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Artists’ Alley da CCXP: Aqui é o lugar do artista

selo CCXP

 

*Por Meiri Farias e Beatriz Farias

Falta de informação é um drama, mas excesso também é pecado na vida de um jornalista. Durante a cobertura que fizemos da Comic Con Experience em 2014, os eventos que mais acompanhamos tinham como foco o quadrinho nacional. Ainda assim, com um excesso inacreditável de material, não foi possível fazer a grande matéria que planejei. Os motivos da época foram diversos, mas o principal foi a falta de tempo para organizar tanto material de forma coerente. De toda forma, isso criou uma frustração imensa em nós e um propósito bastante definido para essa edição da CCXP: trabalhar conteúdo 100% nacional e com foco em quadrinhos. É engraçado perceber que, de forma natural, o blog acabou se adaptando a essa diretriz involuntária no decorrer do ano, ampliando cada vez mais o espaço para discutir a produção de HQ e juntamente a música, o quadrinho se tornou o tema central do Armazém. Nesse espírito, ligamos nosso radar para o tema desde o momento que colocamos os pés no São Paulo Expo. O texto que segue traz um pouco de todas essas percepções, nos painéis, nos encontros, mas principalmente na Artists’ Alley (em tradução literal, algo como ‘Beco dos Artista’), que é definitivamente o espaço mais importante da convenção e de qualquer evento de cultura pop que se preze.

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No texto anterior (Entre a grama do vizinho e um jardim a ser regado), dissertei longamente sobre a urgência de colocar o nacional em primeiro plano na CCXP e se torna claro o porquê ao andar com atenção pela Artists’ Alley (o que só conseguimos fazer com o devido cuidado no segundo dia, sexta, devido a quantidade inacreditável de pessoas que circulavam por lá). O aumento de mesas trouxe mais variedade para a área, que comportou 265 artistas dos mais diversos estilos e formatos. A grande maioria brasileiros, mas curiosamente, quando a divulgação do evento destaca o crescimento da área, os nomes citados são de exceções internacionais como David Finch ou artistas que produzem para o mercado exterior como Mike Deodato Jr. Ou seja, o espaço é majoritariamente de produção nacional e independe, mas o que se torna célebre é o outro lado. A parte os descontentamentos com essa postura – que obviamente não é exclusiva da CCXP – é importante destacar o fator de incentivo que esses eventos desenvolvem nos artistas “A gente produz já pensando em vir lançar aqui na Comic Con. É um impulso maior para produzir”, explica Alexandre Leoni, que lançou o livro A vida oculta de Fernando Pessoa. Alexandre participou da edição anterior como visitante e se preparou para expor na CCXP 2015. Aliás, sua opinião no que diz a respeito do conteúdo nacional é muito semelhante a nossa. “Passei muito tempo no Artists’ Alley, não tenho tanto interesse pelos grandes estúdios” e completa. “Aqui é o lugar do artista.”

Murilo Martins também enxerga o potencial das convenções para chamar atenção para o lançamento. Autor do elogiado Eu Sou um Pastor Alemão que foi lançado originalmente em inglês em uma convenção no Canadá, apresentou na CCXP a sequência da HQ. “É difícil saber o que alimenta o outro, mas os dois se alimentam” explica. “Não sei se começou a aparecer mais feiras porque as pessoas começaram a produzir, ou o contrário.”

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Artistas consagrados também aproveitam a solenidade da Comic para grandes anúncios. Acompanhado pelo próprio Mauricio de Sousa, Sidney Gusman, editor da MSP e do portal Universo HQ, apresentou o teaser da adaptação da GraphicMSP Turma da Mônica Laços para um filme em live-action. O auditório Ultra repleto entrou em êxtase com o anúncio e com a presença da figura que é para muitos, inclusive para a pessoa que vos fala, o responsável pelo primeiro contato com uma história em quadrinhos. O mestre do quadrinho nacional é homenageado pelos seus 80 anos com reconhecimento unânime e seus “herdeiros”, jovens artistas como Lu e Vitor Cafaggi autores de Laços, estão criando sua própria linguagem e começam a formar pequenas aglomerações pelo pavilhão.

 

Valorização do produto: HQ autoral de qualidade

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Do papel para a tela, da tela para o papel. As formas de consumir histórias em quadrinho estão cada vez mais diversificadas e acaba gerando modelos de negócios diferentes que ajudam a incorporar o artista que está do lado de fora das grandes editoras. Rebeca Prado, autora do livro Navio Dragão e da webtira Viver é Pesado, explica que o público está procurando o quadrinho físico que conheceu pela versão digital na internet. A quadrinista mineira também destaca a sensação de “profissionalização” que acaba sendo atribuído ao material, que nascia de forma quase artesanal. “Até então, o quadrinho autoral era uma coisa meio B, não tinha cara de livro”. “Era uma coisa feita a mão”, completa Paula Markiewicz, colorista da GraphicMSP Turma da Mônica Lições, destacando o estilo “fanzine” que as HQs tinham antigamente. As artistas também destacam como o aumento de espaço diversifica o público. “Antes o quadrinho era um negócio muito de nicho, hoje você está em um lugar onde qualquer um pode comprar. E na mão do autor, o que é mais maravilhoso ainda”, lembra Rebeca, explicando que quando o autor está na mesa, vende bem mais. Brão Barbosa, autor de Jesus Rocks e Feliz Aniversário minha amada, também reforça o aumento de público na área. “A galera não passa só para olhar, mas compra também.”

