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Recorte: “Obrigada, amigo!”

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*Por Talita Guimarães

Charlie Brown já estava todo molhado, mas isso não impediu que seu fiel escudeiro Snoopy abrisse o guarda-chuva para lhe proteger da água esguichada após o alarme de incêndio do ginásio da escola ser disparado em pleno baile. Ao ver tal cena na graciosa animação Snoopy e Charlie Brown: Peanuts, O filme (2015), em cartaz nos cinemas recentemente, fui transportada imediatamente para uma memória afetiva de ocasião similar.

Era um início de tarde nublado. Apressada para pegar o ônibus antes que o temporal desabasse, saí de casa correndo com papai em meu encalço, companheiro de sempre na missão de me acompanhar em segurança até a parada de ônibus.

Eis que antes mesmo de alcançarmos a esquina os primeiros pingos começaram a cair. Apressamos o passo, mas o sereno evoluiu para um pé d’água em uma velocidade muito superior às nossas passadas mais largas, de modo que no fim da segunda rua eu já estava encharcada praguejando minha má sorte, enquanto papai, num gesto extremamente paternal me conduzia para debaixo de um telhado e ordenava que eu aguardasse por ele ali, pois iria voltar em casa para pegar um guarda-chuva. Lembro que sequer tive tempo de argumentar que já estava toda molhada e precisaria voltar com ele para me trocar, pois papai já ganhara caminho de volta, resoluto.

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Transtornada, estanquei onde papai me deixou, irritada pela perda de tempo. Enquanto os minutos passavam, remoí a decisão de papai até vê-lo retornar com ares de eficiência e um guarda-chuva nas mãos. A seriedade trazida no rosto me atingiu tal qual um trovão, antecipado por um lampejo em que tudo fez sentido me preenchendo com um entendimento até então não cogitado.

Chega um momento na vida em que nossos pais vão continuar se esforçando para cuidar de nós, mesmo que não precisemos mais ou já não seja suficiente. Naquele instante percebi que sempre poderia contar com a intenção protetora de meu querido pai, ainda que depois dos temporais que ele não pudesse evitar caírem sob minha cabeça.

Em silêncio, retornei com ele para casa atordoada pela recém-descoberta.

Somente muitos anos depois, ao ver a cena se repetir na animação infantil me dei conta de que tudo o que eu precisava ter dito ao meu pai naquela ocasião era o mesmo que Charlie Brown prontamente sussurrou para Snoopy ao ser acolhido por seu guarda-chuva amigável: “Obrigado, amigo!”.


Talita Guimarães (1)

10 thoughts on “Recorte: “Obrigada, amigo!”

  1. “Chega um momento na vida em que nossos pais vão continuar se esforçando para cuidar de nós, mesmo que não precisemos mais ou já não seja suficiente.” Menina, tava pensando sobre isso no outro dia… Adorando seus textos, Talita!

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    • Oi, Kleris!
      Muito obrigada por acompanhar a coluna!
      Sim, os gestos dos nossos pais nos fornecem umas tantas lições sobre o compromisso de vida que eles têm conosco. Quem dera pudéssemos sempre estar atentos a isso para agradecer e retribuir à altura, né?
      Abraço grande e continue por aqui!
      😉

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  2. Nossa Talita, ler seu texto me deixou com lágrimas nos olhos. E me deu uma saudade louca do meu pai, que continua lá no interior de Minas. Que vontade de dar um abraço nele e dizer “Obrigada, amigo!”

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