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#Armazém2anos: O Zé não conhece muito bem o caminho, mas ele se vira assim mesmo, mesmo assim sozinho

Trinta minutos e uma proposta: escrever sobre a nossa relação com o blog e a cidade. A sugestão de usar um trecho da música “O Zé e a Cidade”, do Angelo Mundy como partida para a reflexão foi da Beatriz, mas nos comprometemos a cumprir a meta e textos separados. O resultado você vê agora em duas breves reflexões sobre fazer aniversário, caminhar pela cidade e por dentro de si.


Copy of As 5 músicas mais bonitas de 2015

Por Beatriz Farias:

“O Zé não conhece muito bem o caminho, mas ele se vira assim mesmo, mesmo assim sozinho”

Descobri que gostava da minha cidade quando me afastei por um período pequeno e não entendia nada a minha volta. A viagem fez com que eu entendesse que havia peculiaridades do lugar onde eu moro que em outros passam despercebidas ou são invisíveis. Invisível. Palavra engraçada essa que de tantas maneiras sintetizam também a metrópole. Ninguém se repara, mas cuidado! o grafite na rua ficou evidente e por alguns segundos alguém de dentro de seu automóvel parou para observar. E o ser na bicicleta notou que o alguém do automóvel observava. E isso é São Paulo absurdamente esdrúxula de contradições, mas olhe bem, isso não é uma ode a selva de pedras para lhe fazer admirar. O caso de começar citando esses causos é que a colcha de retalhos pela qual esse blogue vem sendo bordado não se faz muito diferente das nuances de observar. Um dia muito pequena me perdi na escada rolante do metrô e depois de muitos anos ouvi Meriangela falando da necessidade de ocupar a cidade durante uma entrevista com algum dos artistas a qual fizemos entrevista. O que fica nesse miolo é sensibilidade e transtornos de querer olhar ainda mais para as pessoas que recortam esses alguéns que também estão olhando outros seres ao nosso redor. Gente que faz do concreto arte e sensibiliza por fazer brotar da poluição história, das buzinas melodia tornando visível a beleza que tem ao redor que na maioria das vezes se faz presente no caos.

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Quando retornei daquela viagem em que fora do meu habitat natural me percebi mais cidade sendo sem estar decidi que ocupar necessitava ser mais que ir ao museu uma vez por ano para dizer que faço parte de um clube seleto de pessoas que “sabem o que é arte”. era – e é cuidadosamente todos os dias – necessário entender os espaços de dentro que dialogam com as inquietações de fora. A cidade que sou se alimenta da calmaria de ter sempre inquietações a percorrer e da necessidade de falar.

Após o tempo inicial de percepções e desilusões a respeito do lugar em que habito foi necessário dar algo ao invés de continuar só querendo. O que acontece neste tempo aqui – que é tão jovem mas cheio de histórias e sensações de incerteza e pequenos potes de ouro no decorrer do arco íris – é uma fotografia daquela paisagem inicial que lhe falei a princípio (a pessoa no automóvel, o ser na bike), uma vontade com olhos exageradamente apaixonados de fazer com que alguém observe também que se espantar com a cidade é mais que simplesmente enaltecê-la, mas é tornar-se instrumento disso e tirar a capa de invisibilidade do cotidiano. O dia-a-dia que está coberto de dúvida e sensações de quase lá, a gente quase sabe como prosseguir. Porque o caminho mesmo, a gente ainda não sabe qual é, e talvez a graça seja mesmo essa, ser assim meio Zé.

 


Por Meiri Farias:

Há um ano fiz um mousse de uva e maracujá. A referência obvia das cores era uma tentativa de homenagear o primeiro aniversário do Armazém de Cultura, miramos no bolo especial e acertamos em um pequeno mousse carregando afeto como ingrediente principal. Lembro de obervar a Geise Rocha (amiga, irmã e companheira das maiores enrascadas) desenhando um “AC” com açúcar na maior delicadeza possível. Lembro também que publicamos uma entrevista por dia durante toda a semana que antecedeu o aniversário e, no dia literal, o eleito foi Angelo Mundy, que nos proporcionou uma conversa incrível e reflexões valiosas.

