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Só o Louco sabe: O personagem mais insano da Turma da Mônica foge pelas páginas de Rogério Coelho

São*Por Meiri Farias

– O senhor acha que eu estou enlouquecendo?
– Eu acho que sim! Você está louca, maluca, perdeu a razão. Mas eu vou te contar um segredo. “As melhores pessoas, são assim.”
(Alice in Wonderland – 2010)

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Tenho imensa curiosidade pelo significado denotativo das palavras, sempre fui uma devoradora de dicionários e gosto de pesquisar a origem etimológica de cada verbete. Mas para começar esse texto, a definição que mais me chamou a atenção foi a da Wikipédia – que mesmo não sendo o meio de pesquisa com mais credibilidade – sempre traz um ponto de partida interessante para as discussões. Muito além da triste realidade enquanto patologia, a definição da palavra “loucura” trouxe uma reflexão curiosa sobre como a incorporamos no nosso vocabulário cotidianamente. “A loucura ou insânia é segundo a psicologia uma condição da mente humana caracterizada por pensamentos considerados anormais pela sociedade.” (Wikipédia, atualização novembro de 2013). Ao estabelecer que a loucura se opõe diretamente a normalidade, surge o questionamento: o que é normal? que tipo de muros estamos construindo entre nós, supostamente lúcidos e (argh) normais e as pessoas que, seja por uma questão de saúde ou mesmo de opção, decidem olhar o mundo de uma forma diferente?

No universo do Mauricio de Sousa, o Louco é sinônimo de imprevisibilidade. Como suas histórias acontecem na linha tênue entre a “realidade” e o absoluto nonsense,  a notícia de sua versão em GraphicMSP chegou carregada de expectativa. Arrisco a dizer que, pelo menos para mim, a curiosidade de ver o personagem com um traço diferente se mesclava com o temor do quanto a essência poderia se perder. Se tudo é “permitido” ou pelo menos aceitável no universo do Louco, como saber até que ponto uma nova versão seria lógica? ou melhor, crível, já que lógica é o de menos quando se trata do personagem.

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Pois bem, o temor deu lugar ao deslumbramento habitual que se tem ao abrir uma Graphic pela primeira vez. Lançada em novembro no FIQ (Festival Internacional de Quadrinho que acontece em Belo Horizonte – MG), mas só adquiri meu exemplar um pouco mais tarde, em dezembro na Comic Con Experience. O fato é que por muito pouco essa compra não foi adiada. Com o foco de comprar apenas na Artist’s Alley e cobrir os painéis nacionais, quase não sobrou tempo de turistar nas prateleiras das lojas. Já no fim do último dia, criamos coragem e adentramos a Panini com a desculpa  de comprar um gibi, caçar alguma HQ baratinha apenas para alimentar um pouco nosso ego nerd (muito em baixa com nossas pouquíssimas aquisições. Ir em convenção apenas para trabalhar não é nada fácil), mas nem a pessoa mais contralada consegue ficar impassível a avalanche de títulos com a qual nos deparamos nesse tipo de loja. Atravessamos a prateleira da MSP assim como o Louco atravessa as páginas de Fuga, apressadamente, mas não o suficiente para fugir do canto do pássaro. Não era o plano, mas saímos com o lançamento na sacola. E aquela curiosidade imensa para atravessar todas as páginas com o personagem mais insano do Mauricio.

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Originalmente, o Louco foi criado por Marcio Araújo, irmão de Mauricio em 1973, época que era roteirista do estúdio. O personagem apareceu pela primeira vez na revista do Cebolinha, ou melhor, o Cenourinha como ele acostumou a chamar o amiguinho troca letras. Se no início o personagem era um rapaz que literalmente fugiu do hospício, com o tempo o universo maluquinho de Licurgo Orival Umbelino Cafiaspirino de Oliverira foi mergulhando cada vez mais na metalinguagem e brincando com o sentido das palavras e a personificação delas. Em 2008 com a chegada das Turma da Mônica Jovem, o personagem ganha um espaço muito interessante e indicativo na história. Agora chamando apenas de Licurgo, o Louco (“quem é louco?!”) é um dos professores da Turma, que mantém sua personalidade instável, mas também é responsável por alguns episódios reflexivos e que confrontam o status quo da história. Em Fuga, Rogério Coelho leva a metalinguagem até as últimas consequências: Louco está em uma narrativa sobre narrativas, onde busca qual é a sua história. Uma homenagem bonita e delicada que dialoga com outras Graphics publicadas e também nos leva a refletir sobre o quanto a imaginação pode ser libertadora.

O enredo de desenrola na insistência do Louco para libertar um pássaro de canto marcante. O mais interessante é ver como por meio dessa narrativa, vamos compreendendo como se estabelece a relação do leitor com a obra e com a história que quer contar. Louco está contando sua história e também participando dela, o suspense e até mesmo, certa tensão para descobrir se o Louco conseguirá libertar o pássaro se intercala com a leveza da narração. A história é delicada e intensa, oferece várias interpretações dependendo da forma que o leitor se relaciona com o livro, com a leitura. Ao mesmo tempo, estamos falando do Louco e cada balão vem acompanhado de uma tirada genial e hilária. Rir e emocionar, Rogério Coelho acertou no ponto certo para construir uma grande obra. Isso sem modificar o que mais adoramos no Louco, sua doce insanidade, muito mais lúcida que a nossa “normalidade”.

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Após terminar uma das inúmeras leitura que fiz da Graphic, voltei a questionar o habitual conceito de “loucura”. A pesquisa rendeu e com a ajuda de alguns amigos, comecei a listar incansavelmente personagens que chamamos de louco na literatura e no cinema. A lista – que continua crescendo – resgatou loucos literários como Dom Quixote de Miguel Cervantes, Hamlet do Shakespeare e o Alienista de Machado de Assis. Na cultura pop lembramos do Joker em Batman, Dori em Procurando Nemo, O Máskara, e uma variedade imensa de personagens em Harry Potter que transitam da doçura de Luna Lovegood a excentricidade de Alvo Dumbledore, passando pela sádica Belatriz Lestrange. Personagens diferentes, por vezes representantes de extremos absolutos que vão de doces e ingênuos para vilões cruéis. Ainda assim, loucos, todos loucos. Entre esses exemplos, um específico me chamou a atenção pela semelhança com o Louco da Turminha. Criado pelo Lewis Carroll, o Chapeleiro Louco de Alice no País das Maravilhas, já ganhou diversas adaptações, mas destaco a mais recente dirigida por Tim Burton e interpretada pelo Johnny Depp. Assim como o Licurgo, o Chapeleiro é imprevisível, divertido, absolutamente insano e, no entanto, é a sua loucura é o que faz todo um universo justificável. A ausência de um olhar sintonizado com o que é comumente considerado normal, socialmente aceito, faz de ambos os personagens mais corajosos da história e responsáveis pelo ponto de virada que “salva” o dia.

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Governar seu universo interior segundo leis próprias, não aceitar imposições externas. Loucura ou coragem? Rogério Coelho trata o assunto com firmeza ao desafiar até mesmo os limites do quadrinho. Louco salta pelas páginas de forma horizontal e sua história é contada com as cores fantásticas de Francis Ortolan. Uma narrativa cheia de easter eggs com a participação da Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão escutando as histórias do Louco. Vale destacar a relação com Cenourinha (opa!) e os “laços” estabelecidos com a turminha que aprende a lição mais importante da história: Precisamos escutar o pássaro e libertar nossa imaginação.

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