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Nina Oliveira: A voz de uma guerreira que chega em música e poesia

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*Por Meiri Farias

“Dandara chora, pois seu guerreiro não voltará”. A voz de Nina Oliveira canta como uma oração a história da guerreira que foi apagada dos livros de história. Dandara foi companheira de Zumbi dos Palmares, sim ele mesmo, o líder quilombola que mal conhecemos na escola e só de uns anos para cá, passamos a conhecer um pouquinho após a instituição do dia da consciência negra em 20 de novembro. Mas e Dandara?

Dandara só conheci ano passado, pelos relados da cordelista feminista Jarid Arraes (em breve falaremos mais dela por aqui!) e agora ao escutar, entre as diversas sugestões que recebemos diariamente, um vídeo com Nina Oliveira cantando. A doçura com que Nina começa a canção contrasta com a dor ancestral ao chegar no verso supracitado. Dandara chora, e com ela todas nós.

Foto: Luca Silvestre

Foto: Lucas Silvestre

É uma triste ironia escrever esse texto logo após a leitura de mais um relato de violência contra a mulher, uma publicação perdida na timeline do Facebook que compara diversos crimes e outras violências cometida no ambiente universitário, todas por homens. Nenhuma com verdadeira punição. Entretanto, como lembrava a interlocutora da postagem, uma jovem estudante de Direito da Uniban foi expulsa da universidade por usar um vestido supostamente curto. Violências letais, violências simbólicas que continuamos enfrentando diariamente. E se nós mulheres, somos apunhaladas diariamente pela ordem patriarcal que impera o cotidiano, todos os dias uma Dandara chora dores que jamais podemos conhecer. Pelas Dandaras, Carolinas de Jesus e todas as outras garotas negras que sofrem dobrado o peso do preconceito, saímos de cena e abrimos espaço. Fala Nina!

Armazém de Cultura: Chegamos ao seu trabalho a partir do vídeo de “Bondade Eternamente”, canção que é adaptada do poema de Will Sampaio. Você é bastante envolvida com essa relação música – poesia, certo? como decide adaptar determinado poema e como funciona esse processo de adaptação?

Aspa Nina 1

Nina Oliveira: Sim, eu tenho uma relação profunda com a poesia e com a música. Não sei afirmar o que aconteceu primeiro na minha vida. Eu aprendi a ler com minha mãe, e além de me ensinar a ler, ela soube me ensinar a amar as palavras, os textos, os livros. Durante minha infância eu tive acesso à muitos livros de literatura, que minha mãe utilizava (ela estava terminando o ensino médio), eu estava começando a ler bem, e acabava me enfiando nas páginas com tantas poesias incríveis, das quais eu pouco entendia, mas que adorava perceber quão bem as frases rimavam e quão musical poderia ser cada texto. Eu costumava ler várias e várias vezes o mesmo poema, até que eu estava cantando-o. Era algo fluído pra mim, era uma brincadeira. Só fui me tocar que musiquei poemas pela primeira vez na vida ainda na infância, dia desses.

Hoje, nesse rabicho de vida adulta que tenho, o processo não mudou muito, exceto que agora eu escolho muito bem o que quero musicar. Minha motivação geralmente é a intensidade com a a qual o texto me provoca. Se eu leio um texto e sinto que ele pode “sair de minha alma com um míssil”*, aí tenho certeza de que devo musicá-lo.

*O trecho entre aspas é uma citação ao escritor Charles Bukowski

AC: Inclusive, você já fez um espetáculo com essa temática, certo? Como foi o MPB – Música Poética Brasileira?