Confira nossa galeria de fotos!

Com os olhares voltados para o autoral, a exigência pela qualidade também aumenta aponta Marco Oliveira. “O quadrinho de autor está sendo mais valorizado”, reflete o artista enquanto explica que hoje o independente não deixa nada a desejar para as grandes editoras, embora ainda tenha que lidar com a dificuldade de distribuição, já que como raramente conseguem vender por meio das grandes livrarias o caminho fica restrito a feiras e internet. “É a possibilidade de você expor o seu trabalho em algum lugar.”

Felipe Nunes, autor de Klaus e Dodô, acha que os artistas ainda têm um caminho a percorrer, mas com o volume e a qualidade aumentando, uma consolidação do formato pode acontecer. “Não acho que exista um mercado, existe uma produção. Mercado vai ser daqui a algum tempo”, explica apontando que agora alguns autores independentes já conseguem viver de sua produção.

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Lugar de Direito

Nós meninas sempre consumimos cultura pop. Sempre produzimos também, mas o mercado – e muitas vezes o público – não enxergava. “Nós estamos aqui, nós não somos só acompanhantes, não estamos ali por hobbie, estamos trabalhando como os homens”, diz Montserrat Montse, roteirista do Studio Seasons especializado em mangá. Montserrat acha que a conquista desse espaço está em evolução, mas precisa ser aperfeiçoada. Entretanto, a abertura e atenção que as artistas estão recebendo já amplia a visibilidade real da mulheres quadrinistas.

Fernanda Nia, autora da webtira e de dois livros Como eu Realmente, aponta o aumento crescente do movimento feminista como fator de impulso. “O assunto entrou em pauta várias vezes e sim, é normal que isso aconteça em todas as esferas da sociedade, não só nos quadrinhos”, diz. Fernanda também destaca o preconceito que ainda existe. “O próprio público as vezes julga o trabalho: se ver que o traço é feminino, fofo, dá uma marginalizada mesmo sem ler”, é o estigma do “quadrinho para menina”. No caso do Como eu Realmente, a protagonista da tira é uma garota, mas as situações vivenciados são universais.

Ainda assim, as meninas comentam que a situação está melhorando bastante. “Sempre existiu essas mulheres, mas agora as pessoas estão brigando por essa visibilidade real”, reflete Montserrat. A artista espera que esse movimento incentive cada vez mais mulheres a irem em eventos, consumirem e se apropriarem de um espaço que também é delas. Nós também esperamos Montserrat.

 

Meios e formatos: quadrinho como negócio

Dos 15 projetos de quadrinhos que já entrevistamos no Armazém, sete lançaram trabalhos por meio de financiamento coletivo (se colocarmos os músicos na conta, o número cresce muito). Programas de fomento e editais como o Proac já abrem categorias específicas para HQ e editoras menores como a Mino e a Nemo – selo de quadrinho da Autêntica, criam um espaço acolhedor para novos artistas que estão se aventurando por esse universo. O mercado, ou melhor, a produção está mais amparada e preparada para lidar de frente com o mainstream.

Acompanhe nosso conteúdo especial CCXP 2015!

Nesse cenário, a CCXP apresentou um painel com a Social Comics, serviço de streaming para quadrinhos que já está sendo chamado de “Netflix dos quadrinhos”. O objetivo é oferecer acesso a conteúdo digital de histórias em quadrinhos por meio de uma assinatura. A empresa nasceu com obras antigas e também inédita e durante o painel apresentou novidades e parcerias com a MSP, Editora Dark Horse, Instituto Seninha, etc.

Na internet ou no tête-à-tête, o quadrinho está encontrando formas de equilibrar o acesso facilitado ao leitor e o impulso a produção. O crescimento óbvio que a Artists’ Alley alcançou de um ano para o outro é importante de ser mencionado pois além de incentivar para que haja uma curadoria mais atenta ao que vem de dentro do país, cria uma autoafirmação dessa necessidade de espaço do artista. O quadrinista (roteirista, colorista) se vê como parte fundamental da cultura do país quando seu trabalho é valorizado e é isso que uma convenção dessa dimensão propicia. A troca direta entre leitor e artista enriquece a ideia de apropriação e impulsiona uma produção com cada vez mais qualidade por diversas plataformas. Dessa forma, é necessário que a área esteja sempre congestionada, é necessário que encontremos fila entre as mesas e o lugar esteja sempre um caos, porque isso indica que existe demanda, procura e uma necessidade. O importante é que essa fome de quadrinho independente que é exortada ao se deparar com tanta novidade cresça, assim como a lista de artistas convidados para o ano que vem.

 

*Em janeiro faremos um especial de resenhas com os livros que compramos na CCXP! continue acompanhando.

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