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Por que estou dizendo tudo isso, afinal? esse texto está sendo redigido com um dia de antecedência, 10 de julho de 2016, véspera do aniversário de dois anos e, convenientemente, domingo. Acordamos cedo para ir em busca dos ingredientes: dessa vez o bolo tinha que sair. Aviso de antemão que o comércio de corante alimentício está cada vez mais escasso aqui na região e até achar o roxo e amarelo desejado, foi-se um bom tempo uma quota considerável da minha paciência.

Pulando os trechos onde enrolamos o domingo preguiçosamente para o preparo do bolo, ao derramar o conteúdo do frasco amarelo descobri que a tonalidade “gema” não é exatamente o que chamamos de “amarelo Armazém” e nem mesmo o roxo violeta cumpriu bem o seu papel. Frustração acompanhada de tristeza irracional. O Armazém de Cultura não é laranja, não saiu como planejei. Entre engolir a raiva e colocar a massa no forno, passaram apenas alguns segundos, mas foi tempo o suficiente para inventar um conformismo “se não tem remédio, remediado está”.

Não sei exatamente porque decidi começar o texto com esse episódio, no lugar de exaltar as vitórias significativas que alcançamos nesses dois anos (não foram poucas), mas talvez seja porque ilustre muito bem como é se atirar em um projeto sem garantias. O Armazém é um sonho maluco, cheio de surpresas lindas no caminho, mas também é uma corrida de obstáculos constante. Mais do que o esforço em tornar esse universo crível para os leitores, muitas vezes precisamos nos fechar e voltar a acreditar no que estamos fazendo. No porquê de estarmos fazendo. E não é fácil.

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É um pouco parecido com andar por São Paulo: Você está sempre atrasada, o ônibus não parou no ponto, há um sinal fechado no caminho. E, de repente, um minuto de distração e alguém está tocando um jazz antigo na entrada do Centro Cultural São Paulo ou um trio de velhinhos toca um xote na Paulista. É um fragmento de luz e beleza, instantâneo, breve, mas tão grandioso que faz a correria valer a pena. Até o farol abrir e acelerarmos o passo novamente.

Quando a Bia sugeriu que pensássemos no trecho da música do Angelo para nortear esse texto, não relacionei imediatamente com o fato de ter escrito sobre ele há exatamente um ano, literalmente na noite anterior ao dia 11. Mas aqui estamos novamente, refletindo sobre caminhar e cair, “Levanta, respira e bola pra frente”. Repeti esse trecho como um mantra no último ano, no Armazém, no dia a dia coorporativo, nos estudos, na família, com os amigos, na cidade. E ver como todos esses aspectos se unificam e se retroalimentam despejando a nossa produtividade aqui. Dentro da ânsia de enxergar e reportar o mundo em cores vivas, fazer da arte nossa guia e da opinião, a ferramenta, nos propomos a degustar com ternura a cidade que nos cerca. Mas nós que somos engolidas, devoradas em um rito antropofágico diário. E vivemos com produto maluco dessa cidade sem pit stop enquanto queremos fotografar o que é belo e muitas vezes invisível, o Armazém é produto dessas inquietações. Armazém, São Paulo, Meiri pessoa física, se misturam de forma tão homogênea e inconstante como o amarelo gema que caminha para o laranja e dá uma nova perspectiva. Agora é uma coisa só, também com o roxo e já posso lidar com isso. Se é um relato, uma crônica ou desabafo, não sei. Mas o bolo está na geladeira e eu escolho aceitar o amarelo que a vida me destinar.


 

#Armazém2anos: LIVRO Recorte! (Talita Guimarães) + DISCO O Pão que o Diabo Ama Sou (Edu Sereno)SORTEIO.jpg

Para comemorar o nosso aniversário, resolvemos presentear nossos leitores com um kit muito especial e que tem tudo a ver com o que falamos por aqui: o livro “Recorte!”, da nossa colunista Talita Guimarães e o disco “O Pão que o Diabo Ama Sou”, do Edu Sereno.

Para participar é necessário:

– Curtir a página do Armazém no Facebook;

– Clicar em “quero participar” neste link 

Prontinho! Você já está participando! O resultado sairá na próxima quinta (14) e o enviaremos o kit ao ganhador no prazo de até 5 dias úteis

 

 

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