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2015 em 22 canções – Por Meiri Farias

O ano de 2015 foi cheio de decisões e ciclos finalizados. Dentro de tantas mudanças e turbulências, não é exagero dizer que a música foi um bote salva-vidas. O fato é que sempre levei muito a sério o ato de moldar meu humor por meio de canções e não me canso de enfatizar a importância que uma delas pode ter no salvamento de uma vida, ou pelo menos de uma madrugada. Essa lista começou a ser idealizada a partir do meu aniversário de 22 anos e por isso surgiu a brincadeira de escolher 22 músicas marcantes para o ano, não apenas marcantes para a cena nacional – até porque seria impossível parar no 22 e também ignorar artistas e discos bárbaros que foram lançados – mas tive como objeto, escolher canções que me marcaram pessoalmente. É uma lista um bocado subjetiva e bem diferente do que geralmente escrevo para o Armazém, mas penso que é realmente importante publicá-la. Cada música está comentada e muitas vezes não se trata da minha música favorita do álbum ou do artista, mas sim da música que teve o efeito mais significativo na pessoa que vos fala. Preparados? Em despedida ao ano mais agridoce da década, 2015 em 22 canções.

Original (1)


Rua do Sol – Desa

Escrevi bastante sobre a Desa esse ano, aqui no blog você pode conferir os textos mais detalhados aqui e na Revista Baião de Dois, portanto não vou me ater tanto ao disco. Como já explicitei na resenha, Desa apresentou um dos melhores trabalhos do ano, tanto que acabei escolhendo (com muita dificuldade) uma canção marcante no ano. Rua do Sol encerra Desanuviar com aquela sensação de fim de tarde, chão molhado de uma possível chuva e um sol com cara de crepúsculo insistindo em aparecer. Claro que tudo não passa da minha percepção, uma viagem criada a partir da minha audição ensolarada da cantora alagoana. Rua do Sol tem uma leveza deliciosa em um ano que ser leve foi uma forma de resistência.


Dez Dias – Duda Brack

Tenho a lembrança vívida de quando ouvi essa música pela primeira vez. Na reta final da faculdade, estágio e tudo desabando na cabeça, demorei um pouco para ouvir o disco “É”, primeiro de Duda Brack. Pois bem, vamos ao relato: depois de um dia cansativo, atravessava a cidade entre o trabalho e a aula, calculando mentalmente quantos dias faltavam para jogar tudo para o alto e mandar o mundo explodir. O disco como um todo me tirou do transe, porque não se fica impassível ao que Duda interpreta, incorpora. Mas Dez Dias surgiu quase de forma cômica em meio a esse tanto caos. A música genial de Dani Black desperta essa dor contida no mistério de existir, todos os delírios e a certeza do incerto: corre o grande risco de não sermos nada.


 

Perto de Mim – Pietá

Desde que ouvi essa música em uma versão mais simples, no SoundCloud da banda, senti toda a angustia e alívio que nenhuma palavra pode colocar para fora. Mas a música consegue. Perto de Mim, da banda Pietá, foi a música certa, de um momento incerto. Tenho que confessar que está um bocado difícil escrever sobre ela, talvez a mais difícil da lista. Exatamente por ela ser um grito sussurrado de alívio, uma interjeição de delicado encontro. E o olhar no espelho depois de uma longa viagem de desgosto e descobrir qual é o lugar certo de ficar. Perto de mim e de tudo de beleza e horror que trouxe na bagagem. (Em breve farei uma resenha detalhada sobre o disco Leve o que quiser, aguardem)


Fora de Mim – Dani Black

Pode parecer um trocadilho, mas a sequencia das músicas surgiu de forma espontânea. Dani Black conseguiu a proeza de fazer um disco todo bom, já comentei isso na resenha que fiz logo que o álbum foi lançando. É um disco de hits, sem dúvida nenhuma, com música belíssimas. Mas a música que me pegou de cara, prima pela leveza. Como disse em algumas música anteriores, o ano pesou. O segundo semestre começou com 100 kg de incertezas nas costas. Mas Fora de Mim explicou que a vida tem mais graça quando se aposta no ofício de sonhar e que, tudo bem, você vai se desgastar quando escolhe a intensidade, mas qualquer peso se dissolve se você se permite voar mais alto.


