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Recorte: Serginho, Cássia e eu

Copy of Entrevistas

*Por Talita Guimarães

A primeira vez que ouvi um disco inteiro da Cássia Eller eu devia estar em trânsito, no carro do meu saudoso tio Serginho. O ano era 2004 e o disco, o Acústico MTV. O mundo passava lá fora, mas sequer me lembro da paisagem. A primeira imagem que me vem quando evoco as lembranças daquelas férias de julho no Rio é da minha prima Lili colocando o disco pra tocar repetidas vezes em todo e qualquer passeio de carro que fizéssemos. Eu estava às vésperas de completar 15 anos e devo ter ficado impressionada com a minha prima, quase sete anos mais nova que eu, cantarolando as músicas junto com aquela mulher de voz rouca, pronúncia clara e interpretação à flor da pele do disco.

Arte: Talita Guimarães

Arte: Talita Guimarães

Não foi preciso muito para que eu também não quisesse mudar a trilha sonora dos nossos trajetos. Eu, que já gostava de Cássia Eller há algum tempo e fiquei chocada com sua morte precoce em 2001, não chiava nem um pouco de ouvir o disco enquanto não chegássemos aos nossos destinos.

O mais legal é que meu tio curtia junto com a gente e sempre desfiava comentários durante as audições. “Você nunca ouviu essa música desse jeito”, lembro de tê-lo ouvido anunciar de repente quando a quinta faixa começou e eu precisei de um tempo até reconhecer “Partido Alto” numa versão completamente diferente da que eu conhecia com o MPB-4. Imediatamente fui arrebatada por aquele som e precisei reconsiderar minha preferência de até então por “E.C.T.” (Nando Reis/Marisa Monte/Carlinhos Brown), cujos timbaus frenéticos de Lan Lan no refrão perspicaz (“Levo o mundo e não vou lá/ (…)/ Leve o mundo que eu vou já”) me agradavam muito. Aliás, nessa época eu já me arriscava na percussão de modo que não foi por acaso que o disco inteiro, bastante percussivo com as super participações de Lan Lan, Thamyma e Nação Zumbi, me interessara bastante.

Sabendo do meu gosto por música, meus tios me presentearam com um discman naquelas mesmas férias. Precisa mencionar que o disco que mais rodopiou no meu tocador de CD novinho foi o mesmo que tocou à exaustão no carro?

Fim de férias, retornei para minha vida escolar em São Luís morrendo de saudade de ouvir Cássia com meus dindos e minha priminha. O disco ficara com seus donos. Agora eu que tratasse logo de adquirir uma cópia. E qual não foi minha surpresa quando certo dia, durante uma das inesquecíveis aulas de artes do Professor Miguel Veiga na volta das férias no CEFET-MA, escutei a introdução de “Non, Je Ne Regrette Rien”? Um dos colegas de turma – não lembro com clareza se Marcelo ou Edenílson – levara o disco para a escola e quando o professor pediu sugestão de música para tocar durante a aula prática de pintura, o garoto sacou seu “Cássia Eller – Acústico MTV” da mochila.

Assim, por pura e feliz coincidência o disco das minhas férias virou trilha sonora das aulas na sala de artes também.

Não lembro se cheguei a copiar o disco do colega, mas lembro de ter ficado muito contente em achá-lo em promoção nas Lojas Americanas algum tempo depois.

Copy of Era como se a história já existisse e só transcrevesse pro papel. Quis que as sensações fossem além da descrição psicológica do autor, mas que quem estivesse lendo pudesse imaginar os sabores, as vozes, o clima, et

Revisito toda essa história uma década mais tarde por um motivo especial: assisti ao documentário “Cássia Eller” no primeiro dia de abril de 2015, mesmo 2015 que levara meu tio Serginho de nosso convívio dias antes, no domingo 29 de março. E se ainda parece que uma coisa nada tem a ver com a outra, explico: em homenagem à memória do meu tio, que ao som de Cássia Eller viveu comigo uns tantos momentos felizes, resolvi ir ao cinema sozinha e dar continuidade aos passeios que eu sei que ele adorava fazer. Sentei no simpático café da Livraria da Travessa em frente ao Estação Net Botafogo no Rio e pensei em você, tio. Lembrei de nós, de Cássia e de como esse gesto, ainda que praticado em pleno luto por sua partida precoce como a da cantora que ouvíamos, significa tanto e me vem como uma tentativa possível de seguir sem vocês.

Queria – e deveria – escrever uma senhora resenha sobre o documentário dirigido por Paulo Henrique Fontenelle, mas não consigo. Não agora, não por enquanto. Não quando se chora durante grande parte dos 113min de exibição de um filme e sequer se consegue memorizar falas e créditos. Não quando a emoção fica tão à flor da pele que chega a meter medo, testando meu coração de parcos 25 anos.

Até hoje não acredito que Cássia Eller tenha morrido. Ouço seus discos, vejo-a na tela do cinema, leio sobre sua obra e figura e não assimilo que não esteja mais por aqui. Porque lá no fundo eu sei que ela segue entre nós. Nas gravações eternas em áudio e vídeo que materializam sua existência, no coração das pessoas que a amam e se permitem tocar por sua música e história de vida, no olhar e em cada poro de seu belo filho Chicão, que tem arrepiado legiões de fãs da mãe por sua enorme semelhança com ela no porte, no comportamento, na voz e agora na desenvoltura em cima de um palco.

Saio da sala de cinema, cambaleio pelo corredor do Net Botafogo e desabo em um banco próximo. Caio no choro porque Cássia vive. Porque não está mais entre nós, mas em nós.

E é por isso que não me arrependo de me levar até o cinema dias depois de me despedir de você, Dindo. Porque foste em mim, comigo. Porque tua energia boa segue entre nós. Nas minhas lembranças carinhosas, nas tiradas espirituosas que legaste aos que conviveram contigo, no olhar de Maria Elisa (Lili) e nos tantos outros lugares que talvez nem saibamos que estás, porque se revelarão com o tempo, mostrando que nunca partiste de fato.

Enquanto isso, cantemos juntos, que na canção a gente se encontra: “… o que fazes por sonhar/ é o mundo que virá/ pra ti e para mim/ Vamos descobrir o mundo juntos, baby/ Quero aprender com teu pequeno, grande coração”. (“1º de julho”, canção de Renato Russo na voz dela, é claro, Cássia Eller).


Talita Guimarães (1)

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