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Dica de Segunda: Léo e Bia (filme de Oswaldo Montenegro)

*Por Beatriz FariasSem Título-1

Está Dica é provavelmente a maior contemplação a se julgar falar sobre filme e começar apresentando uma música – como de costume. Quis por acaso apresentar a trilha sonora inteira que compõe o longa, mas como sei que se o fizesse não teria chance de que o leitor terminasse o texto antes de correr para ver o filme, deixo uma pequena amostra para começo de conversa.

Parecendo ou não, soo apreensiva sempre que penso em relatar algo de pessoal para compor o texto, pois acredito que o ato de dissertar e a escolha do falado já transparece do que se é, transformando qualquer comentário adicional em borda. Escolhi hoje porém adicionar essa borda porque não fosse ela, o que me teria fincado do filme não seria nem de perto parecido. Pois bem, aceitemos as extremidades. Para o começo deste ano me inscrevi numa vivência teatral, o que significou passar o mês de janeiro me encontrando todos os dias com as mesmas pessoas numa experiência de desconstrução. Logo na primeira semana do curso e sem que uma coisa propositalmente estivesse relacionada a outra, a dona deste blog (minha chefe, para os íntimos) decidiu que deveríamos assistir o longa. Momento exato de descobrimento, abertura de um movimento interior que se confirmou nos dias que sucederam e uma reorganização do que é arte que não precisa de ordem de fatos – aviso desde já para que se perdoe a possível incoerência na forma do compor o texto. Bem como o longa, nem tudo ocorre na nossa mente na hora em que cronologicamente vivenciamos. E Léo e Bia souberam amar?

dvd

“Léo e Bia conta a história de sete jovens que, em Brasília, no auge da ditadura militar, resolvem viver de arte. Era 1973 e o Brasil assistia, então, a repressão se tornar cruel com quem ousasse sonhar. Em paralelo à repressão política, a mãe de Bia (Françoise Forton), ‘adoece’. E em sua desvairada obsessão pela filha Bia (Fernanda Nobre), oprime-a cruelmente. Soma-se à atmosfera opressora, a aridez cultural de Brasília.”

Existe uma pesquisa atraentemente profunda na personalidade de cada personagem, observando que ninguém é figurante quando se conta a história da própria vida. Ainda assim, o título do filme torna preciso o destaque de dois contrapontos peculiares. Se Léo (Emílio Dantas) representa uma liberdade urgente em existir, Bia é Brasília. Bia não parte nunca, mas é apaixonada pela possibilidade do novo. Bia que sempre terrivelmente projetada para ser algo, não se livra da frustração de conseguir unicamente ser “prisão ao ar livre”. Brasília está presa dentro de si. Bia, que além da opressão que se impõe, está algemada no amor descontrolado de sua mãe. A mãe não tem nome, é a ditadura em si.

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A narração fica por conta de dois principais eixos, se de um lado Marina (inspirada em Madalena Salles) conta diretamente a história do seu grupo de amigos, a trilha sonora é essencial para alimentar o invisível que ali se estende. Com todas as músicas compostas pelo próprio Oswaldo Montenegro, a interpretação das mesmas ficaram por responsabilidade de diversos intérpretes, como Ney Matogrosso, Zélia Duncan, Zé Ramalho, entre outros. Curiosamente, os dois prêmios que o filme recebeu em sua primeira exibição no Festival de Cinema Cine PE em 2010 foi para Paloma Duarte (melhor atriz) e Oswaldo Montenegro (melhor trilha sonora).

A estreia de Oswaldo Montenegro na direção de um longa é marcada pela estranheza de filmagem que torna a história intima. Com apenas um cenário e figurino, o filme é rico em detalhes na atuação que vão além da fala e dos gestos, é uma presença no olhar que torna crível a representação daquelas atores que claramente não estão no fim do ensino médio como condiz a história. A gente acredita porque o ritmo conta com gosto de juventude. Tem a pressa de quem está se descobrindo, entendendo nisso a decadência e percebendo também a graça que isso tem. O “tédio lindo” porque é “tédio de tudo” define a raridade da idade.

Léo e Bia

O filme (que foi produzido com recursos próprios, sem patrocínios) trabalha as nuances do que é representação sem citar claramente. Eu – que sempre acreditei num artista que propõe, a pessoa disposta a dar – entendi que ali nada mais está (e para o teatro de forma geral, nada mais é) do que o ser que recebe. O ser vazio ausente de intencionalidade que aceita ser derramado no inverso. E essa inversão de papel ocorre quando subir no palco torna-se o despir de qualquer eu e fazer-se disposto, porque a gente diz o que o contexto faz de nós.

Agora antes do trailer, te deixo com aquele momento da grande percepção, a catarse que é única e intransferível, mas que precisa ser mencionada para que a memória com seu papel de trazer novas propostas não arquive a sensação no esquecimento.

Copy of Talita Guimarães


Selo Bia

 

 

 

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