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1ResenhaPorDia: A Dança do Mundo (Leo Middea)

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*Por Beatriz Farias

Para adentrar o assunto a ser tratado, iniciemos por um prelúdio provindo do disco anterior ao motivo de estarmos aqui: “apaga esses teus planos e da um oi pra vida que te espera da janela desse teu apê” (O mochileiro), se no primeiro disco o carioca nomeava um tal de Dois e alertava a grandiosidade a espreita no “cuidado que a vida vem aí” (O mochileiro também) agora constrói as ideias num espaço maior, somos todos. Toda as esperas e impasses do cd antecessor soam como o momento de espera ao embarque, de toda a importância, beleza, força e juventude mas que agora já alcançam a dimensão de chegada.

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Normalmente comparo e comento um disco a partir da percepção de estar se iniciando em uma viagem. Acredito fervorosamente na semelhança com as imprevisibilidades e com o que esperamos gostar e o que ganha nosso afeto ao final do caminho percorrido. Porém o disco a ser comentado hoje se trata de embarcar na viagem de Leo, e por seu trajeto traçado encontrar os gostos, visualizar cenários e sentir cheiro e sabor de tudo que passa. A sensação física mesmo de estar em deslocamentos, um costurado imprevisível e eufórico de se dar pro mundo, ser corpo a serviço das extensões e a partir daí criar.

Em uma descrição sintetizada de quem é o artista a qual vem o nome na cleo-middea-entrevista-danca-do-mundo-musica-paveapa do disco vale utilizar o clichê da renovação repleta de influências. A gente identifica Gil, pode até perceber um tantão de Caetano nas entrelinhas, mas tem um negócio para se dar novo nome. Uma coisa no meio disso com um vigor e liberdade que a nossa música tanto precisava. Esse estranhamento com voz de dar impulso aos sentidos, senhoras e senhores, é Leo Middea.

Reverenciando diversas culturas, o disco é repleto de referências que, acredito, ganham graça na impossibilidade de nomear inteiramente. Cada audição é composta de questões que interagem com a identificação dos instrumentos e ritmos utilizados, tudo acontecendo em cores muito vivas. Há um gosto intrigante em especial nos sons que causam estranhamento ao ouvido e ao invés de serem empurrados goela a baixo pelas ideias, adentram os espaços como percepções curiosas de algo que é preciso conhecer.

Copy of Copy of “Faça disso a hora de recomeçarPara conviver com a dorPara a dor também saber passarSe já passou, dê sorriso%2

Permeando todos os temas que a nós seres humanos inquieta, percebo nas letras uma invocação que passa da experiência pessoal para a necessidade coletiva de locomoção – o “saia da sua caverna”, em uma experiência nietzschiana. Tem elegância de lidar com crises existências com humor (“e eu pergunto pro universo quem sou eu e ele me responde ‘ai meu Deus e eu?'”), a crítica ao comodismo de quem sabe demais tendendo a sempre habitar simplesmente o plano teórico (“há tantos oblíquos em bocas tão eruditas, falam sempre em voar mas não saem do sofá”) e ainda o falar dos encontros mesclando intensidade derretível (“o que te faz dançar no escuro?”) à leveza apta ao mergulho (“são as águas de um rio, é meu riso emanando luz pro teu”). *

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Foto: Zéca Vieira

Em entrevista feita ao site Música Pavê, Leo comenta a importância das pessoas que se envolveram no projeto para que o disco tivesse a forma que o comporta. Desde a produção de Peter Mesquita até participações de artistas como Bruna Moraes e Laura Lavieri, nota-se a grandeza de convergir forças artísticas para que a arte cumpra sua função de ligar. É inevitável ao falar do que transborda no trabalho não comentar a capa, que composta pelo argentino Pablo Saborido, cumpre a missão de condensar todas as levezas e excentricidades dessa dança.

Se a impressão atual do mundo é o seu completo descompasso, façamos do movimento constante ciranda que encontra as vontades e deságua poesia em algum momento. “Que pode, pergunto, o ser amoroso, sozinho, em rotação universal, senão rodar também, e amar?” pergunta Drummond e a resposta é o próprio disquinho do menino Middea: dancemos com base no ritmo que tocar, e se não houver que o façamos. Mas acima de tudo, dancemos.

Ouça o álbum completo:

 

*Músicas citadas no quinto parágrafo na ordem da citação: “Meu público”, “Canto de orquestra”, “Valsa” e “Ciranda”.

 

 

 

 

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