Recortes! / Talita Guimarães

Recorte: Relatividade

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*Por Talita Guimarães

Sempre que viajo volto relativa. As noções de tempo e espaço se alargam tão profundamente que parecem tocáveis, de tão perceptivelmente existentes. Sinto uma paz tão confortante que pareço planar naquele espaço em que a criança pergunta em dúvida se já é o céu.

Caminho pela minha cidade após retornar de uma semana intensa em turnê literária pelo sudeste, sentindo que tudo que vivi por lá ainda é muito recente, como se a sensação de estar naqueles lugares ainda me acompanhasse como coisa próxima. Como se São Paulo ou Rio estivesse aqui perto, há um bairro de distância.

16.Relatividade.

Arte: Talita Guimarães

E nem é a ilusão atordoante de um jetlag que me leva por esse caminho. É muito mais a experiência sensorial real de estadia em lugares de pertencimento que me faz sentir como se estar lá ou aqui, tanto faz, fosse também meu.

Isso de pertencer a um lugar muito me interessa, aparecendo como um tema recorrente para mim.

É como caminhar pela primeira vez pela Avenida Paulista sendo aplacado passo após passo por uma sensação de deja vu. Tudo soa estranhamente familiar, como se por lá já tivesse passado outras tantas vezes.

A avenida mais famosa do Brasil, palco de tudo que importa a todos, soa familiar porque é. Lugar conhecido de quase todo brasileiro que para além do sentimento de nação, interessa a todos que vivemos esse tempo em que é possível acessar lugares sem estarmos fisicamente lá.

Quando retorno à escola mais importante da minha vida escolar para uma roda de conversa com estudantes, minha professora de filosofia pede que eu fale sobre as portas que a literatura abriu para mim como forma de escapar do medo que aplaca nossa existência finita. Respondo que o hábito de ler como um todo é um transpor de portas que expande meu entendimento do universo. Experiência intensa que destrancou portas para dentro de mim também, abrindo os tantos universos que me habitam para o mundo. Afinal, o fazer literário é uma forma de nos ligar ao mundo. “Pontes para si/ teias/ Teias entre nós/ Pontes”, como já teria cantado o sempre certeiro Pitanga em Pé de Amora.

A sensação que permanece em mim após todas essas experiências espaço-temporais é de um ser e estar no mundo de forma muito próxima do que se pode dizer plena. É como se esse estar em trânsito legasse aos sentidos o prazer de ser mundo, diluído na energia de estar vivo como célula integrante de um todo.


Talita Guimarães (1)

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