Abre Aspas / Música

Caio Prado: Maravilha perante o caos

Abre Aspas

*Por Meiri Farias

Horror, injustiça e preconceito com doçura e intensidade paralisante. Essas são as sensações que nos atingem ao escutar a canção “Não Recomendado”, de Caio Prado no disco Variável Eloquente. Parece clichê começar um texto sobre artista exaltando sua capacidade de colocar a “alma” no que canta, mas creio que não há definição mais exata para o trabalho do carioca. Assim como a definição que dá para a sua cidade “O povo carioca é espontâneo e produz maravilhas perante o caos”, Caio tem o dom de trazer a tona assuntos e situações dolorosas de forma tão delicada, quanto cortante.

1412624_249145238572060_1282394234_o

Caio, que já está trabalhando no sucessor de Variável (o artista conta um pouco sobre “O mesmo e o outro” na entrevista abaixo!), acredita que a música tem a capacidade de sensações imediatas, reflexões e movimento. “A história da música brasileira passa diretamente pelo posicionamento político. Nossa cultura é de luta e resistência”, explica. Na entrevista falamos sobre resistência, música e Rio de Janeiro, confira!

Armazém de Cultura: Em outras entrevistas, você comenta bastante sobre a intencionalidade de comunicação por meio da sua arte. Hoje em dia, com tantas ferramentas, plataformas e espaços para se transmitir ideias, a música ainda é uma ferramenta efetiva de comunicação?

Caio Prado: Sim. A música movimenta as redes. Tem muito alcance e viraliza. As pessoas consomem muita música. Hoje de maneira mais pessoal. A música tem a potência para criar sensações imediatas, reflexões e movimento. Nas redes sociais as pessoas mencionam e marcam seus amigos nos vídeos, compartilham clipes como status diário, buscam na arte uma maneira de se expressar e transmitir afinidades e afetos.

AC: Estamos passando por um momento politicamente conturbado. Não apenas na política institucionalizada, mas na forma que os eventos políticos reverberam na opinião pública. Em meio a tanto radicalismo e intolerância, a música pode representar um posicionamento? o artista deve se posicionar politicamente?

Caio: Sim. A história da música brasileira passa diretamente pelo posicionamento político. Nossa cultura é de luta e resistência. Nossa sociedade tem raízes machistas, homofóbicas, racistas e patriarcalistas. Nossos políticos não nos representam e nossa forma de governo está viciada na corrupção. Os últimos eventos comprometem diretamente nossa jovem democracia, vítima de um golpe parlamentar. Se minha música não passa pela realidade das coisas, não é útil. Ela se perde, pois não comunica, não encontra afirmação, contradição e superação.

Ouça o disco no Spotify:

AC: Por que “O mesmo e o outro”? Poderia contar um pouco sobre a escolha desse nome para o disco?

Caio: “O mesmo e o outro” já existia desde a escolha das músicas para o primeiro disco. Penso nela como um conto, uma fábula, uma utopia… É o paradoxo do homem em ser único como espécie e múltiplo em suas expressões. Um conceito que denota as diferenças culturais no mundo. Foi uma das minhas impressões e absorção da faculdade de antropologia. Amo a ideia da multiplicidade do ser, e desejo o respeito às diferenças e expansão da consciência para entendimento que somos um só.

Copy of Copy of Era como se a história já existisse e só transcrevesse pro papel. Quis que as sensações fossem além da descrição psicológica do autor, mas que quem estivesse lendo pudesse imaginar os sabores, as

AC: Como está sendo a produção do disco novo? quais as maiores diferenças – seja em repertório ou ao processo de produção – em relação a “Variável Eloquente”?

Caio: O processo foi muito feliz. Fiz uma residência com 3 multi-instrumentistas incríveis (e baianos <3): Mikael Mutti, Tito Oliveira e Webster Santos. Ficamos por 2 semanas na Gargolândia, um estúdio imerso numa fazenda no interior de SP. Um lugar lindo e inspirador. Tudo propício à criação. A produção do disco é do gênio Alê Siqueira. Pensamos num disco pop, com influência do soul e black music, do canto griot. São 9 faixas minhas: tem amor, mantra, protesto… A faixa bônus é “Zera a Reza” de Caetano; fizemos uma versão soando rap pop, com direito a berimbau. O disco ainda conta com arranjos vocais de Wagner Barbosa, que trabalhou as músicas comigo pra que eu chegasse afiado nas gravações.

