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1ResenhaPorDia: O Grifo de Abdera (Lourenço Mutarelli)

Especial de Resenhas - 2 anos AC


*Por Meiri Farias

Lourenço Mutarelli e um dos artistas mais versáteis de quem já tive notícia. Escritor, dramaturgo, ator e quadrinista, Mutarelli permeia as diversas áreas do conhecimento artístico sempre acompanhado de experimentação que já é uma de suas marcas registradas. No livro “O Grifo de Abdera”, seu último lançamento e minha leitura mais recente, o autor vai até as últimas consequências. Essa brincadeira de ser muito em uns ganha as páginas da história quando o “Lourenço Mutarelli” se torna um personagem inventado pelo personagem do livro.

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Confuso? Talvez um pouco, mas é isso que deixa a história mais intrigante. Vamos a sinopse para começar a destrinchar sua história de múltiplos “eus”.

“Mauro é roteirista dos quadrinhos de Paulo. Os dois publicam sob a alcunha de Lourenço Mutarelli, e são representados publicamente pelo bêbado Raimundo. Mas a morte de Paulo forçará Mauro a tentar uma carreira solo com O cheiro do ralo, seu primeiro e bem-sucedido livro. É quando ele recebe de um estranho uma moeda antiga, o Grifo de Abdera, e sua vida muda.
Oliver não conhece Paulo, Mauro, Raimundo ou Lourenço. Mas, quando Mauro recebe a moeda, uma conexão se forma entre eles.”

Tenho carinho especial por história que desafiam nossa compreensão lógica e nos fazem mergulhar dentro do universo dos personagens sem se preocupar com um “sentido” literal. Dos livros que li nos últimos meses provocaram essa sensação de forma muito intensa: “Cordilheira”, do Daniel Galera e “Uma, duas”, da Eliane Brum. Ambos os livros me angustiaram intensamente ao ponto de não ter certeza de imediato se gostei de fato deles. São livros que te arrastam por dentro, te incomodam intensamente e não proporcionam empatia, as vezes até mesmo um pouco de repulsa por determinada personagem ou situação. Ainda assim, são nessas reviradas de estômago que moram a grandeza do livro. Se incomodou, se transformou algo aqui dentro, é digno de nota. E isso vale para qualquer manifestação artística. Em o Grifo de Abdera a sensação é semelhante.

O inusitado do Lourenço personagem, criado pela cabeça de Mauro e Paulo parece refletir muito bem essa situação de artista múltiplo que o Mutarelli (o de carne e osso) vivencia. Na história, Mauro é roteirista, Paulo desenha e Raimundo é o rosto. Oliver mulato se junta a essa equação maluca quando Mauro tem contato com a moeda, o Grifo de Abdera citada no título do livro. Para quem não sabe, Grifo é uma criatura da mitologia grega formada pelo corpo de um leão e a cabeça de uma águia. Esse símbolo mitológico se torna parte da obsessão de Mauro que diz escrever o livro enquanto o vive. Assim, o leitor também é convidado a viver um pouco dessa insanidade. O escritor da história desenvolve capacidade de ver/saber tudo o que acontece com Oliver, professor de educação física e autor de HQs nas horas vagas. Essa estranha conexão faz com que Mauro e Oliver “se tornem um”, mas apenas Mauro sabe e tenta compreender essa conexão.Copy of Copy of “Faça disso a hora de recomeçarPara conviver com a dorPara a dor também saber passarSe já passou, dê sorriso à caraE vá embora”

O desenrolar da história e a aproximação dos personagens expõe a linha tênue entre a literatura e a realidade. Ainda conhecemos muito da personalidade de Mauro (ou será Lourenço?) Seus hábitos e principalmente a relação com a cidade de São Paulo e o ofício de escritor (que só recebe 10% do preço da capa de cada livro publicado, como repete insistentemente), mesmo que o escritor insista que não é uma história sobre ele, e sim sobre seu duplo (alguém assiste Sense8? É possível fazer associações interessantes). O ritmo da narrativa de Mutarelli é intenso e vai ficando cada vez mais angustiante ao se aproximar do fim. Mas essa angustia é pontuada com a sensação de que é impossível parar de ler.

A multiplicidade também aparece no gênero: o livro não é formado apenas de prosa, há um encartado em quadrinhos – de autoria de Oliver Mulato – bem no centro da história, que revela mais um lado de Mutarelli como artista. Seus desenhos criam uma nova narrativa que dialoga de forma insana com a história “original” do livro.

“O Grifo de Abdera” é um livro para se devorar (ou ser devorado, como é mais provável) rápido e completamente. É pouco provável que sua relação com o autor e a obra, seja o Mutarelli, ou qualquer outro artista não saia transformada. Assim como a consciência sobre a relação com o trabalho e tudo que produz na rotina. O quanto de nós podemos encontrar no que fazemos e nas pessoas que nos cercam?


 

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