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A Troça Harmônica: Folia em João Pessoa

Abre Aspas

*Por Meiri Farias

“A gente é carnaval, sempre foi”, conta Chico Limeira no início da entrevista sobre a banda A Troça Harmônica. Folia e festa, mas também na busca por arranjo, organização da carreira e lançamento do primeiro disco, a banda de João Pessoa – formada em família – faz parte de uma cena efervescente na Paraíba.

Com referências que atravessam dos cânones da música popular a contemporâneos, a Troça traz no disco “Vertigem da Inocência”, composição assinada pelo ídolo Chico César. “Chico é referência quando se fala no cancioneiro brasileiro. Luz de irradiar um mundo só com voz e violão”, explica Limeira. Confira a entrevista completa!

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Armazém de Cultura: Por que “A Troça Harmônica”? o nome da banda tem alguma história especial?

A Troça Harmônica: A gente é carnaval, sempre foi. Ali por 2012 nos encontrávamos muito, os quatro, não ainda com o intuito de organizar ou denominar qualquer coisa, mas pelas celebrações que a vida proporciona; pela lei natural dos encontros. Começamos, daí, a conhecer com mais profundidade os textos, canções e o jeito de lidar com a vida e com a música que tinha dentro do outro. Partiu de Lucas Dourado a ideia de arrumar esse terraço e efetivar o grupo enquanto organização mesmo. A Troça Harmônica é justamente essa metade carnaval – gréa, gandaia, violões sem regra, anti-acerto; metade harmonia – arranjos, composições coletivas, o trabalho em grupo e suas concessões, as ondas do mercado, a lida com o palco e o público. É nessa dualidade que a gente se baseia, o objetivo é nunca esquecer nenhuma das duas partes.

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AC: Vimos que o trabalho de vocês acontece literalmente em família, poderia falar um pouco sobre a trajetória da banda?

Troça: A família Limeira há algumas gerações se envolve com a sorte dos arteiros. Chico, Regina e Gustavo são netos de Dôra Limeira – professora de história, contista com seis livros lançados, a vida inteira provocadora (faleceu em agosto último) – e de Pedro Santos – maestro, compositor de trilhas de filmes como Menino de Engenho e Salário da Morte, provocador a vida inteira (faleceu em agosto de 1986), seres humanos que contribuíram diretamente com a formação cultural do estado da Paraíba e passaram isso como lição aos filhos, netos e bisnetos, sempre deixando claras as dores e delícias da vida e da arte de um modo geral. Chico e Regina, irmãos, a Troça não é a primeira experiência dos dois juntos. Gustavo, primo, já vinha compondo com Chico e Regina havia um tempo. Aí veio o Dourado da Bahia, lá de Irecê pra jampa estudar e se formar psicólogo. Misturou o tempero com o pessoal da música, participou de festivais e começou a gravar um disco solo, mais ou menos um ano antes da Troça sair do protótipo. Chico ia gravar com ele (Lucas Dourado, pra não perder as contas), pediu pra Regina salvar as guias do disco num laptop ou num pen drive (numa nite, estávamos num bar do castelo branco, bairro mais próximo a UFPB) e ela acabou curiando (matando a curiosidade) aquele som daquele rapaz do qual Chico falara; e achou maravilhoso. Não tardou estarem os quatro rodando um violão no quintal, compartilhando sons e ondas tabajaras, Lucas absorvido pela família Limeira. Era o carnaval da Troça prestes a tomar sua Harmonia.

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AC: A banda lançou o disco em 2015 já com algum tempo de estrada, como foi o processo do nascimento do disco?

Troça: O disco foi uma consequência do tempo. Completamos um ano em abril de 2014, tínhamos um fluxo intenso de canções e no final do ano conseguiríamos, com a renda dos shows, bancar um disco. Aí foi uma decisão tão leve quanto a produção e gravação do filho. Nos últimos dias de pré-produção nos juntamos em uma casa numa praia longe da capital e imergimos num método meio maluco de ensaio: a gente tocava os instrumentos e imaginava a música (ninguém cantava); isso pra que a gente concentrasse o máximo da atenção no tempo da música e na levada coletiva (não usamos metrônomo, o beat era intuitivo) e no fim ter a base prontinha pra cantar em cima e só se concentrar no canto. Gravamos assim, em três dias intensos de estúdio. Mixamos em João Pessoa e masterizamos em São Paulo e uns quatro meses depois da decisão de fazer um disco, nós tínhamos um disco. O bom agora é ver o pessoal cantando nos shows com a gente, mostrando pra os amigos com carinho, dando aquele feedback nas redes sociais, ensinando nossas músicas a voar.

AC: Além de composições próprias, gravaram a canção “Vertigem da Inocência”, do Chico César. Como a música chegou até vocês? o Chico pode ser considerado uma referência musical da banda?

