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Dica de Segunda: Navio Dragão (Rebeca Prado)

Sem Título-1

*Por Beatriz Farias

O primeiro texto da Dica de Segunda é também a penúltima das resenhas dos livros comprados na Comic Con (e a nossa maior certeza de compra antes de adentrarmos o espaço). Por problemas com agenda, adiamos para essa semana sua publicação, e como recomendo fortemente o quadrinho, faz sentido que tenha parado aqui. Pois bem.

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Conforme o tempo passa e a consciência coletiva cresce (ou ao menos ganha possibilidades de expansão) nota-se uma crítica à impossibilidade de ser engraçado. Para alguns, soa censura do “politicamente correto” que seja criticado um humor preso em rir das minorias políticas. O humor engessado no oprimido que se gargalha com ressalvas, engraçado pra quem está “por cima”. A qualidade de um trabalho, acredito, está muito ligado no ultrapassar dessa barreira. Quando não é necessário se apoiar naquele já tantas vezes hostilizado se captura uma inteligência divertida. É aí que “Navio Dragão” ganha o prêmio de criatividade em níveis avançados.

11382924_946520865390609_1711445124_n Lançado em 2015 e viabilizado por financiamento coletivo, o livro de Rebeca Prado rompe com diversos conceitos pré-estabelecidos. A quadrinista mineira que também é ilustradora e professora de desenho afirmou (confira a entrevista que fizemos com a autora ano passado): “A Lif é uma versão exagerada de alguns pontos da minha personalidade que sempre criaram conflitos na hora de lidar com as pessoas”. Entende-se assim a aquarela que da forma a uma “pequena viking sincera demais”. A Lif em questão é uma ruivinha de dentinho quebrado que diz o que dá na telha e constantemente demonstra sua indiferença aos conhecidos que insistem em conversar. Seu amor é limitado a Carne, o cachorro, e a sua coleção de escalpos.

O traço e pintura tem uma delicadeza interessante. Temos uma ideia intuitiva de que pela palheta de cores ou o formato “fofo” dos personagens é necessário que seja para crianças. “Navio Dragão” desfaz desse senso comum apresentando uma qualidade proveniente da junção de vários elementos bem feitos que não indicam infantil, mas que abre espaço para outras temáticas e a um olhar mais curioso do leitor, que busca na essência o público do que lê (que maravilha quando é um público diversificado) não na primeira olhada.

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Daí volto ao comentário feito no primeiro parágrafo e entendemos sua força. Porque com Lif e seus amigos (acho que Lif não gostaria de ler isso) estamos rindo de nós. Nos apropriando daquele mal humor, ou percebendo que as vezes somos bem como aquele colega sem noção contando histórias intermináveis que ninguém quer ouvir. Ou não. Ou talvez você não perceba semelhança nenhuma entre sua rotina e a retratada nas tiras de Navio Dragão, mas vai soltar um risinho. Vai rir porque naquele absurdo de indelicada verdade se encontra uma graça possível, que não ofende, que ri do chato. Que mostra, mesmo sem necessitar levantar essa bandeira claramente (talvez nem seja de intenção da autora) que conservador é aquele que não soube identificar a limitação de sua risada, afirmando que o problema está na gente que não acha graça. E como é aliviador passar pro livro essas pequenas irritações diárias. Esvaziando-se disso (no caso de Rebeca ao escrever e do nosso ao rir) a vida se torna sem exceção ou censura, mais doce.

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