Dica de segunda

Dica de Segunda: “Guida” (curta de Rosana Urbes)

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*Por Beatriz Farias

A programação rotineira da Dica foi alterada por motivos de urgência e inquietação, então o RADINHO que deveria ocupar este espaço hoje ficará na página do AC, e por aqui ficamos com um curta-metragem de urgente importância. Hoje vamos falar de dona “Guida”.

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Lançado em 2014, a animação de Rosana Urbes apresenta a história de uma senhora com o simpático nome do título: Guida trabalha como arquivista há muitos anos no Fórum João Mendes Jr., em São Paulo. Ao completar 30 anos nesse emprego, encontra um anuncio convidando pessoas para posar como modelo vivo em um centro cultural, mudando assim a monotonia com que levava o cotidiano. “Através da sensibilidade criativa de Guida, o filme apresenta um ensaio sobre o processo de retomada da inspiração artística”, revela a sinopse. O dialogo hoje é um pouco diferente porque indico que você assista logo a princípio, já que o caminho a seguir não se trata de uma análise a respeito de qualidade técnica e essas questões (venhamos e convenhamos, nunca foi a intenção desta coluna). Então, para que a conversa ganhe forma, acompanhe o trailer logo abaixo e assista o curta completo no Canal Brasil.

O curta trabalha com delicadeza o processo de envelhecimento por meio da aquarela, ainda que com a brutalidade do ócio presente nas cores escolhidas, a sensação predominante é a de nostalgia e intimidade. Com a trilha sonora ambientando o humor da senhora e dialogando com grunhidos e barulhos exteriores, a metrópole como cenário é importante para situar o tipo de solidão que envolve o enredo. Sendo este, uma reflexão a respeito de sair do lugar de conforto, descobrir uma forma de lidar o passar do tempo com leveza, uma marcação emocional, biológica e física.

2Particularmente, acho riquíssimo observar a linha cronológica do tempo passando nas mulheres que fazem parte da minha vida. No momento em que conheci minhas avós (reencontro tardio), por exemplo, entendi a reunião entre passado e futuro. O fio condutor dos desencadeamentos de anos de alegria e sofrimento se revela em rugas, cicatrizes e covinhas no riso. O olhar de uma tia, a risada da minha mãe ou até mesmo o articular das mãos que me vem como reflexo de minha irmã, todas as marcas da memória registradas no corpo, casa do que deixamos transparecer ou acidentalmente transborda.

Acredito nas definições das crianças, porque sempre me leva ao questionamento da “profanidade” com que nos condicionaram a enxergar nosso corpo. Se essa coisa que por mim caminha sendo “eu” e “todos nós seres humanos temos”, soa difícil o entendimento do pudor, que por ser mulher, tive que desde cedo de aprender a vestir. Tomar muito, muito cuidado com a forma que apresento o corpo à sociedade, já que a culpa é sempre da minha postura, disseram.

O corpo de uma mulher é violentado diversas vezes ao longo de uma vida. Não falo somente das agressões físicas, que aqui no Brasil matam de forma violenta principalmente mulheres em condição vulnerável socioeconomicamente, mas também a que destrói aos poucos. Aquela que de tão escancarada não acreditamos ser real, que mostra padrões absurdos na televisão, não apresenta identificação e oferece produtos que disfarçam o que é julgado imperfeito. A violência velada que nos quer dentro de um padrão e não respeita nossa diversidade é culpada dos pavores que a exposição do corpo carrega: ainda não é claro que nosso corpo nos pertence.

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É aí que dona Guida nos desperta. Não sendo mais uma jovenzinha dentro dos limites sociais impostos como aceitáveis – preconceitos que nem são abordados no curta, já que a ideia está no retorno da senhora na morada que é -, ela mesmo se permite o interesse por si. A descoberta do corpo como material e pesquisa vem de uma inteligência corporal – que todos nós temos porém desprezamos na mecanização das atividades cotidianas – a partir da criatividade do fazer com prazer. Ao se descobrir inspiração, aceita as contradições e reconhece o que limita, a senhora passa pela experiência de troca profunda com o mundo: quanto mais dá para a arte mais se recebe, se encontra nas múltiplas maneiras de interagir com o ambiente.

Em uma entrevista para o site Anima Mundi  Rosana Urbes afirma que “a estória do filme (pra mim) é essa: encontrar um caminho para partilhar com o outro o que é sutil e encantado no nosso mundo interior”, e eis que uma outra criança afirma sobre o corpo: “aquilo que dirige alguém” e a gente entende nos dizeres de Beto Guedes “tudo o que move é sagrado” (canção “Amor de Índio” que já citei por aqui várias vezes). Corpo é sagrado sim, e a beleza está na medida em que as entregas ao mundo partem de uma alma já nua.

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Dona Guida desenhada por vários artistas, para o projeto “a Guida dos outros”

O “despir” tão marginalizado é uma maneira precisa de resistência, (última definição do livro, prometo:) “meu corpo é alma”, e bonito mesmo é a veracidade com que o coloco a mostra. Quando, porém, não houver mais necessidade de resistir, este que nos apresenta ao mundo ainda será o que dá forma. Esqueçamos então o que Nelson Rodrigues disse a respeito, toda nudez – consentida – será perdoada.


Selo Bia

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