O Zé e a cidade – Angelo Mundy

Abrigação é mais um disco indispensável de 2015, uma obra multiartística que se utiliza de diversas plataformas para comunicar. A poesia versátil de Angelo, apresenta seu lado mais urbano em O Zé e a Cidade. É engraçado como só agora percebo como a escolha das músicas está conectada por elementos em comum, mas essa em específico tem muito do misto de caos e beleza que a cidade que habito – e habita em mim – apresenta diariamente. “Levanta, respira e bola pra frente” é a metáfora máxima de qualquer paulistano. A gente não conhece muito bem o caminho e acaba se virando assim mesmo. A gente é meio “Zé”.


Terminal Alvorada – Cícero

Terminal Alvorada é uma música de beleza cotidiana. Nada de surpreendente ou inacreditável vai acontecer, mas é bonito de observar essa vida que segue sem alarde. O terceiro disco de Cícero parece fechar um ciclo, se talvez não o seja para o artista, é para que o ouve. Os percalços que ultrapassamos desde Canções de Apartamento, a tentar se encontrar em Sábado e chegamos n’A Praia. E a simplicidade é sofisticada, os dias passam e estamos bem. Crescemos, mudamos, a vida continua passando. E estamos bem.


Turquesa – Caio Nunez

Fazia tempo que não encontrava uma música para “grudar”, ouvir ouvir ouvir e cantarolar nas horas mais improváveis, não conseguir tirar da cabeça e querer mostrar para todo mundo. Turquesa é tão bonita que dá vontade de sorrir. O EP Akinauê, do músico carioca Caio Nunez, é todo solar e reconfortante, mas a primeira canção que escutei se tornou a favorita. A música traz aquela sensação de “não sei o que é”, mas que fica por tempo indefinido ecoando. Gosto de ver cor na coisas e já comentei aqui que a música do Caio, de forma geral, chega até mim em tons alaranjados. Mas Turquesa, mesmo que tão ensolarada, tão Rio, faz do azul a cor favorita.


21 – César Lacerda

Foi dificílimo escolher uma música do César. Originalmente, a lista trazia duas faixas do disco Paralelos &Infinitos, 21 e Olhos. Na necessidade de encurtar, me senti obrigada a escolher e, mesmo que de forma dolorida, já que Olhos é uma preciosidade, me senti impelida a escolher 21 por um milhão de razões. A graça e coincidência de ser a idade que eu tinha quando conheci a canção, a beleza inquestionável que carrega, minha irmã cantarolando-a insistentemente, mas principalmente pelo “eu”. O disco que fala de amor, fala de descoberta. E se 2015 foi o ano da desconstrução, dentre esses desabamentos internos surgiram muitas descobertas, a do “eu” principalmente. Quanto horror, quanta beleza! “tudo dói, no entanto tudo vibra”.


Roda do Mundo – Pietá

“Nada nos fincará nesse susto de nos tornarmos adultos”, Roda do Mundo é mais uma das músicas maravilhosas que compõe o disco Leve o que quiser, da banda Pietá. A canção me pegou de cara pela frase de início e nesse desenvolvimento que mostra o quão duro e brusco pode ser o caminho do envelhecer e se reconhecer adulto. Saindo da faculdade, a consciência do ser “gente grande” foi estarrecedora. Esse tatear no escuro que é crescer, esse medo de sentir tanto medo e a ansiedade por uma maturidade que é um processo. O medo e a curiosidade com o que há de vir começou a girar dentro de mim de forma constante.


Valsa – Leo Middea

Em 2015 fui arrastada pela intensidade da música do Leo Middea (lembra da “voz de abraço” citada pela Beatriz e pela Talita Guimarães? é aplicável). Por meses escutei o primeiro disco “Dois” de forma compulsiva, mas tudo começou com uma música mais recente, o vídeo divulgado pelo coletivo Mira, onde Leo interpreta Valsa, beleza que dói. A canção é agridoce, é saudade, é nostalgia. Mas é beleza em todos esse sentidos. “Eu ando pedindo pra Deus um botão de replay”.


