para além do espaço sagrado do museu contribui para o processo de democratização e apropriação da arte?

Liene: Com certeza, para mim é importante tornar a arte mais accessível e chegar a um público que não visita espaços de arte ou museus.  Levar a arte para a rua é indispensável para essa democratização.  Também acredito na arte educação como catalisador  dessa democratização. Uma das experiências que me marcou muito, foi quando eu trabalhava como arte educadora na Bienal de São Paulo em 2003, fazendo visita guiadas a grupos de adultos sendo alfabetizados. Era um grande desafio introduzir, em uma hora de visita, o que era arte contemporânea, para uma maioria que  nunca tinham entrado em um museu; entretanto era muito gratificante quando alguns deles saiam tocados pela experiência. Esse espaço da arte educação é muito importante, hoje em dia eu continuo trabalhando com arte educação em escola e é uma base muito importante para esse processo de democratização

AC: Tem planos de trazer algum desses projetos para o Brasil? Já pensou em como seria fazer uma performance como Collecting Impressions para uma cidade como São Paulo?

Liene: Quero muito poder realizar esse projeto no Brasil e ver as diferenças e semelhanças da interação com público de quando eu apresento aqui nos Estados Unidos, ver como um mesmo trabalho acontece em diferentes cidades e culturas.

Acabei de escrever o projeto Coletando Impressões – São Paulo e já comecei a envia-lo para editais, mas também estou aberta a convites. O local que mais tenho vontade de fazer as caminhadas é no centro de SP pois sempre tive um fascínio por essa região, pela vida, espontaneidade, dinâmica e improvisação.

Até 31/12 – Performance Collecting Impressions – Peekskill Project 6

Até 07/03/2016 – Exposição coletiva Greater New York, no MoMA PS1

 

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