AC: Conhecemos a música “A Casa não caíra” por meio da interpretação de Duda Brack. O sentimento de resistência nos veio muito forte quando a escutamos. Você acha que podemos associar a mensagem à situação dos artistas independentes e autorais? falando nisso, como você avalia as mudanças continuas que o trabalho do músico vem sofrendo, tanto na produção quanto na distribuição de seu trabalho?

Caio: “Se todo artista for puta de esquina, se meu cachê for dez reau, a casa não caiu e não cairá!”

Sim!

A música independente sobrevive mediante a toda falta de incentivo. A mídia rádio e televisão não dão o devido valor aos artistas locais e independentes. Há necessidade de investimentos nos festivais e maior visibilidade nos grandes veículos de comunicação. Ainda assim, a internet possibilita que o artista encontre seu público e reverbere.

Veja “A Casa na Cairá”, com Duda Brack:

AC: O projeto “Não Recomendados” do qual você participa com Diego Moraes e Daniel Chaudon explora diversos paradigmas que ainda persistem em nossa sociedade, tornando tão preciso que seja feito. Poderia contar um pouco sobre como surgiu a ideia de fazê-lo, até como vocês sentem a recepção das pessoas quando estão no palco?

Caio: Não Recomendados é um movimento que começou despretensioso, baseado nas relações sem tabus de 3 amigos músicos e compositores.

Numa época em que os saraus no Rio de Janeiro tinham voltado à cena. De segunda à Domingo, amigos abriam suas casas pra receber música. Eu, Diego e Daniel íamos a esses saraus, e entoávamos “Não Recomendado”, canção que compus em forma de doce protesto dos marginalizados e oprimidos da sociedade. Enquanto negro, gay e pobre é importante fazer da música uma potência ativa buscando reflexões e superação de paradigmas da nossa sociedade machista, racista e homofóbica. Diego e Daniel compartilham desse conceito pelo não preconceito. Suas experiências de vida real fortalecem esse grito contra as forças maniqueístas que nos permeiam.

Subimos ao palco como movimento, como coletivo. A força de um trio cúmplice somado às inovações e pró-atividade de um produtor musical e músico, Edu Capello, que organiza as vontades e ânsias, transformando em  arranjos transgressores. Aliado a dois amados e também não recomendados em essência: Henrique Torres, guitarrista, e Jean Michel, Baterista.

Nossas referências passam por Secos e Molhados, Tropicália, Dzi Croquetes, tudo que há de transgressor, amor e sem tabu na nossa cultura brasileira.

AC: Temos percebido com os artistas que falamos como o ambiente é um agente importante na  forma de conduzir a arte. Você sente isso com relação a si e ao Rio de Janeiro? A cidade é para você contribuição/inspiração para o trabalho que vem fazendo?

Caio: O Rio de Janeiro exala criação. O povo carioca é espontâneo e produz maravilhas perante ao caos. Este misto de província e cidade grande influencia diretamente na minha música. Conheço bem o Rio de Janeiro, desde o subúrbio na zona oeste, baixada, até ao centro e zona sul. Os contrates sociais e de estruturas são gritantes à observação de alguém que busca a poesia das ruas. Também tem a beleza natural do Rio que é soberba. Dela, respiro o saudosismo e nostalgia das canções.

AC: Por falar em Rio de Janeiro, o que de independente e autoral tem acontecido por aí que você se identifica/gosta e poderia recomendar pra gente?

Caio: Há um clima de revelia criativa na cidade diante ao desgoverno. As ocupações tem revelado grandes artistas comprometidos com a cultura para um valor social. Citando alguns nomes independentes e que tenho profunda admiração, ressalto: Duda Brack, Júlia Vargas, Carlos Posada,  Daniel Chaudon, Johnny Hooker, Simone Mazzer…

Ouça “Meu Perdão”:

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s