O que eu quero – Paulo Novaes

O disco Esfera, do Paulo Novaes, chegará só em 2016, mas o artista já divulgou uma faixa que já faz parte do seu repertório. O que eu Quero já era uma das minhas favoritas, mas foi muito bom escutá-la em sua versão definitiva. Nesse ano cheio de nuances, clarear as incertezas é uma iniciativa muito bem-vinda. A arte, de forma especial, a música tem um poder muito interessante sobre o meu humor. E em meio a tanto caos, gritar que a vida é linda é um é uma ato de gentileza. Também quero provar que a vida é linda.


Bem Mais – Dani Black

Bem Mais chega até essa lista no extremo oposto da outra canção do Dani que já citei, Fora de Mim. Bem Mais é dolorida, para mim. Ela me traz essa sensação de alcançar um objetivo, talvez realizar um desejo. E descobrir que a felicidade prometida pelo sonho não é suficiente e logo breve, você já precisar ir bem mais longe. Quando escutei a música ao vivo no piano, durante um show que Dani fez no teatro do SESI em São Paulo, encontrei o avesso desse sentimento. Talvez o “bem mais longe” não esteja atrelado ao sentimento de sucesso fracassado, mas seja o impulso. O desejo de chegar ao longe, que talvez não seja tão ruim assim.


Isabel (carta de um pai aflito) – Cícero

Isabel é uma música tão boa que nem precisa de tanta explicação para ser gostável. Claro que há razões de identificação claras, mas meus principais motivos para gostar de uma canção nunca se dão por questões práticas e fáceis de apontar. A subjetividade é uma coisa muito louca, mesmo. Mas se é preciso pontuar, até mesmo para justificar esse texto, a frase “Isabel, a vida só vai melhorar aí dentro da sua cabeça”, dá um panorama bem claro para pessoas que, como eu, são imaginativas demais e gostam de governar o universo da mente. A melodia acelerada da música me dá uma sensação absolutamente oposta, um impulso para fazer algo imediatamente. Um empurrão para saltar desse universo particular diretamente para o agir.


Peraí – bandavoou

Como me dediquei a dissertar sobre essa música na entrevista que publiquei com o pessoal da bandavoou, não vou me alongar, é possível conferir o relato completo (e bem mais detalhado) aqui. Para não passar batido, fico com a batida. Peraí é uma música que te pega pelo pandeiro, pela regionalidade e continua batucando por tempo indefinido.


Empoeirado – Thiago K

Aspiro a escrita desde criança, mas na adolescência a urgência de colocar o coração no papel se deu por inúmeros motivos. Nessa época, mantive um blog – bem diferente desse aqui – com carinha de diário e local dos meus devaneios dessa fase tão maluca. De forma involuntária um tema começou a dominar a maioria dos textos e se tornou uma temática constante em tudo o que escrevo: falar sobre o tempo e todas as metáforas que o cercam passou a ser minha tentativa de aprender a lidar com ele. “Tempo é raio natimorto” foi a frase que me fez parar, abrir a guia do Youtube onde a canção de Thiago K e Sandro Dornelles tocava e voltar para o início da canção, a fim de escutá-la novamente e novamente e novamente. Gosto de forma especial dessa versão em que o Thiago recebe a participação do Paulo Monarco, a emoção e intensidade que ambos os artistas colocam na interpretação da canção faz com ela se torne ainda mais preciosa. E atemporal.


Estado de Poesia – Chico César

A lista já estava fechada quando parei para escutar o disco Estado de Poesia de Chico César com atenção. A faixa título me chamou a atenção pela sensação de familiaridade (mais tarde pesquisando sobre a canção, vi que já foi gravada pela Maria Bethania e talvez por isso já conhecia). Estado de Poesia é uma música de amor, daquelas de quebrar todas as amarguras e restrições com a temática. É para se apaixonar perdida e delicadamente com toda a intensidade de um amor-poema. Mesmo que seja apenas pela canção


Mantra – Edu Sereno

O disco do Edu foi um dos que mais esperei desde que conheci o seu trabalho, desde a entrevista que fizemos ano passado, desde o financiamento coletivo, shows e oportunidades nas quais nos trombamos por aí. Logo na audição do disco, que aconteceu em maio no Espaço Parlapatões, a primeira faixa de O pão que o diabo ama sou, se tornou minha favorita. Penso que Mantra é a canção que melhor sintetiza o trabalho do Edu, esse olhar de crônica, de observador atento a beleza da rotina, do cotidiano. As vésperas de acabar a faculdade, escutar “quatro anos para graduar, e em cinco minutos jogar para o ar” parecia uma perspectiva animadora. Falamos mais sobre a canção (e as demais músicas do disco) no Faixa a Faixa colaborativo que você lê aqui. A minha escolhida, claro, foi mantra.


