Especial Aniversário de São Paulo / Questão de Opinião / São Paulo das Culturas / Uncategorized

(Não) Existe amor em SP

*Por Meiri Farias

não existe amor em SP

“Por que ninguém nos ensina a amar São Paulo?”, era o trecho da coluna de Ruth Manus no portal do jornal o Estado de São Paulo  na última semana. De fato, ninguém nos ensina a amar nossa casa, antes é mais fácil ansiar pela glória ou até mesmo os problemas de outras metrópoles, do que abraçar nossa própria contradição e buscar um equilíbrio nesse caos. Mas mesmo quando queremos, não no deixam amar São Paulo. O mesmo jornal supracitado traz em seu editorial de hoje um texto com o título “Desencanto Paulistano”, onde e inicia com os dados da última pesquisa do Ibope Inteligência que revela uma informação curiosa: de cada dez paulistanos, sete dizem que sairiam da cidade.

Por motivo de férias, saí de São Paulo em seu último aniversário. Última chance de descanso antes do fim da faculdade, implorava por uma fuga e no dia 25 de janeiro de 2015 me encontrava na mansidão de Palmeira dos Índios, cidadezinha do interior de Alagoas. No mesmo dia, saiu aqui no Armazém uma crônica sobre a contradição da cidade e os sentimentos controversos que ela proporciona. E naquelas férias, com paz demais, sossego demais, calma demais, cheguei a conclusão mais obvia a única coisa que o paulistano quer mais do que sair de Sampa, é voltar correndo para ela. Porque só quando estamos fora é que se percebe o quão necessário é estar dentro.

São Paulo é um buraco cheio de parasitas hipócritas como a Londres de Sweeney Todd*. No places like São Paulo e sua ganância, seu desprezo pelos menores e sua individualidade brutal. São Paulo é a cidade que cresce descontrolada com seus prédios prateados confrontando os barracos de madeira a beira do córrego em sua arquitetura irregular a refletir nossa total falta de lógica, como as medianeras* de Buenos Aires que contribuem apenas para nos distanciar. São Paulo é uma cidade estúpida e hostil, mas as vezes me comove. Só que aí é porque alguém ofereceu o braço para atravessar um idoso ou contou histórias ensolaradas para um cego como uma Amélie Poulain* clandestina.

Essa sujeira fétida e esse brilho incandescente transformam a cidade no que ela é por excelência: berço da contradição e epítome do caos. A mesma metrópole que é silenciada covardemente por uma polícia militarizada e despreparada, origina um dos movimentos mais coesos e legítimos como as ocupações do secundaristas em 2015. A cidade que vive tão bitolada em vidro fumê do carro do ano, abre as portas para liberdade de uma Paulista viva para as pessoas. O direito a cidade entrou em pauta e da periferia novas vozes se levantam com um grito de afirmação. Nós estamos por todos os lugares, essa cidade é nossa

E é dentro desses gritos que surge um desejo cada vez maior por uma cidade verdadeiramente solidaria. Na internet ou na rua, vozes se encontram para dar voz aos silenciados. Ou para transmitir sua mensagem no muro ou mural do Facebook. Nesse espírito de dar a cidade ao cidadão, celebramos nosso aniversário de 462 anos abrimos o especial “NÃO EXISTE AMOR EM SP”, onde apresentaremos três projetos que buscam exatamente isso: uma cidade mais humana dentro desse território de combate. De terça até quinta-feira publicaremos entrevistas com representantes 0 SP Invisível, Nós Mulheres da Periferia e táescritoemsampa, onde conversamos sobre seus projetos e como gostariam de presentear a cidade nessa data.

Aqui no Armazém, resta a vontade de presentear os paulistanos e simpatizantes com um olhar de eterno cronista que, assim como Will Eisner com sua Nova York* desenha a cidade com olhos selvagens e esperançosos pelo dia em que o desejo de “ser cidade” faça nosso coração voltar pra casa.


 

*São Paulo é uma cidade? Não, várias! São Paulo se faz de múltiplas metrópoles e para escrever esse texto brincamos com referências do cinema e da literatura que remetem a grandes capitais. A seguir a lista de acordo com a ordem em que aparece no texto:

Sweeney Todd, o barbeiro demoníaco da rua Flee – Filme musical de Tim Burton ambientado na cidade de Londres. “No places like Londres” é uma das canções que abrem o filme.

Medianeras – Filme argentino do diretor Gustavo Toretto, que apresenta um olhar sobre Buenos Aires como metrópole pós-moderna.

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain – Filme francês do diretor Jean-Pierre Jeunet.

Nova York – A vida na grande cidade – Graphic Novel do quadrinista americano Will Eisner

 

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s