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As 5 músicas nacionais mais BONITAS de 2015

*Por Beatriz FariasDica

Ao planejar minha última Dica do ano (livremente inspirada na ideia do site Música Pavê) Descobri que escrever do que mais gostamos é essa tarefa deliciosa ao mesmo tempo que arduamente complexa, já que é de importante clareza a percepção que não posso descrever a canção, ai de mim justificá-la. Esse escrever é mais necessidade de devolver um pouquinho do que qualquer outra coisa, mas bem se sabe que o mais bonito mesmo é isso que não se capturou na palavra. A subjetividade que vai te fazer chegar a conclusões diferentes – ou não – das minhas, tornando a música o que ela é em sua mais profunda capacidade de apropriar-se. Sem mais delongas senhoras e senhores, aqui vai minha seleção das 5 músicas mais bonitas do ano.

As 5 músicas mais bonitas de 2015

 

Empoeirado (Thiago k com participação de Paulo Monarco)  

Falar sobre tempo é a impossibilidade de capturar uma beleza que não existe no mundo físico mas que ainda assim necessita de qualquer sinal de que estamos capturando nas lembranças. A música em si tem essa vertente de tornar relativo passado e presente quando nos transporta de nós e faz-nos visitar destinos improváveis. Curiosamente “Empoeirado” entrou nesta lista por ser exatamente o contrário desse caminho. Quando peguei o inconsciente recitando “o tempo é só o tempo inteiro” em semana onde a busca em ser ecoava ausência, entendi o que tornou tão especialmente encantadora a canção é o seu olhar ao tempo com certeza de caminho e nunca de estar completamente entendido. Talvez a canção ainda esteja em processo de feitura dentro de mim, não se aconchega em lugar nenhum mas permeia o corpo todo bagunçando essa necessidade que nos imponhamos de só lembrar das coisas boas enquanto retira a dormência de não sentir, agonia de estar de olhos bem abertos mesclada a uma doçura que desperta. Eu tenho saudade quando ouço essa música. Mas também sou cuidada de alma com a delicadeza em que Thiago K apresenta a canção e a profundidade que Paulo Monarco espelha o que se passa ao ouvir.


Movimento (Desa)

Das particularidades presente nas canções de Desa, “Movimento” em especial abriga convites de importância. Somos conduzidos em principio à vida que ninguém quer ver, força que não se conhece. Uma beleza extraordinariamente triste mesclada a grandiosidade espontânea ampliada pela forma que a cantora enxerga sem filtro, com cores de fazer o coração dançar. Sua percepção é única porque há também um esvaziar-se: “vem brincar de ser ninguém” é o outro convite que martela e incomoda nosso ser repleto de camadas. Nós que estamos acostumados a tudo nomear talvez insistamos na análise desse “ser ninguém” tão “plurissignitificativo”, porém é de se observar que a profundidade aqui está no não ir tão longe na técnica, pois muito mais me cabe quando o percebo no divino, que é som, canção em si. Movimento de desnudar-se, manifestação que independe de crença e se percebe conforme o ser se dispõe a receber. Para o caso de soar abstrato demais para a nossa sanidade ofendida, reforço a concretude com Bituca: “tudo o que move é sagrado”.

*não foi possível encontrar a canção separadamente, portanto no disco começa a partir de 10:46


-Simples Assim (Lenine)  

“No fundo é simples ser feliz, o difícil é ser tão simples” foi o que Leoni afirmou em sua “Nas margens de Mim” e sempre que ouço a canção de Lenine é o primeiro pensamento que me vem a mente. Não que uma opinião anule a grandiosidade de outra, mas as observo alinhadas servindo de lembrete do processo constante que é vestir a alma de simplicidade. Da primeira vez que ouvi a canção-respiro de Lenine tive a sensação de ser golpeada por uma clareza absurdamente transgressora. E ainda agora reparando os efeitos que tomou, sou da opinião de que é espetacularmente revolucionário apontar a grandeza do simples em tempos de tudo tanto, onde o milagre de se apaixonar pela vida soa extremamente extravagante, parece que é de obrigação que não nos permitamos gostar das coisas. Esse egoísmo nosso de cada dia de fechar-se em si na busca desenfreada por encontrar, na maioria das vezes sem fazer ideia do quê. A diferença da música é o despertar a uma esperança inquietante de que os dias melhores chegarão, ou ainda que não, aprender a ver beleza no que é agora (“se eu acredito é minha verdade, e é simples assim”). De maneira nenhuma conformismo, mas um olhar com calma e atenção para redescobrir uma verdade já proferida pelo artista em outra de suas obras primas (e que perfeitamente aqui se conclui): “a vida é tão rara”.


-21 (César Lacerda)

A jornalista e escritora Talita Guimarães ao escrever sobre uma banda em seu blog Ensaios em Foco utilizou de uma expressão da qual aqui me aproprio sobre o autor da canção para melhor entendimento da escolha. César Lacerda tem “voz de abraço”. Perceba que não falo do verbo e sim do ato em si porque se o que vem na letra é envoltura e o que embala no som de tão gracioso é passo de dança, esse laço que não prende como o nó e nem desfaz por sua capacidade de ser tão leve é a simples concretude do já falado, juntar as pontas. Neste processo de compreender a razão de certas músicas se aninharem no ser a ponto de não deixar jamais de ecoar no que machuca a alma, veio-me a reflexão dessa faixa que de especifica vai do título à discreta proposta de descobertas, mas que mesmo assim chegou nesta que escreve como resposta a esses vazios que gritam na gente. Preenchendo com essa graciosidade impecável do sutil, a catarse vem quase que como sua antítese, é no cuidado de adentrar-se em nossa verdade com um carinho de quem pede licença, esse abraço citado que já está sendo e sarando. É importante proferir que “21” não é consolo, o que causaria uma necessidade de conforto que talvez anulasse a beleza desse encontro. É na verdade, uma canção que te olha, e acredito que na maioria dos dias essa gentileza é mais necessária.


-Encabulado (Ravi Landim)    

O cotidiano que eu tanto aprecio e gosto de comentar tem o triste fardo de nos acostumar ao extraordinário, fazendo com que se perca a sensibilidade ao que somos. Então quando fica difícil reconhecer algo no mundo ou mesmo dentro de casa que nos remeta a lar seguro e essa ausência de si aperta, vou de encontro a canção que em diferentes vozes e melodias me respondem ou mesmo abraçam sem muita explicação. “Pra se ouvir basta não falar”. Foi o que encontrei em “Encabulado”, canção de Ravi Landim que por meio de retalhos (como o próprio nome do disco ao qual a canção pertence indica) e uma construção detalhada da delicadeza que me chega até doida, acalmam o coração. Essa canção me devolve. É raiz, saudade, e um encontro ao que as vezes esqueço de pertencer. Gosto de quem ainda sabe “a fala do cheiro e da cor da flor” porque essa mansidão que até envergonha meu caos tem gosto de liberdade, imprecisão de estar a todo instante dando explicações. Após deixar que a canção com seu acordeão de noite iluminada regue todas as securas já esquecidas , sou devorada por uma tranquilidade digna de se morar por todo o tempo, o corpo inteiro aconchegado no silêncio. “E o peito transborda de tanto ser”.


 

*Confira “As 5 Músicas mais bonitas lançadas em 2014”

 

 

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