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Aline Lemos: ‘Adoro trabalhar em coletivos, é um estímulo muito grande para mim’

Abre Aspas

*Por Meiri Farias

Quando se fala da Semana da Arte Moderna de 1922, é fácil citar as telas de Tarsila do Amaral, suas cores marcantes e fama internacional, mas a minha mente vem outro nome: Anita Malfatti. Sempre fui um pouco fascinada pela arte e pela persona de Anita e essa relação se intensificou na faculdade durante as aulas de História da Arte. A beleza e melancolia traduzidas em suas cores, muitas vezes subestimadas e até mesmo rejeitada (puxa vida, Monteiro Lobato!), conversavam comigo com muita facilidade e não conseguia compreender a falta de reconhecimento que a artista recebeu em vida.

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Foi com uma tirinha sobre Anita que me dei conta do trabalho de Aline Lemos. Digo “me dei conta”, porque já havia cruzado com o trabalho da Aline nas timelines da vida e o seu nome é facilmente citado ao pedir uma recomendação de quadrinhos. Isso porque, assim como Anita, o trabalho de Aline conversa com o interlocutor de forma bastante intima. A artista de Belo Horizonte estudou História e constantemente traz a bagagem adquirida nessa formação para os seus quadrinhos. “Sou fascinada pela pesquisa e abordagens historiográficas, às vezes isso fica claro nos temas que uso e nas influências”, conta Aline, exemplificando com seu Fanzine mais recente, Melindrosa, onde se inspira no art déco dos anos 1930, mas também tem influências do erotismo, feminismo e ficção científica.

Quer conhecer mais sobre  o trabalho da Aline? confira a entrevista completa!

Armazém de Cultura: Você deve responder muito essa pergunta, mas conta um pouco para nós: como o quadrinho entrou na sua vida? tanto como leitora, tanto como autora.

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Aline Lemos: Comecei a ler quadrinhos como muita gente, com a Turma da Mônica quando era criança. A adolescência foi do Mangá e só depois, na faculdade, tive contato com outros quadrinhos europeus, graphic novels, independentes… Sempre gostei de desenhar e fazia quadrinhos já na época da escola, mas de forma esporádica. Só fui enxergar os quadrinhos como uma opção para mim bem mais tarde, quando já tinha me formado em História. Foi principalmente por causa da influência de autores belo-horizontinos que eu via no FIQ, como o Ricardo Tokumoto e o Felipe Garrocho, e de iniciativas de incentivo à quadrinistas mulheres iniciantes, como o Zine XXX.

AC: Você também estudou história, certo? Você relaciona de alguma forma o conteúdo da sua formação na produção de quadrinhos? influencia de alguma forma a escolha de temas sobre qual vai desenhar?2 (2)

Aline: Com certeza. Eu decidi não atuar profissionalmente nessa área, mas muito do que eu penso e da forma como eu crio vem dessa formação. Ainda sou fascinada pela pesquisa e abordagens historiográficas, às vezes isso fica claro nos temas que uso e nas influências, como no meu último fanzine. O Melindrosa é um quadrinho inspirado no art déco dos anos 1930, mas também tem influências do erotismo, feminismo, ficção científica… O que eu faço não é História, mas eu dialogo muito com a área.

AC: Você está envolvida em diversos projetos de produção coletiva como o Zinas, Mandíbula e colabora com o site Ladys Comics também.  Como é sua produção nesses meios? no que se difere do que publica individualmente?

Aline: Eu adoro trabalhar em coletivos, é um estímulo muito grande para mim. Cada coletivo tem uma dinâmica diferente, então é bem interessante. Nas Zinas, como moramos todas em Belo Horizonte, atuamos juntas em eventos, feiras e oficinas, além de publicar fanzines. Trabalhamos com feminismo, diversidade e acessibilidade, que são temas que eu também exploro individualmente, mas não necessariamente. A Mandíbula já é um coletivo de 7 artistas por todo o Brasil e tem uma dinâmica específica: publicamos quadrinhos todos os dias, cada semana com um tema aleatório. Individualmente eu nem sempre uso esse método, mas é um excelente desafio criativo. Já no Lady’s eu contribuo principalmente com textos, o que me permite continuar escrevendo e puxando um pouco das raízes de historiadora.

Aline colabora com o Coletivo Zinas, Coletivo Mandíbula e o site Ladys Comics

AC: Percebemos que esses projetos coletivos têm em comum o protagonismo feminino e essa é uma temática frequente no seu trabalho, certo? Conta pouco um pouco para nós sobre como esse tema se manifesta em seus quadrinhos.

