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CCXP: Califórnia – Reflexos, pequenas explosões e fogos de artifícios no filme de Marina Person

selo CCXP

*Por Beatriz Farias

Nunca me interessei especificamente pela Califórnia, mas se me fosse proposto, teria facilmente trocado a festa de quinze anos (que também não tive) por uma viagem. Essa primeira identificação banal  foi o fio condutor para que muitas outras viessem, levando-me a embarcar de vez na “Califórnia“, de Marina Person. O primeiro filme de ficção da diretora conta a história de Estela (Clara Gallo), uma adolescente em 1984 lidando com os perrengues e maravilhas que a fase propõe: amores, amigos, sexo. Seu tio Carlos (Caio Blat), jornalista cultural que mora na Califórnia, é seu melhor amigo e o grande sonho da garota é a viagem que optou no lugar da festa de debutante para visitá-lo. Tudo muda porém quando o tio volta doente para o Brasil, a partir daí Estela se depara com outra realidade e uma forma diferente de observar o mundo.

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O desejo que a sinopse despertou em assistir ia além da história principal, mas provinha da curiosidade na forma de se contar essa história. Curiosidade aflorada pelo painel da Comic Con Experience 2015, que contou na quinta feira, dia 3 – mesmo dia de estreia do filme – com a presença de Marina Person (que já foi VJ na MTV e apresentou programas como o Metrópole, na TV Cultura) e o produtor Gustavo Rosa, apresentando trailers, teasers, comentando influências e discutindo as dificuldades de se fazer um longa atualmente.

Por estar nesse estágio da existência, tenho certa aversão a filmes que retratem adolescentes. Me soa incômoda a caricatura opressiva que criam em torno da juventude onde o mais importante é generalizar a revolta e futilidade que se encontra a flor da pele na idade. Como comentou o mediador do painel,  é necessário ter cuidado para que não soe como um filme de adultos falando de jovens: “sempre fica meio de cima pra baixo”. “Califórnia” subverte essa lógica tratando com carinho os dramas e inseguranças da fase. O personagem do tio Carlos reforça essa ideia ao não menosprezar o sofrimento da sobrinha, deixando que ela reclame de sua rotina entediante sem lições de moral, a opinião da garota realmente é relevante.

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Se a figura do tio tem importância no incomum, o protagonismo de Estela é o oposto do que já estamos acostumados. A atuação crua de Clara Gallo é apegada a espontaneidade, não se tem o estereótipo da garota popular que todos desejam nem a excluída que ninguém quer por perto. Estela permeia características de ambas as situações com uma profundidade tão realista que chega ser suave, o papel deixa claro uma ideia defendida até por outro personagem: porque as coisas precisam ser sempre tão definidas? JM, que em vários momentos questiona essa necessidade no mundo de tudo ser “preto ou branco” é a personificação da palavra interessante, o que poderia soar forçado ganhou frescor na forma com que Caio Horowicz lidou, proporcionando uma atuação misteriosa ao mesmo tempo que divertida.

Confira nossa galeria de fotos da CCXP 2015

O tempo em que o filme se ambienta é apresentado de forma honesta, fugindo dos apelos linguísticos e  da necessidade de a todo instante declarar que se passa em 1984. O entendimento acontece pelos tons de nostalgia e a fotografia repleta de referências, uma gíria aqui outra ali numa naturalidade tão grande que aquele “chocante” não parece fora do lugar. A AIDS é retratada com bastante sutileza sem precisar que se pronuncie seu nome – sendo citado apenas no fim -, somado a acontecimentos históricos como o movimento “Diretas já” que é inserido discretamente por meio de uma conversa ou cartaz, enriquecendo a narrativa, porém sem deixar que se torne o foco. Já a trilha sonora é uma obra prima a parte. Passando por The Cure a Kid Abelha é impossível não sentir “saudade de um negócio que eu nem vivi” – como consta o depoimento que a diretora afirmou ter ouvido de uma “garota novinha” após a exibição do filme no Festival do Rio.

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Ao serem questionados pela nossa redação sobre influências não apenas cinematográficas que tenham uma relação entre autor e obra mais subjetivamente, Gustavo Rosa reponde pela Marina apontando sua relação com Caetano Veloso: “nenhuma letra dele é autobiográfica, e todas são”, fazendo um paralelo ao filme, que pode não contar diretamente a história da diretora, mas ao analisar a escolha de atores, ou caminhos a seguir no roteiro, deixam explicito ali também sua adolescência.

Acompanhe o conteúdo especial sobre a CCXP 2015

Essa foto é fruto de vários desacertos. Após sair da sala de cinema, queria uma fotografia do cartaz para registrar a boa sensação que o filme me havia ocorrido. Porém como a maioria das importantes reflexões que fazemos, o que aparece espelhado não é necessariamente o esperado e sim o que ali fincou sem compreensão instantânea. O pôster pregado na porta que dava para a rua do Caixa Belas Artes armazenou o sol que fazia do lado de fora, deixando na parte de dentro esses fogos de artifícios que a princípio causou-me revolta. Por falar de interior tem um pouquinho de mim ali aparecendo, e esse espelhamento é entendido ao assistir o longa e se dar conta que certos detalhes ultrapassam gerações.

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Talvez a dificuldade de comunicação valorizasse mais as formas de se conectar por meio da palavra, se comparado a certa banalização do encontro no momento em que vivemos. Mas a gente ainda apresenta músicas na esperança de que aquilo comunique o que não conseguimos expressar, ainda indicamos livros que sugiram ideologias que talvez não saibamos explicar porque tão enraizada em nós. E é essa conclusão que o filme sugere ao mostrar que os meios podem até foram aperfeiçoados, mas as coisas não mudaram tanto assim de lá pra cá. Essa sacada é exposta logo na campanha que fizeram onde soltavam teasers aproximando os comportamentos de 31 anos atrás com os que acercam nosso cotidiano.

Assista aos teasers na página do Facebook de “Califórnia” 

Apesar da escolha certeira de externas que mostram uma SP bem mais tranquila, entende-se quando a diretora faz questão de frisar que é “um filme brasileiro feito em São Paulo”, já que a graça do roteiro é o não espaço. O lugar habitual que Estela se encontra é na necessidade de estar em outro. “A vida é o que já aconteceu enquanto você está ocupado fazendo outros planos”, observa a frase de John Lennon que foi escolhida para compor a capa, dialogando com essa precisão de que a felicidade seja um destino reservado. Porém o que se absorve após sair do cinema é essa imprecisão característica do estar, no momento em que a vida se apresenta sem condições de planejamento é onde se encontra a plenitude, o ser feliz no instante “incapturável” chamado agora.

Assista o trailer oficial de “Califórnia”:

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