Dica de segunda

Dica de Segunda: Hoje eu quero voltar sozinho (Daniel Ribeiro)

*Por Beatriz FariasSem Título-1

É mais uma vez por meio do manifesto pessoal em encontrar uma adolescência apresentada longe dos padrões hollywoodianos que finco o gostar cada vez maior numa produção nacional que descubro estar mais preocupada em mostrar a juventude desencapada dos exageros. Ainda defendendo que na vida a troca de conhecimento com situações distantes seja de toda liberdade, tem-se falado da importância de se identificar no que consumimos artisticamente e de seu poder de encontro consigo. Foi dessa troca entre permear distâncias que encontrei graça em falar do filme de hoje, ainda que a rede já esteja repleta de comentários a respeito, tem necessidades de comentar que a gente agarra quando vem por entender sua raridade. “Hoje eu quero voltar sozinho” é do tamanho exato da qualidade de deleite que abriga esse espaço.

Lançado em 2014, exibido em diversos países e com um total de prêmios e indicações de soma alarmante, o filme que sucedeu o curta “Eu não quero voltar sozinho” (2010) é um alargamento do hoje-eu-quero-voltar-sozinho_01mesmo. A história gira e torno de Leonardo (Ghilherme Lobo), um adolescente cego, que está enfrentando as mudanças da adolescência ao lado de sua única amiga Giovana (Tess Amorin), lidando com uma mãe superprotetora e colegas intolerantes. Tudo isso ao mesmo tempo em que busca sua independência. Quando Gabriel (Fabio Audi) chega na cidade, novos sentimentos começam a surgir em Leonardo, fazendo com que ele descubra mais sobre si mesmo e sua sexualidade. 

O maior atrativo do longa é definir a importância do tema com o que torna a vida em comum. O fato do personagem principal ser deficiente visual ou homossexual não são a grande questão, e ainda que seja de extrema importância mostrar as dificuldades e especificações da condição de cada ser, entende-se como revolucionário quem sabe também tratar com naturalidade os casos, encurtar as distâncias promovidas pelo diferente já que o que realmente está em jogo ali é o processo de descoberta do amor de Leonardo.

hoje eu quero voltar sozinho (1)

Importante mencionar o trabalho realizado por Ghilherme, Fabio e Tess Amorin. Não fosse simplesmente a qualidade de pesquisa realizada que era necessária para compor o papel de Leonardo, existia ali uma credibilidade espontânea em tornarem-se cúmplices. Os jogos de cenas são críveis porque os atores – totalmente despojados de pretenciosidades – já não representam, tomam para si a circunstância. E é bonito porque aproxima, vem desse exercício de empatia do qual ainda estamos trôpegos no caminhar mas que possui a força de entrega eficaz para o encantamento da obra, já que quando a gente se propõe a realmente vivenciar o filme a simples observação visual é pequena. Necessário mesmo é mergulhar em todos os sentidos, parece que quando a gente olha com a alma cabe tão mais detalhe na tela da percepção que é aí que os sentidos ganham uma proporção infinitamente maior: o afeto do toque vem muito de uma câmera que pesquisa com real interesse o tamanho do carinho. É quase possível sentir o cheiro da casa que Leo mora, da comida que sua mãe prepara e do banho de piscina que toma com sua melhor amiga, a gente chega perto porque a essência está presente nas cores – cores de ternura. Já a trilha sonora é fio condutor para o charme da audição, todo silencio é precioso, mas nada substitui a primeira vez em que se ouve “There’s Too Much Love” (Belle & Sebastian). De todo modo, não existe inteligência mais atrativa na tela do que fazer caber no mesmo meio Schubert, Cícero e Bowie .

O responsável por toda sensibilidade é Daniel Ribeiro (seu primeiro longa-metragem), o diretor – também roteirista e produtor – tem preocupação em representar sensações que chegam em todas as pessoas mas que do alto da sabedoria “adolescentiana” parece maior, mais vívida. O que dá o diferencial da apresentação de Daniel a qualquer outro longa com temas parecidos são os miolos específicos que deu-se foco. É dado zoom ao que realmente importa. Não se trata de apresentar a grande explosão, superprodução e gestos largos, o valioso está nas faíscas, tudo que inflama por estar perto, ser confortável por garantir uma simplicidade despretensiosa em comum ao espectador.

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O título do filme (a autora deste texto tem mania de falar dos princípios no fim) demorou para ganhar sentido na minha bagagem. Veio numa roda de conversa, de uma pessoa a qual dedico afeto. Veio num misto de simples emoção e divertimento, como quem fala sem saber o espanto que provoca. A verdade é que ainda sabendo que há descobertas cujo gosto de ser feita acompanhada vale o risco de se desarmar, tão claro soco no estômago (tiro no peito, alarde no coração) é que a gente não precisa de nada. Ninguém precisa de ninguém pra viver ou ser feliz. Porque mais do que torcer para a reciprocidade de Gabriel, o que ali florescia em Leonardo era a possibilidade. O processo de liberdade em aceitar que se pode viver os desejos que vem da independência (parece que todas as coisas despertam dessa palavra na juventude), agarrar as escolhas. dá pra escolher voltar sozinho, ou não.


Selo Bia

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