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Dica de Segunda: Que horas ela volta? (Anna Muylaert)

*Por Beatriz FariasDica

Normalmente começo meus textos sobre filmes apresentando alguma música que faz parte da trilha sonora ou que de alguma forma dialoga com o que quero dizer. A questão não chega a ser um costume obrigatório, o que acontece é uma necessidade de comunicar e fazer a ideia chegar por diversos caminhos. Hoje porém a música é diferente, a canção é silenciosa porque o grito é outro. Hoje você não precisa colocar o fone, abra bem os ouvidos, olhe ao redor e vamos nesse exercício de estar a disposição de escutar além de si. Bem como disse Belchior: “E eu quero é que esse canto torto feito faca corte a carne de vocês”.

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Escrever sobre “Que Horas ela Volta?”, da Anna Muylaert foi uma relutância por muito tempo porque parece que tudo de importante já foi dito a respeito. A mudança ocorre ao dar-me conta dos últimos acontecimentos da cidade e observar relações, aí gente vê a foto de uma empregada vestida para tal identificação empurrando o carrinho do bebê acompanhando seus patrões manifestantes, e então falar mais uma vez do longa faz sentido.

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“A pernambucana Val (Regina Casé) se mudou para São Paulo a fim de dar melhores condições de vida para sua filha Jéssica (Camila Márdila), ela deixou a menina no interior de Pernambuco para ser babá de Fabinho (Michel Joelsas) morando integralmente na casa de seus patrões. Treze anos depois, quando o menino vai prestar vest
ibular, Jéssica telefona para sua mãe avisando que vem pra São Paulo no intuito de prestar a mesma prova. Os chefes de Val recebem a menina de braços abertos, só que quando ela deixa de seguir certo protocolo a situação muda.”

A responsável por tudo isso, Anna Muylaert, é roteirista e diretora, trabalhou na criação de programas como Mundo da Lua e Castelo Rá-tim-bum na televisão, curtas como “Rock Paulista” e longas como “É proibido fumar” e seu último trabalho e motivo da Dica de Hoje ganhou prêmios como o Festival de Sundance (Prêmio Especial do Júri Pela Atuação para Regina Casé e Camila Márdila), Festival de Berlim (Prêmio do Público de Melhor ficção na Mostra Panorama, Prêmio CICCAE) e Troféu APCA (Melhor Filme, Melhor Atriz de Cinema para Regina Casé) dentre – vários – outros.

O filme trabalha com a nova relação do serviço doméstico onde o patrão não é mais o senhor de engenho abertamente malvado e o servo aparentemente tem liberdade, é “praticamente da família!”. A não ser que tenha festa, a não ser que haja convidado, porque aí se exige a roupinha branca que “te coloque no seu lugar”. Cada um com seu cada qual. Não é a alta sociedade elitizada, pelo contrário. É esse rico moderno que fuma maconha com o filho, que ouve “Águas de março” com a galera alternativa. O rico underground que esbanja a naturalidade de ser da sociedade, criatura de bem que está no seu lugar de direito. John Lock estaria satisfeito. A forma de exploração mudou também porque agora a empregada tem certo apreço àquele a quem serve. Se enxergando na maioria das vezes como inferior, vê no patrão a criatura que por possuir estudo e dinheiro merece a superioridade que lhe é atribuída, resta agradecer por não ser maltratada. Até o quartinho da empregada abafado e incomodo indica herança da escravidão, a senzala tem em tudo o dom de garantir silêncios e destacar como destoando do resto da casa, é ali que mora o diferente.

Até que Jéssica chega, e eis que tem “rato na piscina”. O ambiente é contaminado por um descontentamento oportuno, a moça não engole a hipocrisia hierarquizada e com uma naturalidade perturbadora nos questiona qual é a diferença. Somos tomados pelo estranhamento, a percepção de senso comum onde se julga a “ousadia” da garota por não caber no lugar a qual foi imposta pertencer. Além da sutil gravidade entre as cenas de Carlos (Lourenço Mutarelli) e Jéssica onde se entende pela ambiguidade subjetiva a representação do abuso da classe média sobre o proletariado.

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Algo na câmera que a diretora posiciona incomoda, instiga pela honestidade e espera que capta, é de uma realidade brusca mesclada na combinação entre iluminação e cor que reverbera uma crueza absurdamente bonita porque crível. Muito desse aspecto se deve aos estereótipos quebrados: A periferia da qual é possível se identificar é assertiva desde a ambientação até a montagem da casa. o pobre é finalmente apresentado como ser humano interessante sem que necessite da espetacularização. Importante citar Regina Casé e Camila Márdila neste ponto, as atrizes demonstram uma inteligência e sensibilidade comovível em cena. O sotaque é real, e há uma carga de grandeza para o ser mulher que espanca a pobreza que a simples assimilação é capaz de suportar.

Aqui peço licença em dar um quase spoiler para citar a cena em que Val entra na piscina, porque talvez não caiba a todos a importância daquele gesto mas com o perdão da imparcialidade da qual já abri mão, involuntária lágrima que cai da catarse. A euforia minuciosa na qualidade de pertencimento que ela finalmente compreende , descoberta do ser livre. Processo esse onde identifica-se uma tristeza que Monteiro Lobato já fincava em 1920 com seu conto Negrinha, a cruel inteireza do estado de gente, já não é mais simplesmente “coisa humana”e dessa forma a vida que levava não cabe mais.

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Ao tentar enlaçar as pontas asseguro que é de risco que este texto realmente não acrescente informação valiosa a respeito da obra, que isso já tenha sido lido em mil veículos com um linguajar de melhor tom. E que bom se assim o for também, porque é reflexo de um novo olhar – que importante o longa ser exibido na Rede Globo, onde milhares de domésticas assistiram e para bem ou mal, sentiram alguma coisa. Que bom que em outros países pessoas saíram emocionadas das salas com tanta realidade apresentada, e que pena se as lagrimas forem puramente conveniência e zero empatia -. Mas ainda assim surge a necessidade provinda de uma infância de ver mamãe cuidando de outras crianças e limpando outras casas. O espanto de ser criança e começar a entender porque precisava passar a tarde conversando com uma senhora enquanto a mãe de um lado para o outro arrumava o lugar inteiro. E assim juntando os pedaços do que era força de vontade dela e superioridade velada daquela que pagava o salário suado, se dar conta da diferença, percebendo na prática o que agora tanta gente finalmente viu na tela do cinema.

 


Selo Bia

 

 

 

 

 

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