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Nana Queiroz: ‘Quando você profissionaliza a luta pelos direitos das mulheres, você a torna mais eficiente’

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*Por Meiri Farias

Jornalismo independente, a falsa ideia de informação gratuita e a ressignificação da representação da mulher pela mídia, esses foram alguns dos assuntos da entrevista com a jornalista Nana Queiroz, uma das fundadoras da Revista AzMina e autora do livro “Presos que menstruam”, que denúncia as condições precárias detentas nas penitenciarias do país.

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A história da revista AzMina começa em 2014, quando Nana foi até o Congresso Nacional, tirou a camisa e escreveu no corpo “Eu Não Mereço Ser Estuprada” em resposta ao resultado da pesquisa do IPEA “Tolerância social à violência contra as mulheres” (que apresentou o dado alarmante que para 26% dos brasileiros, mulheres que mostram o corpo merecem ser atacadas). Dentro da insatisfação com esse tipo de situação e o tratamento opressor que a mídia geralmente destina ao público feminino, AzMina é uma revista que fala sobre qualquer assunto que possa interessar a mulher. “A nossa ideia é mostrar que todas as coisas do universo da mulher podem ter uma leitura de libertação e de empoderamento”, diz. A jornalista explica que a equipe e os princípios da revista são feministas, mas prefere classificá-la como “revista feminina”, já que o espaço pretende propiciar um diálogo com um feminismo que chega no dia a dia da mulher comum e não apenas com as que já estão debruçadas sobre o tema.

Confira a entrevista completa!

Armazém de Cultura: Az Mina nasceu em um contexto de resistência, a partir da sua manifestação e a viralização da campanha “Eu não mereço ser estuprada”. Conta um pouco para nós como vocês se reuniram e decidiram levar essa mobilização para o campo do jornalismo!

Índice da terceira edição da Revista

Índice da terceira edição da Revista

Nana Queiroz: A gente era um bando de minas que trabalhavam, ou já trabalharam há algum tempo em revistas femininas e ficávamos muito desgostosas com as coisas que éramos obrigada a fazer nesses lugares, sempre pautas e matérias que menosprezavam muito a mulher. E é engraçado porque as pessoas falavam assim “o homem quer ver numa revista o que ele quer ter e a mulher quer ver o que ela quer ser, mas tem que ser um ideal que ela nunca alcance, que ela sempre persiga”. Olha que coisa maléfica! E é isso que as revistas femininas tem feito a muito tempo e elas se preocupam muito mais com o que vende do que com o que faz bem para a leitora. No fundo, há muito tempo os clientes não são mais as leitoras, são os anunciantes. Então para os anunciantes interessa o que, uma mulher segura ou uma mulher insegura que precisa comprar quinhentos reais de produto de beleza? As revistas acabaram entrando nessa onda de capitalizar em cima da insegurança feminina. E a gente queria fazer diferente, foram seis meses de reuniões até conseguirmos levantar os fundos necessários via crowdfunding, para conseguir fazer a revista nascer. E foi muito importante para a gente que fosse via crowdfunding, porque queríamos que os leitores sentisse que a revista era deles, que eles pagaram por elas. Claro que a gente podia começar do nada, sem fundo nenhum, com uma grana dá para fazer coisas incríveis, coisas grandes, pagar o tempo das pessoas para elas se dedicarem profundamente àquilo. E o resultado é muito feliz.

AC: A mídia tradicional tema acompanhado a tendência retrógrada e conservadora que vem assolando a sociedade, muitas vezes se utilizando da sua “credibilidade” para influenciar, política e socialmente, a opinião do público. Qual a importância do jornalismo independente nesse cenário?

Nana: Jornalismo independente, no nosso caso jornalismo independente feminino, é super importante nesse contexto. Primeiro porque o nosso cliente é nosso próprio leitor, eles que tem patrocinado nossa existência. Além disso, são ONGs, fundações que tem em vista missões de aperfeiçoamento social, lutar pelos mais fracos. Essas pessoas são os nossos patrões. Isso faz uma grande diferença, na hora de escolher, é a eles que a gente vai servir. A grande mídia acaba muito presa por contratos de governos, de grandes empresas, então elas tem que ceder a esses “interesses”, e são os interesses dos mais fortes. A gente não, a gente está servindo aos interesses dos mais fracos. Isso que traz um verdadeiro equilíbrio no contexto geral em que só os mais fortes tem voz.

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AC: O projeto “Bolsas de Reportagens d’AzMina” traz temas importantes e geralmente ignorados pela mídia. Como foi feita a pré-seleção das reportagens que poderão ser beneficiadas pelas campanha de financiamento coletivo?