Nina: Ah, minha primeira experiência com a montagem de um show que fosse meu. Que tivesse minha cara.  Esse show foi criado há dois anos atrás, e algumas vezes contou coma a participação de amigos artistas como o Gabriel Vázquez, Rodrigo Ciampi, James Bantu, e tinha o Doka Bonfim como percussionista e fiel escudeiro. O show continha muitas das primeiras canções que escrevi na vida e eu as costurava com poemas meus, de amigos e de poetas já consagrados. Modéstia à parte, era um show muito bonito e bastante intimista (como muito do que tenho feito, intimista). Há um pequeno registro desse show, vou deixar aqui o link para vocês.

Dos shows que tenho feito atualmente ainda há um resquício dessa estréia, eu ainda faço um texto ou outro antes de cantar uma música.

Nina Oliveira, dois anos atrás:

AC: Você ainda é bem jovem e já está se destacando com sua música na internet! como e quando começou a cantar? Algum disco ou artista foi inspirador nesse processo de descoberta da sua música?

Nina: Aos 14 anos eu cantei pela primeira vez em público, foi na escola para um trabalho de história. Não tinha nada a ver com a música, tinha a ver com nota.  Aos 15 no ensino médio, uma migo encasquetou que eu deveria entrar para o coral da escola, e como eu já queria mesmo, aproveitei o empurrão.  Foi a primeira vez que cantei em coro, e foi uma experiência transformadora e norteadora para mim. Eu achava tão incrível aprender coisas tão diversas na prática do canto coral, me sentia tão instigada pela potencial criativo que a prática me despertava, que resolvi estudar música. E o fiz. Com 16 passei a estudar canto popular, e embora meu pai gritasse aos quatro ventos que eu era cantora, eu ainda não admitia para mim que gostaria de fazer aquilo pelo resto da minha vida. Durante o curso de canto, conheci muitos artistas de diversas linguagens, entre eles James Bantu. Talvez uma das minhas referências mais importantes na vida. Ele é rapper e poeta brasileiro, e para mim, amigo. Mas é amigo mesmo. Consegue pensar no quão a apalavra amigo tem um significado importante? Pensou? Então, o James é esse cara importante. Eu conheci o James com 16 anos  (não faz muito tempo, tenho 19), na época eu estava começando a me reconectar comigo, com o que poderia ser a minha identidade. James é um homem negro que fala muito sobre as causas das pessoas negras, e sempre que ele falava, eu me reconhecia na fala, me reconhecia nas causas e nas situações problema. Eu entendi de forma racional, finalmente, porque eu era negra. Digo isso, porque no Brasil é confusa a ideia do que é ser ou não ser negro. Deixemos esse debate para outra conversa, que ele é extenso. O James foi um artista e um ser humano inspirador nessa fase da minha vida. Ele foi a minha maior influência, a minha grande inspiração para ser.

Aspa Nina 2

AC: A internet tem exercido papel fundamental na divulgação de novos artista. O que você pensa sobre as possibilidades geradas pela rede, incluindo também a proximidade com o público?

Nina: Eu sou à favor da democratização da informação. A internet viabiliza o acesso à informações que antes eram pouco acessíveis, e dentro dessa gama de informações estamos nós artistas e nossas artes. Eu gosto de ter a internet como meu principal meio de difusão porque é uma ferramenta da qual já tenho familiaridade e conhecimento, o que me confere autonomia na geração de conteúdo e na gestão da minha carreira. Claro que não faço tudo sozinha, hoje estou gravando meu primeiro disco e preciso de pessoas trabalhando comigo (não para mim), mas a gestão compartilhada parece muito mais interessante para uma artista como eu, que prefere ter liberdade para criar livremente sem pensar, durante o momento criativo, pra quem eu irei oferecer aquele “produto”, que é o que muitas vezes ocorre. Pensar em mercado é importante sim, mas pra quem quer criar livremente, esse pensamento acontece após a concepção criativa.

