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Recorte: Desafio em cima de desafio

Recorte

*Por Talita Guimarães

São vários estágios. Primeiro indignacão, depois vontade de solucionar logo o impasse, alívio, espera, cansaço, sensação de solidão e desproteção, vontade de chorar.
Levo minha bagagem – duas malas e uma mochila – pro banheiro e me tranco com tudo no último box. Preciso poder cochilar sem correr o risco de acordar sem meus pertences. Sinto-me esperta em ter essa ideia ao mesmo tempo em que desejo que ninguém flagre meu gesto desesperado em busca de proteção.

Amo esta cidade, mas me desaponta não descobrí-la companheira insone. Sinto-me enganada pelo jingle radiofônico que anunciava uma cidade que não dorme. Ledo engano. São Paulo e região adormecem sim, humanas como todos nós.

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Arte: Talita Guimarães

Uma hora depois, reuno coragem para sair do banheiro e caminhar pelo largo corredor do Terminal 2 do Aeroporto Internacional de Guarulhos. São 4h40 da manhã. Preciso despertar. Espantar a caimbra. Sair da toca.
Perdi meu voo das 23h10 por uma conjunção de fatores. Trânsito lentíssimo no acesso ao terminal de embarque e procedimento questionável da companhia aérea, que barrou o embarque de passageiros meia hora antes de voos pra São Luís, Belém e Salvador. Avisada de que estou no infeliz grupo de passageiros impedidos de embarcar, dirijo-me incrédula ao balcão de remarcação onde tarifas exorbitantes são cobradas para conseguirmos novas passagens. Tento não me exaltar com a atendente a fim de receber informações decentes e tirar todas as dúvidas sobre as opções que me restaram.
Acabo desistindo de remarcar e compro outra passagem com outra companhia. Dói no bolso. Tento sacar da minha reserva, mas o autoatendimento só funciona das 6h às 22h. Recolho-me pensativa sobre a situação e me dou conta de que preciso explorar mais a fundo as opções que realmente tenho. Pelo menos é o que me obriga a finalmente aprender a usar a função de débito do meu cartão. Carta na manga que me garante a volta pra casa às 10h40 do sábado que ainda vai raiar.
Costumo ser lerda em relação a serviços que envolvem certa habilidade para lidar com senhas e autoatendimento. Somente muito recentemente aprendi a pagar contas no caixa eletrônico. É que toda a vida corro o risco de me sabotar errando procedimentos. Prefiro não contar comigo para cometer erros contra mim. E mesmo assim quase sempre os cometo.

Nina
Empurro meu carrinho com as malas pelo corredor e sento em um banco próximo ao guichê de informações. Coloco o celular pra carregar e troco mensagens com minha mãe, que lá em São Luís não consegue dormir, ansiosa com minha chegada, preocupada com minha situação. Quando o coração aperta e a solidão espreita sinto vontade de chorar e corro pro meu bloco de notas do celular onde derramo este texto.
Penso comigo que a experiência é muito humana de sentir na pele tanta coisa sequenciada. Acho que nunca quis tanto chegar em casa. Nunca estive tão solta no mundo. Tão longe do abraço das pessoas que amo. Estou fora há semanas, após uma viagem de quase 6000 km a trabalho, indo de uma ponta a outra do continente. De São Luís a Montevideo com um coletivo audiovisual.
Louco perceber que o fim da minha jornada é solitária. Por escolha minha sim, de me despedir do grupo na nossa parada em SP. Precisava desse tempo só. Só não contava que o desejo por solitude atrairia uma noite em claro num dos maiores aeroportos do país.
A vida é engraçada, te enlaça de desejos que sempre podem se converter na corda que vai te sufocar.
Pergunto-me se terá sido castigo. Mas concluo que não deve ter a ver com isso. É mais o caso de estar no mundo flertando com os desafios que estão por aí apenas espreitando a hora de te tirar da zona de conforto.
Pedi por isso e cá estou. Nota por nota da pele – que pinica por baixo do casaco sujo usado à exaustão – entregue à experiência de viver-sentir. Não seria jornada se não me tocasse e provocasse e desconfortasse assim. Do início ao quase fim.


Recorte 1

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