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Recorte: O Homem das flores

Copy of Entrevistas

De onde sento no Terminal de Integração da Praia Grande em São Luís-MA quase sempre posso vê-lo. É um senhor de aparência maltrapilha, com vestes rasgadas e imundas, cabelos desgrenhados e um caminhar trôpego. E que por mais inesperado que pareça sempre traz nas mãos um buquê de pequenas flores vermelhas.

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Arte: Talita Guimarães

Certa vez ele as estendeu para mim com um sorriso banguela. Aceitei e agradeci, devolvendo-lhe um sorriso que mesclava ternura e surpresa. Quis lhe ser terna, mas nosso momento de afeto durou pouquíssimo porque ele esperou que eu pagasse pelas flores. O quê? Por aquele buquê improvisado, de flores colhidas no canteiro do terminal? Confusa, devolvi-as em silêncio no mesmo instante, duplamente envergonhada. Por ele, que supostamente estava trabalhando e não ofertando pétalas aos passantes; e por mim, que não estava disposta a pagar pelo que ele me oferecia.

Copy of Era como se a história já existisse e só transcrevesse pro papel. Quis que as sensações fossem além da descrição psicoO tempo passou e a experiência me trouxe a cautela de recusar seu buquê caso ele tornasse a me oferecer; gesto que eu o via repetir para outras pessoas no Terminal, que mais escaldadas que eu, jamais tocavam nas flores.

Até que um dia, o vi separar um ramo do buquê e entregar a uma moça sem esperar que ela pagasse. Notei os dois conversarem brevemente e em seguida ele se afastar, deixando-a para trás com flores nas mãos.

Senti profunda ternura por aquela cena e certa inveja por não ter tido a mesma sorte. No instante seguinte fui tomada por uma curiosidade imensa de saber quem era aquela mulher e por que ela motivara inédita oferta generosa.

Covarde, jamais me aproximei para apurar, ciente de que às vezes, respostas cortam o fio da flutuação. Poesia não tem porquê. Esteja onde estiver, venha de quem vier, aceitemos o recorte que nos couber.


Talita Guimarães (1)

3 thoughts on “Recorte: O Homem das flores

  1. Que texto bonito Talita. Mas me deixou com o coração na mão, pensando nesse senhor e no tanto que somos pequeninos, incapazes de mudar tantas situações que nos fazem tristes.

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    • É verdade, Renata. Nem sempre podemos ou sabemos como intervir, ou ainda há o que se fazer de fato. Este senhor é um caso bastante peculiar em que fiquei definitivamente tímida com a situação. Embora tristonha, sua imagem tem um simbolismo muito forte e entra na categoria daquelas pessoas que precisamos aprender a notar, nem que seja para pensar nelas com afeto, quando não soubermos o que fazer. Abraços. 😉

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