Questão de Opinião / Recortes! / Talita Guimarães

Recorte: O que aprendi ao tirar do vasinho o meu ipê

Recorte

*Por Talita Guimarães

Levo tempo para me desfazer de embalagens. Guardo canecas secas, caixas de papelão, envelopes de correspondências, e até outro dia guardava os de contas também. Quando compro livro, resisto em me desfazer do plástico que o envolve, embora o retire logo para alcançar as páginas.

Arte: Talita Guimarães

Arte: Talita Guimarães

Quando minha muda de ipê de jardim chegou aqui em casa, trouxe-a num vasinho. Ciente de que dentro de algumas semanas teria que transferi-la para a terra do quintal. Acontece que quase um ano se passou sem que eu fizesse a devida transferência. Nesse meio tempo, a planta cresceu muito e várias vezes ensaiou o balé da despedida, murchando e perdendo suas folhas. Chegou a definhar, em avançado processo de seca.

Assustada com a possibilidade de ser a responsável pela morte de um ipê que sequer saíra do vaso, corri a comprar adubo e finalmente plantar a muda no quintal, salvando-a de um trágico fim.

Provando que a natureza é de uma sabedoria infinita, em pouquíssimo tempo a mudinha recobrou seu verde e floresceu. Desde então cresceu vertiginosamente rápido sem deixar de dar flor sequer uma vez. Hoje, já preenche bonita parte do quintal com seus mais de três metros de altura e seus cachos de flores amarelas.

Toda vez que a vejo exuberante, e ela está sempre exuberante!, penso abismada em sua quase partida precoce. E em como a aparentemente simples transferência do vaso para terra carrega uma lição importante sobre rupturas e barreiras.

Nina

É que nós, seres humanos, também reagimos assim quando limitados a espaços sufocantes que nos impedem de crescer. Murchamos, perdemos brilho e corremos o risco de nos despedir de vez da vida. Não raro vivemos por mais tempo do que deveríamos dentro de vasinhos provisórios, convencidos de que são fases preparatórias para novos momentos da vida. Aquele curso que promete uma boa qualificação que garantirá um bom emprego… Aquele emprego que nem é o que você gostaria, mas é o que paga as contas… Aquele relacionamento que nunca deu flor, mas você rega achando que vale cultivar… Aquela rotina da qual você nunca se livra embora viva planejando rompê-la em um dia que nunca chega. E tantos outros exemplos que cada um de nós é capaz de aplicar à própria vida.

Por muito tempo estive como meu ipê preso ao vaso. Lutando para ampliar os horizontes, mas sempre esbarrando em limitações que impediam meu desenvolvimento.

Inspirada pelo ipê que renasceu após deixar o vaso para trás percebi que romper umas tantas barreiras me faria um enorme bem.  E assim tem sido. Logicamente, não posso comparar meus avanços ao florescimento de um ipê, porque sequer é justo, embora consiga reconhecer verdadeiros buquês ofertados pela vida pós-vasinho. Ver Recorte! ganhar vida, conhecer novos amigos, escrever esta coluna, viajar pelo país com um coletivo audiovisual… Experiências especiais que surgiram a partir do momento que rompi com medos que me imobilizavam e que me fazem pensar no quão grata sou à lição que a natureza forneceu em um momento tão crucial.

Como as árvores, precisamos de terreno fértil para fincar raízes fortes e crescer. Quem sabe nossas flores só estejam esperando a provisoriedade de certos ciclos findar para brotarem.


Recorte 1

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