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Todos os Caetanos do Mundo: Celebração em jeito de nome

Abre Aspas

* Por Beatriz Farias

O primeiro contato que tive com a música de Todos os Caetanos do Mundo foi através de uma miniatura no Facebook, onde não entendia se o título do vídeo referia-se ao nome de uma música ou da banda. Após assistir várias vezes não foi difícil entender a usualidade do nome, já que acima de cantar músicas do Caetano a priori, a identificação indireta observada entre banda e o cantor se dá pela constante inovação dentro de um contexto repleto de possibilidades. Caetano foi uma das minhas primeiras revoluções musicais, porque cantando “Sozinho” ou “Abraçaço” é impossível não modificar alguma coisa em si ao ouvir. E é dessa revolução que identifiquei semelhança, já que ao ouvir “Pega a melodia e engole”, primeiro disco da banda, é renovado com vigor o sentimento de novidade, o discurso avesso ao esperado, a graça de misturar sons e assim chegar a uma coesão que especifica a ideia de banda.

Foto Guto Muniz

Foto: Guto Muniz

Com esse espírito de inovação, a banda lança seu disco e o Armazém traz uma entrevista especial com Julia Branco!

Armazém de Cultura: Temos muita curiosidade sobre o nome das bandas e o de vocês é bem interessante! Tem alguma história, como surgiu?

Julia Branco: A Todos os Caetanos do Mundo nasceu de um projeto meu (Julia Branco) e do Luiz Rocha. A ideia era tocar músicas do Caetano Veloso e coisas que influenciam e são influenciadas por ele, incluindo, desde o início, as nossas próprias canções. Por isso, Todos os Caetanos do Mundo. Acho importante dizer que desde o início desse projeto (e que só mais tarde se tornou uma banda) a gente fazia releituras das músicas que não eram as nossas próprias, ou seja, nunca fizemos cover.

AC: A banda surgiu em 2009 e agora vocês lançaram o primeiro disco, “Pega a melodia e engole”. O que mudou no trabalho de vocês do início da banda até aqui? Como está sendo a recepção do disco pelos que acompanham a banda desde então?

Julia: Quando o projeto surgiu, era só eu e o Luiz. Depois, chegaram outros integrantes e só no fim de 2012 chegamos até a formação atual: eu, Luiz, Thiago Braga e Adriano Goyatá. Quando chegamos nesse quarteto, a gente percebeu “puxa, agora chegamos um pouco no som que é a nossa cara”. Depois disso, “a nossa cara” também foi mudando (risos). Passamos 2 anos no processo total de gravação do disco, 1 ano na produção disso e 1 ano em estúdio. Nossa convivência com o Chico Neves (produtor do “Pega a melodia e engole”) foi muito intensa e especial, e isso também fez a banda mudar. Acredito que a nossa mudança como pessoas acaba reverberando no som que estamos fazendo ali, não tem jeito, é o seu corpo, é sua voz, se algo em você muda, a música também muda. Acho que amadurecemos a nossa música e fortalecemos a singularidade de cada um.

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Sobre a recepção do disco, temos tido vários retornos legais. Muita gente vem falar com a gente que ouve as músicas, que tal música mexeu com ela, muita gente que a gente admira, muita gente que a gente não conhece e isso é uma alegria enorme. O disco tem um tempo pra chegar nas pessoas e temos percebido esse movimento de forma muito bonita.

AC: O disco foi financiado via financiamento coletivo, o que tem se tornado uma tendência e é cada vez mais frequente entre os artistas com quem temos conversado. Como foi a experiência para vocês? Vocês acham que essa proximidade gerada pela possibilidade do público contribuir ativamente no trabalho do músico, tem alterado a forma de se pensar na produção do trabalho?

