Questão de Opinião / Recortes! / Talita Guimarães

Recorte: Seu Paulo em São Paulo

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*Por Talita Guimarães

Abril de 2016. Noite de segunda-feira. Rua Maria Antônia, Higienópolis, SP. Entro em um táxi e peço uma corrida até a estação de metrô Paulista, que na verdade fica na Consolação. Já fui alertada disso antes, mas sorrio agradecida quando o taxista me explica que as estações não ficam na rua de mesmo nome pra confirmar se é pra lá mesmo que preciso ir.

Engatamos uma conversa breve dentro do curto trajeto que percorremos até meu destino. O taxista é um senhor elegante, de vestes formais e um falar pomposo. Pergunta de onde sou, conto que de São Luís-MA. O que faço? Sou jornalista e escritora. O que me leva à cidade? A agenda de lançamento do meu segundo livro. Ao saber disso, o taxista comenta sobre o hábito da leitura no Brasil e elabora uma pergunta digna de locutor de rádio dos bons sobre o assunto.

14.Seu Paulo em São Paulo

Arte: Talita Guimarães

Entrementes solto que estou na cidade com minha irmã e uma amiga, que vieram para um congresso de arquitetura. Inocente, sequer considero que deveria ter mais cautela com o que digo. É que o ar digno de Seu Paulo me inspira confiança. Julgo-o um sujeito decente, ouvinte atento e respeitoso. Ao fim, recebo seu cartão e pergunto se ele sempre fica no posto onde peguei o táxi minutos antes. Prometo lhe dar um livro meu de presente, para ele ler nos intervalos. Seu Paulo agradece, me dá dicas sobre localização nos arredores e nos despedimos.

Já na estação, encontro a amiga Meiri que me leva para conhecer a passagem literária e em seguida caminhamos conversando até o Conjunto Nacional, onde pretendemos encontrar Talissa e Aury na Livraria Cultura.

Enquanto as aguardamos na calçada, Talissa manda uma mensagem abismada contando que pegou o mesmo táxi que eu e que o taxista sabe tudo de nós. Segundo maninha, o diálogo com Seu Paulo foi mais ou menos assim após ela e Aury tomarem o táxi na Maria Antônia:

– Para onde?

– Conjunto Nacional, por favor.

– Vocês vão encontrar alguém?

– Minha irmã e uma amiga.

– Não era pra vocês estarem indo pra outro lugar e tão atrasadas?

– Eeeeh… Mais ou menos.

(…)

– Vocês vão encontrar a escritora Talita Guimarães?

o.O

(…)

– O senhor sempre fica no posto da Maria Antônia?

– A sua irmã fez a mesma pergunta.

Nina

Meiri comenta impressionada que isso nunca acontece em São Paulo. Estremeço com a coincidência, temendo ter colocado minhas companheiras de viagem em perigo. E fico impaciente até que Seu Paulo as entrega sãs e salvas na porta do Conjunto Nacional.

Nos dias que se seguem, retorno ao posto da Maria Antônia várias vezes, sem jamais reencontrar o taxista.

Intrigada, repasso mentalmente os fatos para ter certeza de que aconteceram mesmo. Em São Luís, tal situação não seria inusitada. Todo mundo se conhece de alguma forma, em algum momento. Há uma rede muito próxima de contatos e conhecidos. Não raro brincamos que a cidade é um ovo. Já em São Paulo, onde não poderia esperar o mesmo, me surpreendo como o surreal flerta com o tempo irreal, gerando situações gêmeas às vividas pelos ludovicenses. Talvez para propor que todas as cidades são redes articuladas em potencial.

Dadas as proporções, grosso modo tudo indica que São Luís é um ovo de codorna sim, ok, mas não está só em suas peculiaridades. Fluxo contínuo em suas vias que jamais cessam de jorrar, São Paulo é território de coincidências também.  Ovo de avestruz.


Talita Guimarães (1) 

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