Troça: Chico é referência quando se fala no cancioneiro brasileiro. Luz de irradiar um mundo só com voz e violão. Carrega a negritude de todas as cores na música, nas mungangas, no jeito de se posicionar e se contrapor às opressões desse planeta doido. É referência pra Troça e pra cada um de nós, particularmente. Ele morou aqui na Paraíba entre 2009 e 2013, trabalhou como gestor público, fez questão de reativar algumas parcerias e construir outras várias. Demos a sorte de topar com ele, trocar umas ideias, dividir uns violões, criar um afeto pessoal pelo ídolo – no começo era tão surreal que parecia uma pegadinha. Quando começamos a fazer o disco ele tava se despedindo desse ciclo, passando mais tempo em São Paulo do que em João Pessoa, então Chico (Limeira, da Troça) mandou uma mensagem pelo Facebook falando sobre o disco e perguntando se por acaso não havia aquela inédita canção-de-amor-trocinha lá no fundo da gaveta. Na hora ele liberou a obra pra que regravássemos o que a gente quisesse, era só catar qualquer coisa num dos discos. Pouco tempo depois chega outro alerta de mensagem e: duas versões de uma mesma música linda; aquela inédita de amor-trocinha mesmo. Ainda dizendo que a gente podia interferir naquele som, juntar as duas, criar por cima, que era nosso. Era justo Vertigem da Inocência. Tocamos várias vezes, começamos a nos aprofundar nela e chegamos ao arranjo. Falta a gente tocar com ele qualquer dia desses.

AC: O projeto gráfico da capa está muito bonito! Quem é o responsável e como surgiu esse conceito?

Troça: A obra da capa é de Silvio Sá, artista contemporâneo nosso aqui de João Pessoa. É um cara que vive intensamente a arte em todos os seus segmentos, que a gente encontra nos shows, nas peças, nos filmes, nas cantorias não autorizadas em geral, um sujeito extremamente sensível. No ano passado foi premiado na bienal internacional de design pelo trampo da coletânea Music From Paraíba vol. 2, compilação em quatro discos com músicas produzidas aqui no nosso estado. A capa do nosso disco carrega muitos elementos, acho que dá amplitude às interpretações diversas, cada um acha um canto seu. Quando ele enviou pra gente escreveu isso em anexo:

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“Aconchego e inquietude, o conforto cinético da cadeira-de-balanço. Movimento. O artesanal: sujeira e delicadeza. Algum mistério. O orgânico e o carnal, sobretudo, mas também algo de geométrico, de racionalidade, de rigidez formal. O contemporâneo, como se insere, negocia com e sutilmente reacomoda o tradicional. O belo como instrumento de provocação, como arrebatação que abre portas, dando passagem a uma vontade real de penetração e interferência. Enfim, esta enumeração é uma viagem. Na verdade uma simplificação para que a gente ao menos pressinta os lugares onde quero chegar quando me proponho a produzir. O que importa mermo é bater o olho e dizer: é isso.”

AC: Como está a cena musical de João Pessoa? O que vocês indicariam para conhecermos melhor a produção paraibana atual?

Troça: Movimentada, diríamos. Na real esse tempo novo (semi-novo) de escoamento pela internet, de um pouco menos de dificuldades pra comprar uns equipamentos e montar um cantinho pra ensaiar, de informações um pouco mais profundas no âmbito do mercado e suas tramas, contribui com uma a troca de experiências e o diálogo com a maloqueiragem semelhante. Muitas bandas surgem, muitos novos músicos dispostos a essa selva, um curso de música popular na universidade federal, tudo isso tem contribuído com a formação de um novo momento, onde a gente dialoga sobre isso e pensa pra frente, reclamando menos e fazendo mais. Cito aqui Augustine Azul, por exemplo, power trio instrumental, lançou um disco independente que foi listado entre os melhores do mundo no ano passado. O varadouro, baixo centro, cidade antiga, movido pela instiga e pela esperança de dias melhores, resiste e mantém centros culturais, estúdios, companhias de dança e teatro, tudo ativo e independente de poder público – que, reconhecemos, precisava dar a sua contribuição, chegar junto, assegurar, iluminar, pavimentar, dialogar, mas não tem feito. Espaço Mundo e Estúdio Mutuca são dois picos que funcionam há quase uma década nesse fervor de independência, e fazem diferença na formação desse tempo. A gente cita aqui também bandas como Seu Pereira & Coletivo 401, Zeferina Bomba, Cabruêra, Banda-fôrra, Os fulano, sujeitos como Totonho e Chico Correia, sujeitas como Sandra Belê e Polyana Resende. E não para…

AC: O que vocês consideram referência para o trabalho de vocês? seja na música, outras linguagens artísticas ou no cotidiano?

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Troça: Somos quatro jogadores nessa mesa. Quatro cabeças diferentes, cada uma com suas histórias e motivos. Cada um traz o que tem de seu, mescla, se transforma um pouco pra ser Troça, pra experimentar ser um pouco o outro. Dentre as semelhanças, a gente sempre gosta de citar os movimentos coletivos que incomodaram a história das calmarias. O Jaguaribe Carne é um deles. Entre 70 e 80 do século passado, capitaneado pelos irmãos Pedro Osmar e Paulo Ró, um grupo de compositores e ativistas em geral se juntou pra fazer. Fazer música, fazer guerrilha, fazer protesto, desfazer conceitos e compassos binários. Daí surgem nomes como Adeildo Vieira, Milton Dornellas e Chico César.

Os Doces Bárbaros e Os Novos Baianos, a Tropicália, a Vanguarda Paulista, o Clube da Esquina, o Los Hermanos, o Musiclube da Paraíba, enfim, citaríamos também todos os medalhões maravilhosos, que redimensionaram o Brasil. Mas citaríamos ainda, dentro da Troça, um ao outro, já que o tempo foi tratando de homogeneizar nossos anseios e absorver alguns traços. Gustavito, LG Lopes, Zé Manoel, Jussara Marçal, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Siba e tantos outros contemporâneos nossos também são referências.

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