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Dança entre o medo e a esperança: Tó Brandileone e Zé Luís Nascimento no Auditório Ibirapuera

São

*Por Meiri Farias

Cheguei no Parque Ibirapuera com o horário apertado de quem passa o dia correndo, meus passos culminaram no obvio para quem tem pressa demais e coordenação de menos: Uma belíssima queda na entrada do parque. Lembro-me de em algum momento da vida, ouvir alguém dissertar sobre o fenômeno que é cair: você, pessoa adulta, supostamente independente e senhora de seus movimentos, repentinamente se vê subjugado por um enroscar de pernas. Um paralelepípedo fora do lugar e pum! Está no chão. Nesse momento, há duas opções possíveis, o riso – fruto do inesperado, pela quebra desse fato rotineiro que é manter- se sobre os próprios pés, ou o absoluto oposto, as lágrimas que nascem de uma garganta embargada pela pequena humilhação, a dor física e a sensação de que a situação não é muito mais do que uma metáfora dessa fase dos vinte e poucos anos. Ser empurrado pelas consequências até tropeçar em problemas concretos e cair de cara com a realidade.

AION SÃO PAULO 17.06.2016 - AUDITÓRIO IBIRAPUERA OSCAR NIEMEYER - TÓ BRANDILEONE E ZÉ LUIS NASCIMENTO - Tó Brandileone (violão, guitarra e piano) e Zé Luis Nascimento (percussão) sobem ao palco do Auditório Ibirapuera para o show de lançamento do disco Eu

Foto: Sergio Castro

Esse parágrafo introdutório poderia ser uma metáfora poética sobre o processo de crescimento na vida adulta, mas infelizmente é um relato literal da minha chegada ao show de lançamento de “Eu Sou Outro”, de Tó Brandileone e Zé Luís Nascimento. Toda essa reflexão passou pela minha mente durante os segundos que levei entre cair e se erguer, tempo suficiente para sentir a dificuldade de se levantar na pele e na mente. Parece uma péssima forma de começar uma noite agradável com show no meu teatro favorito da cidade? Talvez, mas a sensibilidade despertada pelo episódio foi essencial para aguçar minha percepção e adquirir novas interpretações sobre o trabalho. O Auditório Ibirapuera recebeu Tó e Zé para o lançamento do trabalho que surgiu pelo encontro das canções do compositor paulistano com o percussionista baiano radicado em Paris. A parceria resultou no terceiro disco de Tó (após Tó Bradileone, 2007; Ontem Hoje Amanhã, 2013), que também integra o coletivo de compositores 5 a Seco que já tem dois álbuns gravados (Ao Vivo no Auditório Ibirapuera, 2011; Policromo, 2014). Zé Luis, natural de Salvador, está na França desde 1996, onde descobriu novos tipos de percussão oriental e ocidental. O artista traz no currículo participação na direção musical do Balé Folclórico da Bahia (onde atuou como dançarino e músico) e colaboração com artistas como Michel Legrand, Cesária Évora, George Moustaki e Jean-Luc Ponty.

AION SÃO PAULO 17.06.2016 - AUDITÓRIO IBIRAPUERA OSCAR NIEMEYER - TÓ BRANDILEONE E ZÉ LUIS NASCIMENTO - Tó Brandileone (violão, guitarra e piano) e Zé Luis Nascimento (percussão) sobem ao palco do Auditório Ibirapuera para o show de lançamento do disco Eu

Foto: Sergio Castro

Os artistas começaram o show no chão. Sim, isso mesmo, mas diferente do chão com a qual me confrontei minutos antes, o show de Tó e Zé carrega o ar de intimidade e reverência a um dos palcos mais especiais de São Paulo. A abertura com a divertida “Xi, de Pirituba a Santo André”, canção de Rafael Altério e Kléber Albuquerque, que também abre o disco, já começa esquentando a noite friorenta na cidade. O levantar dos artistas traz “Faça desse drama”, parceria de Tó com Leo Bianchini, Vinicius Calderoni e Caê Rolfsen, que já foi gravada no primeiro disco do 5 a Seco. Ouvir a canção que é praticamente um ode ao lema “bola pra frente”, parecia sintomático do quanto esse disco/show tinha a dialogar com meu momento pessoal.

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AION SÃO PAULO 17.06.2016 - AUDITÓRIO IBIRAPUERA OSCAR NIEMEYER - TÓ BRANDILEONE E ZÉ LUIS NASCIMENTO - Tó Brandileone (violão, guitarra e piano) e Zé Luis Nascimento (percussão) sobem ao palco do Auditório Ibirapuera para o show de lançamento do disco Eu

Foto: Sergio Castro

O show prosseguiu com as canções do disco, mais versões diferentes de faixas como “Relatividade” (de Ontem Hoje Amanhã), “Oriente” (cover de Gilberto Gil), “Conselho de Amigo” (canção inédita), “Eu amo Djavan” (Policromo) e uma versão emocionada em coral com o público de uma das canções mais populares de Tó, “Pra você dar o nome” (Ao Vivo no Auditório do Ibirapuera, Ontem Hoje Amanhã). Os acréscimos conversavam com a narrativa da apresentação, mas é impossível não destacar a coesão dos artistas ao interpretar as canções de “Eu Sou Outro”, com as incoerências e inconstâncias de se caminhar pela vida. Vou comentá-las, não necessariamente na ordem que estão no disco ou foram apresentadas no show.