Nana: As bolsas de reportagem d’Az Mina acumulam todos os temas que que a equipe acha mais importantes para debater hoje e que afetam a vida das mulheres. A decisão foi feita com muita pesquisa, muito debate da equipe, mas também com votação do nosso conselho editorial de leitores que tem uma participação muito grande. O conselho editorial é formado pelas pessoas que são os nossos doadores voluntários, você pode assinar a Revista AzMina mas é uma assinatura voluntária. A revista sempre foi e sempre será de graça pra quem quiser ler, mas quem pode assinar colabora. E assim vira parte do nosso conselho editorial e tem poder de voto e de veto em muitas questões, como a decisão de que pautas iam entrar nas bolsas de reportagem. A gente aceita colaborações a partir de R$10 e as pessoas não devem pensar que o R$10 que elas dão não faz diferença. Faz muita diferença, a maior parte dos R$50.000,00 que a gente conseguiu pra abrir a revista, acho que mais de 50% foram pessoas que doaram menos de R$50. Então é com esse pouquinho que faz a diferença.

Conheça o projeto de  “Bolsas de Reportagens d’AzMina” e saiba como colaborar!

AC: Falando nisso, a viabilização financeira é sempre um tema que dificulta o trabalho do jornalismo independente. Como iniciativas de crowdfundig e outras formas de “mecenato” auxiliam na produção de conteúdo? Na sua opinião, essas ferramentas podem realizar mudanças realmente significativas na estrutura tradicional do jornalismo?

Nana protesta no congressos|Capa do livro "Presos que Menstruam"

Nana protesta no congressos | Capa do livro “Presos que Menstruam”

Nana: Esse ainda é um desafio muito grande e eu acho que ninguém ainda encontrou a fórmula mágica. Vou te falar um número que é impressionante: na semana da mulher a Revista AzMina (Site, Facebook, Twitter, Instagram, site e Newsletter) atingimos 3 milhões de pageviews. Do ponto de vista discursivo e de viralização é muito viável, mas do ponto de vista financeiro ainda não se descobriu uma maneira que se sustenta. Por exemplo, eu tenho duas funcionárias em tempo integral na revista. Eu e a Letícia em São Paulo, que é a nossa diretora de relações institucionais que é a quem cuida das parcerias e captação de recursos. Eu e Letícia conseguimos eventualmente ganhar um salário, nunca é um salário que a gente estaria ganhando no mercado tradicional e vários meses a gente passa sem ganhar absolutamente nada. É uma opção que é até um pouco ideológica. Mas não deveria ser ideológica porque a verdade é que quando você profissionaliza a luta pelos direitos das mulheres, você torna a luta mais eficiente. Eu gosto muito de lembrar que o lobby do mal tá profissionalizado e tem injeção de dinheiro, como as empresas de cigarro gastando fortunas pagando os lobistas deles nos congressos mundo a fora. Agora as pessoas ainda não enxergaram a importância de patrocinar quem faz o lobby do bem e isso precisa ser uma mudança cultural. A gente precisa convencer de que informação não existe de graça na internet, as pessoas acham que tão lendo coisas de graça e elas não percebem como elas tão sendo manipuladas pelos grandes interesses. Então quem quiser uma informação livre, quem quiser uma avaliação plena, livres de amarras e transparente, tem que investir em jornalismo independente. E não importa que se você vai investir R$10 por mês, tem que se comprometer, porque a informação vale isso, a informação é preciosa. A informação é o que maneja os poderes numa sociedade, sabe?

AC: Em março, o Armazém de Cultura tem dedicado espaço para apresentar trabalhos de mulheres, em um anseio de abrir espaço para abrir espaços que muitas vezes são negados pela desigualdade de gênero ao qual somos submetidas diariamente. Como mulher, o que você acha que ainda precisa ser feito (pela mídia, política, sociedade em geral) para diminuirmos esses espaços de opressão?

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Az Mina no Facebook

Nana: Eu acho que realmente falta muita mulher na literatura sabe? A gente ainda tem muito pouca mulher publicada, mesmo sendo que as maiores escritoras da história do Brasil, são mulheres. Porque a gente tem Clarice Lispector, a gente tem Cecília Meirelles, a gente tem Cora Coralina, a gente tem mulher boa pra dar com o pau e mesmo assim as editoras continuam receosas de publicar mulheres. Outra coisa, as mulheres continuam não encontrando tempo pra escrever. Então, eu acho que uma coisa muito interessante seria entregar bolsas pra que as mulheres possam dedicar-se a escrever livros, sabe? Porque elas ainda estão muito sobrecarregadas com o peso das tarefas domésticas e dá jornada dupla, as vezes tripla de trabalho.

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As entrevistas dedicadas ao mês especial da mulher chegam ao fim, mas a nossa convicção de que #TodoDiaéDiadaMulher não! o  Armazém continuará abrindo espaço para a produção feminina e trazendo essa discussão para o cotidiano.

Relembre quem passou por aqui em março:

Música: Larissa Baq  | Nina Oliveira

Quadrinhos: Germana Viana

Jornalismo: Nana Queiroz

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