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Recorte: Precisamos falar sobre o medo

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*Por Talita Guimarães

Devia ser carnaval. Lembro que era noite e eu e minha mãe estávamos na porta de casa conversando com nosso vizinho dois anos mais velho que eu. Não recordo o assunto da conversa, tampouco a idade que eu tinha na ocasião. Em minha mente ficou apenas uma fugaz memória, dessas que no cinema aparecem em meio a uma névoa acinzentada demarcando um flashback.

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Arte: Talita Guimarães

Um homem saiu literalmente das sombras na esquina da rua e caminhando pelo meio da rua, passou reto por nós, sem nos direcionar olhar ou palavras. Nada senti ao vê-lo, talvez imune por minha inocência que desconheceu suas vestes – um chapéu, uma blusa listrada e mãos compridas com dedos afiados – sequer reconhecendo o personagem que ele representava. Talvez eu já enxergasse mal nessa época, por isso tenha sido protegida por minha miopia. Ou a rua estivesse simplesmente mais escura do que deveria e eu nem tenha olhado de fato para o homem. Fato é que minha mãe e meu vizinho não passaram imunes à aparição de Freddy Krueger em nossa rua, àquela hora da noite. Tanto que ambos gelaram, calando-se de súbito.

Só entendi o que se passava quando o homem já ia longe e meus companheiros na calçada recuperavam a fala, comentando o que acabáramos de presenciar.

Claro que apesar do susto inicial, ambos se recuperaram a tempo de rir do ocorrido, enquanto aí sim um medo crescente me aplacava. Então aquele homem estava vestido de monstro e eu sequer percebera isso? Por que ao vê-lo não temi? O que havia de errado comigo, afinal?

Fosse o que fosse, senti medo por causa do medo dos outros. Tentando identificar o monstro que eu não havia visto, mas talvez devesse temer.

Na vida, é curioso notar como mil medos nos vem pelo que ouvimos dos outros e não pelo que vemos e sentimos de fato. Se pudéssemos não ter nossas percepções envenenadas por interferências externas, talvez construíssemos ideias mais nossas sobre o que percebemos. Ou pelos menos mais pura sobre o que nos rodeia. Não que não precisemos dos olhares externos, mas é que às vezes o que nos vem de fora nem condiz com o que perceberíamos por nossa própria conta e risco. E ao mesmo tempo em que isso seria bom, representaria também um risco alto.

Nina

Acho que é por isso que no fim das contas vivemos nessa teia louca em que precisamos uns dos outros, ao mesmo tempo em que precisamos levar a sério o que vem de dentro de nós mesmos.

Recupero essa lembrança antiga em meio a um tempo tão sombrio porque ela me fala sobre o medo do medo e mais. Sim, “medo do medo/ o pavor/ Será disfarce da dor?”, como teria cantado O Terno.

Para quem não sabe, o personagem fictício Freddy Krueger é filho de um estupro coletivo. Sua trajetória de horror leva a um histórico de atrocidades e barbárie. Desperta a monstruosidade que há em si e nos outros. Ninguém escapa ileso em sua história.

Quando um homem vestido de Freddy Krueger cruzou comigo, minha mãe e meu vizinho em nossa rua em algum carnaval da década de 90, nenhum desses conceitos socialmente construídos faziam parte do meu repertório ainda. Eu não tinha como temer.

Não sabia o que temer. Mas logo soube. Ainda que não entendesse ao certo o porquê.

Contextualizando com os acontecimentos brutais mais recentes, quando mulheres são violentadas em seus direitos mais elementares e todas nós nos revoltamos, nos indignamos, não é mais só de medo que estamos falando, é de raiva. Raiva por ter que ter medo. A imposição do medo a que somos obrigadas a sentir desde muito cedo simplesmente por sermos quem somos. E isso está tão errado que eu nem sei dizer. Só sentir. Raiva!

A ausência de medo da infância, fruto da inocência, não existe mais. Porque fui condicionada a me amedontrar mesmo quando nem tenho motivo para tanto. Porque na nossa sociedade doente, os motivos são alheios aos fatos.  E os fatos são contados de modo invertido.

Eu queria mesmo ainda ser a garotinha que desconhecia os Freddy Krueger espreitando a cada esquina. Mas não sou. Porque na verdade, hoje eu sou a mulher que sabe que pra começo de conversa, Freddy Krueger, tanto enquanto filho do horror quanto perpetuador do horror, jamais deveria existir em tempo algum. E mais do que medo e raiva, tenho profunda tristeza. Por todos nós.


Talita Guimarães (1)

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