Julia: Fizemos um crowdfunding para viabilizar a gravação do nosso disco e não conseguimos arrecadar toda a nossa meta. Porém, a plataforma que utilizamos não exigia que o dinheiro fosse devolvido caso não fosse arrecadado integralmente, então podemos dizer que, financeiramente, o crowdfunding nos ajudou. Sobre a proximidade que o crowdfunding provoca, isso é realmente muito legal. Cada vez mais acho que a relação entre artista e público tem acontecido sem muitos intermediários, hoje temos a facilidade de poder mandar uma mensagem de facebook para um ídolo, por exemplo. Com certeza isso modifica radicalmente a forma de produção do trabalho, as pessoas querem se encontrar, querem estar por perto, essa figura da “diva inatingível” me soa algo cada vez mais distante. Gosto da internet poder aproximar as pessoas. Como será o mercado musical no futuro, ninguém sabe, mas acho que é importante acolher o que a internet tem trazido pras nossas vidas e não ficar refém de como as coisas se organizavam antes.

AC: Vocês lançaram dois vídeos recentemente, poderiam contar um pouco sobre a escolha das músicas e como foi a gravação?

Julia: Os dois vídeos lançados são das canções “Sim” e “Amanhã é véspera”, ambas do Luiz Rocha. A estreia do nosso show de lançamento aconteceu no Teatro Bradesco e queríamos muito registrar esse momento, então convidamos o cineasta Alexandre Baxter (Belo Horizonte/MG) para filmar. A “Sim” abriu o nosso show e “Amanhã é véspera” aconteceu na metade do nosso repertório. Achamos que essas duas canções representavam bem a cara do nosso show e a nossa relação com o palco, com o espaço da cena. O Baxter sobre explorar isso de uma forma bem interessante, pegando diversos ângulos dos nossos movimentos nos dois vídeos. Acho um registro bem especial do nosso trabalho ao vivo.

Ouça “Sim”:

AC: A faixa-título do disco teve participação do Arnaldo Antunes, como foi a experiência? Vocês consideram o trabalho do Arnaldo como referência musical?

Julia: O Arnaldo Antunes é uma referência pra gente desde o inicinho da banda. Já chegamos a tocar algumas canções dele nos nossos shows (e no nosso repertório atual fazemos a releitura de duas músicas dele: “Contato Imediato” e “E estamos conversados”) e sempre pensamos nele como esse artista que alia um discurso direto, do simples, do cotidiano, a uma poesia muito profunda. Isso, de alguma forma, é o que procuramos desenvolver no nosso trabalho.

Na época da gravação do disco enviamos a música “Pega a melodia e engole” pra ele e ele topou gravar. Foi um presente sem tamanho. O Arnaldo gravou tudo numa tarde, lá no estúdio do Chico e foi bem especial. A faixa-título acabou sintetizando a cara do disco de uma forma muito potente. Acho que até hoje a gente tem que se beliscar pra ter certeza de que isso realmente aconteceu (risos).

AC: Falando nisso, com que artistas contemporâneo se identificam? O que indicaria para quem gostou do trabalho de vocês?

Julia: Cada pessoa da banda vem de um lugar, de um tipo de formação e posso dizer que cada um de nós escuta coisas bem diferentes. E isso é interessante, temos referências bem distintas e pessoais de cada um. Mas, falando de um ponto em comum nosso, somos fãs e amigos da A Banda Mais Bonita da Cidade. Fizemos um vídeo juntos em 2014 e somos bandas que se gostam muito.
Sobre outros artistas contemporâneos, vou falar então do que eu gosto de ouvir. Sou apaixonada pela Letícia Novaes, da banda Letuce. Gosto muito do César Lacerda, Tulipa Ruiz, Mariana Aydar (essa última tenho ouvido cada vez mais, o disco novo dela “Pedaço de uma asa”, é uma pedrada ). Recentemente ouvi o trabalho da banda “Baleia” e fiquei fascinada. Gosto da banda “Tono”, tenho ouvido muito o disco novo da Ana Lomelino “Mãeana”. E sou completamente louca pelo trabalho de uma cantora marroquina, chamada Hindi Zahra. Ouço tudo. Puxa, tirando o César, só falei mulher, né? (risos).

Todos os Caetanos do Mundo + A Banda Mais Bonita da Cidade:

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