Abre Aspas / hq

Ale Presser: O ‘Arroz’ como protagonista

Abre Aspas

*Por Meiri Farias

Quando li o primeiro capítulo de Arroz, HQ de Alexandra Presser, achei muito intrigante essa relação que existe entre o circulo de amigos da Melina, personagem principal da HQ e o “arroz” da história e um PF. Como se entre essas pessoas (por exemplo salada que é a saúde do “prato”, a batata que aparece como diversão e a carne como “protagonista”). Não me entendam mal, sem dúvida concordo com o protagonismo da carne, mas sem medo de ser julgada, vou fazer uma confissão. Sempre fui “team” arroz. Talvez por não comer feijão (ok, podem começar a julgar), sempre entendi muito bem a importância do arroz como elo de ligação entre todos os elementos.

Ale Presser apresenta uma história sobre amizade e você pode ler o primeiro capítulo aqui! Conheça um pouco mais sobre o trabalho da autora em um conversa sobre o mercado de quadrinhos e o trabalho com o desenho.

64479_1135282073157812_1279825766510136658_n

Armazém de Cultura: A primeira coisa que chama atenção na sua HQ é o título. Por que Arroz? conta um pouco pra gente!

Alexandra Presser: Então, a explicação do nome está no primeiro capítulo da HQ, que eu disponibilizei online no endereço http://arroz.alepresser.com.
Mas assim, de uma forma bem resumidinha, Arroz é uma analogia de como a personagem principal (Melina) se sente em relação aos seus amigos – se o círculo de amizades dela fosse um PF (Prato Feito). Enquanto os amigos dela são a batata-frita, a salada, o bife, a Melina acha que é o arroz, que é o que tem de mais sem graça no prato.

Fiz essa analogia super baseada em fatos reais! Um conhecido (há muitos anos atrás) falou que o apelido de um amigo dele era arroz por esse motivo. Foi estranho, pois todos naquele dia riram do cara, e eu fiquei só pensando como deve ser ruim ser a pessoa que não faz falta nenhuma. Muito da HQ gira em torno disso.

AC: Como começou a desenhar? e especificamente com os quadrinhos, como começou sua história?

Alexandra: Eu tenho um primo, pouca coisa mais velho que eu, que também começou a desenhar cedo. Éramos muito próximos, e meio que crescemos desenhando juntos, um puxando o outro para sempre desenhar mais. Dali para frente, tudo que fiz na minha vida sempre foi envolvido com artes visuais: design gráfico, publicidade, webdesign, quadrinhos.

A parte de curtir quadrinhos, mas especificamente, começou cedo com as revistinhas da Turma da Mônica, claro (um vizinho tinha as assinaturas de todas as revistas, era muito legal!). Daí passei por aquela fase viciadíssima em Cavaleiros do Zodíaco, como muitos de nós, nerds na faixa dos 30+. Na época ainda era difícil conseguir mangá ou alguns quadrinhos mais legais, mas a paixão só foi crescendo!

13043405_1157069354312417_4387740603458151652_n

Melina e Amanda de Arroz!

AC: Você também trabalhou com design e publicidade, certo? o que é mais difícil, o seu trabalho autoral ou quando você é pautada?

Alexandra: Sim. Como eu comecei a curtir e querer fazer quadrinhos lá pelos anos 90 ainda, não tinha mercado muito viável para quadrinistas nacionais. Assim, tinha gente que conseguia, conheci vários casos, mas se eu quisesse MESMO cair de cabeça na carreira, ia ter que fazer só isso por um tempo, com pouco retorno. Não era um luxo que eu pude encarar na época, então trabalhar com publicidade acabou virando uma opção para ter algum retorno com algo que eu curtisse fazer.

tumblr_inline_o4xe76y2y71qd1pr7_500

Daí sobre trabalho autoral ou pautado… varia muito. O trabalho autoral é difícil porque quando você é o seu “chefe”, ter disciplina, colocar prazos, e TERMINAR o trabalho acaba sendo um desafio. Eu consegui fazer a Revista Arroz porque me coloquei prazos concretos, e segui o meu cronograma como se fosse para um cliente. Se não tiver essa cobrança, a gente não termina nunca!

