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‘O Mundo de Tim Burton’ é um passeio lúdico pelos devaneios e sensações de um artista marcado pela dicotomia

 

São

*Por Meiri Farias

A fachada decorada com célebres personagens pode passar a impressão errada, o protagonista de “O Mundo de Tim Burton” é o próprio. A exposição que nasceu no MoMA em 2009 e viajou cidades como Toronto, Paris e Seul, chega pela primeira vez a América Latina: MIS – o Museu da Imagem e Som recebe a mostra que carrega cerca de 500 itens, incluindo obras de arte, esboços, pintura, storyboards e bonecos da filmografia de Burton. A estreia para o público que acontece hoje (4), já está com os ingressos esgotados há meses e para quem pretende visitar até março, é recomendável checar a disponibilidade antes de se aventurar pela avenida Europa.

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Foto: Meiri Farias

A exposição que desvenda os caminhos da mente do artista norte-americano, é mais uma aposta grandiosa do MIS. Depois de sediar mostras como Stanley Kubrick (2013), David Bowie (2014) e Castelo Rá-Tim- Bum – que entre 2014 e 2015 levou mais de 400 mil pessoas para as filas, o museu se preparou liberando aos poucos lotes para garantir o ingresso com antecedência. Essa “mania de museu” não é exclusividade do MIS. Entre setembro de 2015 e janeiro de 2016, o Instituto Tomie Ohtake recebeu a exposição Frida Kahlo – Conexões entre as mulheres surrealistas do México, que também bateu recorde de visitações com público estimado em 600 mil. Antes dela, a exposição Infinite Obsession de Yayoi Kusama, também no Tomie Ohtake, arrastou os paulistanos para as filas. Parece que a “mania” veio para ficar, é o que se percebe durante as tentativas de adquirir ingressos para “O Mundo de Tim Burton”. As reclamações sobre a dificuldade de fazer a compra pela internet são constantes nas mídias sociais, já que em poucos minutos a quota liberada se esgota.

Pois bem, depois de muitas tentativas de uma amiga querida, conseguimos garantir nosso ingresso para março. Enquanto não chega essa visita de fã em estado de encantamento, conto para vocês como foi a abertura da exposição para a imprensa. Antes mesmo de sermos “abocanhados” pelo portal, André Sturm, diretor executivo e curador do MIS, contou brevemente sobre como se deu a vinda da exposição para São Paulo e a experiência de trabalhar durante os últimos sete meses na adaptação da mostra original para o espaço, com a consultoria da equipe do próprio Tim Burton. Além de itens exclusivos para essa edição, o MIS também oferecerá cursos que se debruçam sobre diversos aspectos da obra de Burton, como a relação com a música e oficinas de Stop motion.

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Foto: Meiri Farias

A parte o detalhamento burocrático, é hora de comentar o que realmente importa: o conteúdo da exposição. Como introduzi no início do texto, ilude-se quem espera entrar no jardim da rainha vermelha ou conhecer a barbearia de Sweeney Todd. Você não encontrará réplicas de cenários nesta exposição. Diferente da mostra sobre o Castelo Rá-Tim-Bum, onde prevalecia a impressão de caminhar pelo lar da família Stradivarius, o caminho traçado agora é muito mais subjetivo. Penetrar neste “universo” é como invadir o escritório de Burton e vasculhar seus cadernos e gavetas. Esboços, obras nos mais diversos estilos e materiais, constroem aspectos da personalidade do diretor e apontando para sensações contraditórias que evocam uma das características mais importantes de seu trabalho: a dicotomia. Pensando bem, essa “invasão” é muito mais íntima que simplesmente conhecer um espaço de trabalho. Se o objetivo é imersão na estética “Burtoniana”, podemos dizer que estamos caminhando por corredores da própria imaginação de Tim. Um passeio lúdico pelos devaneios e sensações de um artista que consegue reunir os temas mais extremos em uma mesma obra e é por esse caminho que as salas da exposição se dividem.

Logo no início, nos deparamos com a sala de referências: cartazes e imagens escolhidos a partir de uma lista organizada pelo próprio Tim, onde as inspirações vão de Edgar Alan Poe ao filme Dumbo da Disney, passando por clássicos com Frankestein e Drácula. Logo adiante começa a viagem pelo traço do artista que, com aquarela, lápis de cor ou caneta (as vezes tudo ao mesmo tempo), utiliza suportes diversos como tela, guardanapos, veludo e páginas arrancadas de caderno. Até mesmo um jornal antigo pode ser espaço para brotar a arte. Esse esquema se estende por praticamente toda a exposição, muitas vezes dividido a partir de retrancas que posicionam a dicotomia e mistura que traduzem sua obra: terror e humor, angústia e melancolia, tudo pautado por curioso encantamento. Há ainda um espaço (interessantíssimo) dedicado a projetos que não prosseguiram ou não foram terminados. Apenas depois de percorrer esse caminho de ideias e obras menos conhecidas, chegamos na sala de filmografia.

Fotos: Letícia Godoy/MIS

Seguindo uma linha do tempo no chão, passamos por esboços, storyboards, protótipos e bonecos dos filmes que nos levaram a exposição. É muito divertido e curioso ver os personagens familiares em seus primeiros traços. No caso de Edward Mãos de Tesoura, por exemplo, encontramos o personagem em várias versões em uma evolução de sua concepção. Outro caso divertido é ver Umpa-Lumpas que foram esculpidos pela produção do filme. Aliás, o universo de A Fantástica Fábrica de Chocolates traz outras relíquias interessantes como um bilhete de Tim endereçado a Jhonny Depp sobre ideias para uma fala do longa. Para quem gosta de entender as peculiaridades de um filme desde os primeiros rascunho, o lugar é ideal. Como fã, gostei particularmente de ver os esboços em versão bem inicial da barbearia de Sweeney Todd e alguns bonecos usado durante o filme A Noiva Cadáver.

Para quem gosta de interagir com a exposição efetivamente, vale dispensar a escada e descer por um escorregador roxo e divertido. A tecnologia também faz sua parte por meio da iluminação que dita o clima sombrio e por intervenções em TVs espalhadas por uma das salas. Ainda assim, “O mundo de Tim Burton” requer um tipo de imersão diferente, que nem sempre necessita de uma interação externa.

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Entre retrospectiva e autobiografia, a exposição proporciona um mergulho bastante instigante no imaginário de Tim Burton. Não é uma mostra óbvia e talvez cause frustração em quem desejar ver mais dos filmes. Entretanto, esse caminho inverso que é conhecer melhor o criador, dá muito mais sentido as criaturas. Além de abrir um espaço maior para o público que não necessariamente conhece a filmografia do artista,”O Mundo de Tim Burton” é aposta interessante para quem adora cinema e como a sétima arte interage com outras linguagens. É só aprender a brincar de Alice e deixar-se encantar pelo limite tênue entre a imaginação e o ceticismo do país das maravilhas que é a mente de Burton.

Informações sobre ingresso e sobre a presença de Tim Burton no site do MIS

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