Sobre a proximidade com o público: EU ADORO! Eu gosto muito de interagir nas redes sociais, tento responder todas as mensagens e comentários, porque acredito que é uma forma boa de retribuir o tempo que as pessoas dedicam ouvindo uma música minha, ou me mandando uma mensagem, deixando um comentário em um vídeo meu. 🙂

Foto: Lucas Silvestre

Foto: Lucas Silvestre

AC: A música no “Dandara” nos chamou muita atenção. Tanto por lembrar de uma personagem negligenciada por nossa história, quanto por invocar sua força e exemplo para todas as gerações de mulheres. Que figuras femininas são referências para você (públicas ou anônimas)?

Nina: Minhas avós e minha mãe são minhas referências. Hoje. Nem sempre foi assim. Acho que só agora que eu aprendi a admirá-las pelo que elas são. Todas mulheres muito simples, com diversas restrições durante a vida. Admiro minhas avós pela coragem que tiveram na vida. Uma é negra, tem seis filhos que não são todos do mesmo pai, e nunca foi casada. Acho que essas características são motivos suficientes para enfrentar barras pesadas em sua época. A outra avó é retirante nordestina. Fugiu do meu avô para não sofrer mais com violência doméstica. Trouxe com ela os 6 filhos ainda crianças, para São Paulo. E mamãe. Ah… minha mãe é maravilhosa. Foi mãe aos 17 anos, casou, e por consequência de uma criação conservadora, se submeteu por muitos anos à uma vida de submissão em diversos aspectos. Admiro a vontade que ela tem de aprender, de se reinventar e de viver cada dia mais dona de si. A reinvenção para uma mulher que não teve acesso à informação é ainda maior que uma revolução, pode acreditar.

Ouça “Dandara”:

AC: Ser mulher é um desafio diário, pelas restrições e imposições sociais com a qual temos que lidar, esse é um dos motivos pelo qual decidimos que em março publicaríamos entrevistas apenas como mulheres. Sendo uma jovem artista, como o vê a recepção do mercado para as mulheres? A luta por espaço e reconhecimento está avançando ou ainda é muito mais difícil que para os homens?

Nina: Essa pergunta me fez parar e pensar muito. O machismo é cultural, portanto, em muitas situações é difícil identificá-lo, mas ele está ali, em violências sutis. Coisas que passam desapercebidas. Eu sou uma mulher muito jovem, e tenho consciência de que pela inexperiência de vida, eu estou muito mais suscetível à violências das quais talvez eu não consiga me defender da forma adequada, ou ainda, que eu não perceba de imediato que determinada situação é problemática.

O meio musical ainda é um ambiente dominado pela presença masculina, principalmente na música instrumental. Quando se é cantora, na grande maioria das vezes trabalhamos com muitos homens ao nosso redor, de diversas idades e pensamentos. A dificuldade que eu já encontrei no meu trabalho foi ter voz ativa. Além do trabalho como cantora, sou orientadora de canto coral em uma equipe de 5 educadores, na qual eu sou a única mulher. Há 3 anos trabalhamos juntos e muitas vezes, durante reuniões de trabalho eu percebi que os homens falavam muito e se ouviam, mas que quando eu dava sinais de que iria participar da discussão eu era prontamente interrompida. Talvez não fosse maldade dos meus colegas, talvez fosse apenas o hábito de não ouvir e não relevar a voz (profissional) de uma mulher. Vale dizer que puxei a orelha de todos eles, e que hoje conseguimos resolver esse ponto. Eu sinceramente não sei dizer se a luta por espaço está avançando. Eu estou na área há apenas três anos, há mulheres instrumentistas, compositoras, regentes, professoras de música que atuam no mercado há 10, 20, 30 anos ou mais, talvez elas pudessem falar melhor do que sobre este suposto avanço. O que eu sei e vejo é que, sim ainda é difícil para mulheres. É difícil tentar atuar no mercado de trabalho musical, quando os seus colegas de trabalho não te dão credibilidade, e fazem juízo de você baseando-se no fato de ser uma mulher. Isso ainda acontece.

Ouça “Bondade Eternamente” com Rubel:

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