Por outro lado, trabalhar para um cliente pode ser bem bom quando você tem uma boa compreensão do briefing. E pode ser bem ruim quando o cliente não sabe o que quer e espera que você adivinhe. 😉

AC: Durante uma matéria que fizemos pela CCXP 2015, o quadrinista Felipe Nunes (Klaus, Dodô), comentou “Não acho que existe um mercado [de quadrinhos], existe uma produção”. Como você avalia esse cenário? quais são as principais dificuldades para quem quer viver de quadrinhos no Brasil?

Alexandra: Eu acredito que, até pouco tempo atrás, de fato, não tinha mercado. Mas o que temos agora talvez ainda não seja BEM um mercado, sabe? O público está comprando cada vez mais quadrinhos, mas essa percepção de que o que é feito aqui no Brasil pode ser tão bom quanto (e às vezes até melhor!) do que é feito lá fora ainda está em fase de amadurecimento.

1

Daí por outro lado, o próprio quadrinista nacional ainda está se jogando muito “verde” no mercado, e se frustrando quando não consegue sucesso imediato. Eu demorei muito para “me jogar”, e ainda estou longe de conseguir um retorno financeiro que compense todo o eu investimento, mas não tenho pressa.

Então se você considerar que existem MUITOS desses quadrinistas ainda “verdes” tentando entrar no mercado, talvez pareça que não há espaço. Na minha opinião, espaço há sim, o que não tem muito ainda, talvez, é paciência. Demora para conseguir se tornar conhecido, para vender, para ter um público. Posso estar bem errada, mas é o que eu acho.

AC: Durante o HQ Mix 2015, a quadrinista Carolina Ito divulgou um levantamento que apresenta disparidade entre o número de homens e mulheres indicados ao prêmio. Com o aumento da discussão sobre o tema, como você a avalia a situação das mulheres dentro do universo de quadrinhos atualmente?

13240116_1176938162325536_7772762612256523431_n

Alexandra: Essa disparidade existe sim, mas está aos pouquinhos diminuindo. E não é só nos quadrinhos… vou contar uma historinha: Há uns 8 anos eu trabalhei em uma agência de Publicidade onde fui contratada justamente por ser mulher. O meu chefe, na época, estava em busca de uma designer justamente porque já tinha percebido que uma equipe de criação só de homens não era saudável para a comunicação que ele queria fazer. Uma vez, numa visita de alunos de faculdade na agência, ele disse que eu era uma tal de “mosca branca de olhos azuis”, de tão rara. Mas infelizmente, pouca gente ainda tem essa percepção de que homens e mulheres devem trabalhar em proporções equilibradas, e ao mesmo tempo, nós mulheres ainda somos poucas trabalhando em áreas que normalmente são vistas como masculinas (por qualquer que seja o motivo).

É um processo de desconstrução geral: do mercado, das empresas, dos leitores, das editoras… e das mulheres! E está acontecendo, aos pouquinhos.:)

No universo dos quadrinhos talvez esteja sendo um processo mais demorado e sofrido por causa de uma resistência do público masculino que já está super acostumado com uma cultura pop mais machista. A culpa é do público tanto quanto é de quem produz cultura pop machista. Mas como comentei antes, está mudando… aos pouquinhos.

2

AC: Quais são suas principais referências no Quadrinho? e atualmente, que trabalhos acompanha e indicaria para quem gosta do seu?

Alexandra: Minha maior influência é, de longe, a Rumiko Takahashi (Ranma 1/2, InuYasha). Ranma 1/2 é o grande amor da minha vida quadrinística! Outro mangá que eu curto demais é Full Metal Alchemist. Daí fora esses dois, muita coisa me influencia em doses variadas. Meu traço é mangá, mas não tanto, sabe? (eu acho, pelo menos).

E eu tenho acompanhado muita coisa nacional ultimamente, sem nenhuma preferência específica. Faço regularmente um passeio pelo Catarse apoiando quadrinhos, então volta e meia está chegando coisa nova aqui em casa, quase de surpresa. Aconselho todo mundo a fazer isso!

Processo de ilustração:

 

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s