Questão de Opinião / Recortes! / Talita Guimarães

Recorte: Domingo no Terminal

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*Por Talita Guimarães

Começa no ônibus com pessoas sorridentes em suas roupas leves que sugerem praia como destino. O céu bonito promete um dia de sol. É domingo e o clima está ameno.

Há risadas na conversa entre amigos perto de onde estou sentada. Não me ligo muito no que eles falam, muito mais fisgada por suas expressões descontraídas. Expectativa de leveza no ar.

Arte: Talita Guimarães

Arte: Talita Guimarães

No Terminal da Cohab, descemos todos da linha alimentadora. Tomo rumo de uma baldeação quando um senhor sorri na minha frente dizendo “essa menina eu conheço”. Levo alguns segundos para reconhecer a família inteira e sorrio feliz pelo encontro inusitado. É a gente querida a quem já dediquei um texto em Recorte!. O casal Andeson e Íris acompanhados de suas belas filhinhas Yasmin e Yngrid, esta última caçulinha sobre quem escrevi na ocasião de seu chá de bebê, e que vejam só, já voa para seus três aninhos de vida.

O reencontro é alegre e carinhoso. A mãe me atualiza das notícias da cria enquanto corujo as pequenas impressionada como a vida pulsa ligeira.

Despedimo-nos quando o ônibus PRAIA desponta e a família corre para pegá-lo. Sorrio e aceno mais uma vez grata pela beleza que me fornecem.

Não custa muito e meu ônibus chega. Embarco rumo a outro terminal onde mais uma vez devo descer para tomar um terceiro ônibus. Os trajetos são curtos, mas as baldeações desaceleram a chegada.

Sequer me importo. O sol brilha e o vento sopra gostoso. Há qualquer coisa muito certa no ar. Uma paz que me pergunto se só eu estaria sentindo. O Terminal da Cohama está tranquilo. De um som ambiente bom de apreciar. Há a sinfonia dos motores dos ônibus, mas em um compasso diferente da ferocidade habitual. Talvez amansado pelos sons de famílias inteiras em roupas de passeio carregando sacolas grandes e isopores. Cenas que antecipam mentalmente para mim o cheiro de almoços fartos.

Nina

Mais adiante, duas plataformas depois da minha, um grupo de jovens toca violão e entoa cantigas religiosas alegremente. Um dos rapazes saca um celular e todos congelam onde estão. Pose para foto. Na minha cabeça, a cena vale muito. O domingo vagaroso sendo congelado para continuar entre eles. A pausa para foto me dá vontade de fotografá-los de longe, mas só vontade mesmo sem gesto para materializar, pelo que a foto da foto poderia simbolizar.

Quando a demora do ônibus aumenta, desligo-me da realidade para ler um pouco o exemplar de Histórias do Não Ver que carrego comigo. O autor, Cao Guimarães propôs a si mesmo um exercício interessante: viver experiências privando-se da visão como principal sentido captador da realidade. De olhos vendados, Cao é “sequestrado” por amigos para lugares em que ele precisa descobrir o que são através dos outros sentidos. O resultado é um livro com textos e fotos primorosos sobre a experiência de viver-sentir sem a ditadura da visão.

Penso que o exercício de Cao é bastante importante e ensina muito a todos nós. Imagino-me revivendo o trajeto até ali sem enxergar. No tanto de cenas que certamente iria perder, mas na enorme gama de sensações que poderia ganhar.

Sem dúvida, penso que aquele domingo ainda seria belo e solar.


Talita Guimarães (1)

One thought on “Recorte: Domingo no Terminal

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