Aline: Eu falo sobre protagonismo feminino porque é um tema importante pra mim, e a minha própria trajetória nos quadrinhos tem a ver com ele. Comecei a fazer quadrinhos na mesma época em que comecei a me conhecer como mulher, a me empoderar e a conhecer melhor o feminismo. Então essas eram questões que me tocavam, que eu tinha vontade e necessidade de expressar desde o início. E como eu mencionei, iniciativas de incentivo a mulheres autoras foram o empurrão final que eu precisei para começar a fazer mesmo quadrinhos, e até hoje os grupos de discussão e os coletivos de autoras são um suporte muito grande pra mim.

AC: Falando nisso, você faz uma série de ilustrações sobre mulheres na arte. Como surgiu essa ideia? você acha que as mulheres ainda não são reconhecidas o suficiente nesse ambiente?

4 - Sophie Taeuber-Arp, participante do movimento dadísta

Homenagem a Sophie Taeuber-Arp, representante do movimento dadaísta

Aline: Surgiu da minha vontade de desmistificar o senso comum – na verdade um discurso histórica e institucionalmente consolidado – de que as mulheres não tiveram grande participação na história da arte. Fiz mini-biografias porque quero dar alguma visibilidade às artistas, e também fiz paródias brincando com os preconceitos que permeavam obras do passado. É uma forma de celebrar a representatividade positiva das mulheres na arte e de desnaturalizar a ausência dessas representações nas galerias. Não é natural a ausência de pintoras no passado, mas resultado de um processo de exclusão. Ainda hoje as galerias são predominantemente masculinas, por mais que as escolas de arte tenham tanto ou mais alunas mulheres. Por vezes, não se trata de formas de discriminação abertas, mas de barreiras sutis que as mulheres têm que enfrentar – assédio no ambiente escolar ou de trabalho, auto-estima, dupla jornada… Se o machismo está disseminado na sociedade, é claro que ele se manifesta também no microcosmo das artes, ainda que ele se queira liberal. Prova disso é que o assunto ainda incomoda.

AC: Recentemente você publicou em sua página no Facebook uma divulgação da sua HQ Melindrosa, explicando a importância de comprar, mesmo que o conteúdo seja disponibilizado online. Com as possibilidades que a internet oferece, no que toca a produção e divulgação de quadrinhos, quais sãos as principais vantagens e desvantagens de produzir quadrinhos atualmente? Ainda é muito difícil encontrar um equilíbrio na acessibilidade do conteúdo e na viabilização financeira?

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Aline: Artes e quadrinhos ainda são um mercado muito difícil no Brasil, por várias questões. Ainda temos uma desigualdade social muito grande, mas mesmo quem tem condições e até gosta de consumir nem sempre valoriza todo o trabalho e custos envolvidos, nem sempre está disposto a pagar por isso. Mas acredito que a internet facilita muito mais do que prejudica esse quadro. Eu disponibilizo meus quadrinhos online porque quero que inclusive as pessoas que não tenham condições de pagar possam lê-los. Ao mesmo tempo, meu trabalho só é conhecido e vendido um pouco mais amplamente graças à internet. Posso dizer inclusive que eu só comecei a fazer quadrinhos por causa desse quadro, porque conheci colegas, público e formas acessíveis de publicação disponíveis na internet. Mas a internet não substitui o produto material. O impresso te dá a portabilidade e inúmeras outras possibilidades criativas, além de uma experiência diferente. O quadrinho que eu imprimi eu levo para as feiras, onde atinjo outro público, e envio através da própria internet. O que eu percebo é que muitas pessoas que lêem e gostam, também compram. E espero que cada vez mais as pessoas passem a considerar arte e quadrinhos como algo que elas podem mais do que colecionar, algo para compartilhar, dar de presente, dividir.

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AC: O que você tem acompanhado de quadrinhos atualmente e indicaria para quem gostou do seu trabalho?

Aline: Tenho acompanhado principalmente quadrinhos independentes brasileiros, que tem muita coisa bacana sendo produzida! Todas as minhas colegas da Mandíbula, Lila Cruz, Lovelove6, Netuno Press, Pedro Cobiaco, Ryotiras, LTG, Taís Koshino, a HQ “Baixo Centro” do Jão, o Jornal Altamira… Recentemente iniciei uma lista colaborativa com nomes de mulheres quadrinistas, vale a pena dar uma olhada: A legião de mulheres nos quadrinhos no Brasil

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