Encabulado – Ravi Landim

O trabalho do Ravi é mais um exemplo das precisiodades que chegou por meio do TCC. Na busca por um artista de São Paulo com influência da cultura nordestina, Ravi abriu sua casa e suas histórias para compartilhar um pouco das suas raízes, como destacou na dedicatória que fez no meu disco. Esse sentimento de raiz, tão presente em todas as músicas, transbordou em Encabulado. A música é tão bonita, mas tão bonita, que entrou na lista da Beatriz de músicas mais bonita do ano (por sinal, você vai encontrar mais pontos de encontro nas duas listas) e não poderia se ausentar da minha. “Pra se ouvir, basta não falar”. Precisa escrever mais? escute!


 


Nesse Lugar – Lemoskine

Pangea I Palace II é o segundo disco de Rodrigo Lemos no projeto Lemoskine. Lemos já fez parte de algumas bandas, entre elas A Banda Mais Bonita da Cidade, mas penso que é dentro do Lemoskine que é possível entender sua verdadeira voz. Nesse Lugar é o início épico do sucessor do (ótimo) Toda Casa Crua e gosto particularmente dessa versão no Estúdio Showlivre, onde percebemos com mais clareza a presença da banda como um todo. É uma canção realmente muito boa para escutar hoje: “Posso não estar em mim enquanto juro, quem vai mudar o mundo sou eu”.


Anuviar – Gal Costa

Foi bem difícil escolher uma música da Gal, o disco Estratosférica é fabuloso, clássico e moderno como a própria Gal e um dos meus favoritos do ano. Depois de um intenso embate entre a faixa título, Espelho d’água e Anuviar, a última ganhou. Anuviar é uma divagação incomoda, é u sair de si sem a leveza do devaneio. Na reta final de um 2015, é um suspiro pesado que pede por nuvens em uma seca em que minha cidade, interna e externa clamou por chuva.


Corte e Costura – Achiles Neto

Corte e Costura é outra canção da qual já falei em outra oportunidade com mais detalhes (aqui), mas me pareceu impossível não incluí-la nessa lista. Achiles Neto fez uma música sobre o amor na vida real, dissociado do mito inalcançável e verdadeiramente ligado aos processos cotidianos. Corte e Costura é uma canção para ser aplicada na vida.


Castanho – Lenine

Castanho não é a minha música favorita do Lenine, quiçá de Carbono, um disco fantástico e cheio de ótimas canções. Mas definitivamente é a canção mais marcante para lembrar 2015. O trecho “O que eu sou, sou em par. Não cheguei aqui sozinho”, abre os agradecimentos do meu relatório de conclusão de curso e fechou a apresentação da minha banca do TCC. O ano que abrigou milhares de anos e seus respectivos dramas, fez de mim “oficialmente” jornalista com literalmente suor e lágrimas. Obviamente nada disso seria possível – o ano, a faculdade, a vida – se não fosse os pares, companhias, as pessoas que se dignaram a atar laços e caminhar junto. Ser em par, Ser em grupo. Ser pela coletividade.


 

Bônus: Pássaros – Pitanga em Pé de Amora

Essa é outra que chegou depois de a lista fechada e sem condições de mais alterações. Também entra como bônus por ainda não ter uma versão no Youtube (é possível escutá-la nesse link dentro do Facebook). Como toda música do Pitanga, Pássaros é delicadamente infalível. Se iniciar um ano novo é dar um reset e saltar no escuro, já tenho o mantra para esse mergulho:

“Já sei de cor e salteado

Que não sei de coisa alguma,

E eu aceito de bom grado

o suspense, a aventura”

 

 

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