Depois do ótimo “Ontem Hoje Amanhã”, Tó traz um repertório quase de “cronista”. Entre parcerias com artistas de sua geração, como os colegas do 5 a Seco (Pedro Alterio, Pedro Viáfora, Leo Bianchini e Vinicius Calderoni, e também artistas consagrados no meio, como Celso Viáfora e Rafael Alterio, Tó amarra muito bem suas canções, mas para isso caminha por alguns nós no meio do caminho.

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Encarte do disco “Eu Sou Outro”

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A canção “O que tinha de ser” ilustra bem a minha teoria. A composição diz “Não foi nada, sendo tudo, foi o que tinha de ser” e promove uma ruptura com os clichês com a qual estamos acostumados na história da canção. Tó não canta apenas amor e beleza, embora também o faça, mas esse disco traz muito sobre o desencontro e até a ausência de perspectivas. Essa faixa não desperta grandes esperanças, mas certamente leva o interlocutor a pensar que está tudo bem. Foi o que tinha de ser.

Como toda manifestação artística, a música está aberta a várias interpretações, muitas vezes diversas da intencionalidade do artista. De todo modo, a missão do Armazém não é desvendar a alma do compositor e sim explicar como a arte nos atravessa e se ressignifica. Dentro dessa perspectiva, “Pensando bem” dialoga bem com “O que tinha de ser”. A parceria com Pedro Alterio apresenta um olhar de saudade sobre uma relação acabada, mas também uma lição sobre como se conformar (e confortar) com o inevitável. Essa superação é um avanço e tanto na escala da maturidade. Após passarmos por aquele sentimento “O que tinha de ser”, aparece o “Pensando bem”, tudo vai ficar ok dentro do mar de expectativas em que a vida adulta nos atira.

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“Pensando Bem”, que no disco conta com a participação de Maria Gadu, recebeu o parceiro Pedro Alterio no show. O artista também se uniu a Tó e Zé para cantar a outra parceria do disco, “Quem sabe”:

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Mais uma vez a dor de crescer se faz presente. Esse ambiente de incertezas com as perguntas que ficam martelando na nossa consciência ”Para onde foram as crianças que fomos e se perderam?”. Você não vai encontrar a resposta na canção, mas ela pode te ajudar a continuar perguntando.

AION SÃO PAULO 17.06.2016 - AUDITÓRIO IBIRAPUERA OSCAR NIEMEYER - TÓ BRANDILEONE E ZÉ LUIS NASCIMENTO - Tó Brandileone (violão, guitarra e piano) e Zé Luis Nascimento (percussão) sobem ao palco do Auditório Ibirapuera para o show de lançamento do disco Eu

Foto: Sergio Castro

AION SÃO PAULO 17.06.2016 - AUDITÓRIO IBIRAPUERA OSCAR NIEMEYER - TÓ BRANDILEONE E ZÉ LUIS NASCIMENTO - Tó Brandileone (violão, guitarra e piano) e Zé Luis Nascimento (percussão) sobem ao palco do Auditório Ibirapuera para o show de lançamento do disco Eu

Foto: Sergio Castro

A percussão de Zé conta uma história a parte. Já contei por aqui, como me relaciono de forma intensa com canções com base da percussão. Esse tipo de música desperta um espaço afetivo onde narrativas se constroem sem a necessidade de compreensão racional. O suscitar de uma pulsação acelerada, um batuque que envolve e acalenta o coração. Todas essas características se apoiam na forma que Zé conversa com sua percussão. A variedade de efeitos conquistados com os (múltiplos) instrumentos proporciona uma sonoridade cheia de personalidade e instigante que se destaca de forma mais especial com canções como “Relatividade” e “Eu sou Outro”.

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A canção título é uma parceria com Vinicius Calderoni e traz toda essa transição de forma bem humorada. Se for preciso atravessar todas essas agruras do cotidiano, dentro de nossas transformações diárias, “o mais banal é cruzar a porta”. E seguir em frente.

Tó e Zé apresentam o show com toda a delicadeza que disco exige. Pequenos problemas técnicos não tiram o brilho das canções, mas se é preciso indicar um ponto “negativo”, destacaria a repetição de canções que foram cantadas no show durante o bis. Essa opinião se baseia mais no meu desejo pessoal de ver outras canções de “Ontem Hoje Amanhã” dialogando com o trabalho atual, mas não é exatamente um problemas. As escolhidas, “Desafio” e “Pensando Bem”, dão conta do recado e a primeira é, sem dúvida, uma das canções mais bonitas do disco. Composição de Danilo Moraes ganhou interpretação de Tó ao piano.

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Das canções que ainda quero destacar, vale lembrar-se da genialidade de “Ou não”, crítica e a definição mais exata que tenho de “pós-modernidade”, e “Ancestrais”, que novamente brinca com as questões relativas do tempo e das diversas fases da vida.

Saí da sala manquitolando um pouco em decorrência do pequeno acidente físico e também de todos os tropeços que estão surgindo no meio do caminho. Mas a constatação da inevitabilidade de todos esses obstáculos e a percepção de que eles também precisam fazer parte do caminho, são reconfortantes e ajudam a compreender um pouco do nosso tempo, pessoal, social, histórico e artístico. Se por um lado lidar com as expectativas do futuro é trabalho de equilibrista em corda bamba, é bonito perceber que “o agora, no fundo é só o que se tem”. E está tudo bem.

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AION SÃO PAULO 17.06.2016 - AUDITÓRIO IBIRAPUERA OSCAR NIEMEYER - TÓ BRANDILEONE E ZÉ LUIS NASCIMENTO - Tó Brandileone (violão, guitarra e piano) e Zé Luis Nascimento (percussão) sobem ao palco do Auditório Ibirapuera para o show de lançamento do disco Eu

Foto: Sergio Castro

Ouça o disco completo no Spotify:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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