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Banda Nã: A Modernidade não cumpriu o seu papel

Abre Aspas

*Por Meiri Farias

Farpa é aquilo que incomoda. Presa na unha, machuca a pele, pode rasgar, já na banda , surge como título do primeiro disco. Idealizada pelo baterista Thiago Babalu (Guizado, HAB, Jair Naves, Reffer) junto do compositor e guitarrista Michel de Moura (Projeto da Mata)e vários membros da cena musical independente, NÃ chega para destrinchar a palavra incomodar: sair do cômodo, do comum. Cutucar.

Com uma sonoridade definida pela banda como “afropunk benjaminiana”, NÃ vai do samba ao punk, passando por ritmos afro-brasileiros em uma proposta politizada e contestadora. Confira a entrevista que fizemos com a vocalista Fernanda Broggi!

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Armazém de Cultura: Por que “Farpa”? como surgiu esse nome para o disco? Contem um pouco sobre como foi o produção do disco: as canções são autorais? como foi a escolha do repertório?

Fernanda Broggi: A ideia de “Farpa” para nome do disco surgiu quando já estávamos finalizando as gravações. Se não me engano, foi quando começamos a gravar as vozes do disco, etapa final do processo todo. Os neurônios trabalharam bastante até chegarmos aí, várias ideias e reflexões, e foi aí que Michel trouxe essa ideia. Mais direta e reta, diferente do que tínhamos discutido até então, que caminhava para algo mais abstrato.  Farpa quando entra no dedo fica que incomoda o tempo todo, é uma parada que rasga e que pode até machucar. Farpa também é “crítica mordaz, sarcasmo”, segundo o dicionário criativo. Bom, acho que tá explicado o porque de Farpa, né? Acho que seus sinificados e efeitos expressam muito daquilo que pretendemos com o disco.  As músicas são todas autorais e quase todas composições do Michel de Moura. Algumas letras são de outras pessoas, como por exemplo a de “Nada ficou” que é parceria dele como o Thiago Pereira, baxista da NÃ. “Santo Guerreiro” é um poema do Paulo César Pinheiro, musicado pelo Michel. Já os arranjos das músicas, são todos coletivos, a banda toda criou junta.

AC: Como foi o encontro dos integrantes da banda? como começaram a tocar juntos?

Fernanda: Thiago, Michel e Bjanka Vijunas já tocavam juntos no Projeto da Mata. O primeiro disco do projeto da Mata foi gravado e mixado por Thiago Babalu, nosso batera, que também toca em outras bandas (Hab, Guizado, Gigante Animal e Jair Naves). Babalu curtia o som do da Mata, topou entrar pra NÃ e foi o responsável pelas gravações e mixagens do disco. Os primeiros encontros foram no estúdio dele, na Vila Mariana, e foi lá que ele deu a ideia de chamar um parceiro seu, o Renato Ribeiro, que também toca com Jair e Gigante Animal. Eu (Fernanda Broggi) e o Rafael Noleto, fomos convidados pelo Michel pra entrar no barco. Nos conhecíamos os três, ele, Thiago e Bjanka, do curso de Ciências Sociais da USP.  Como disse, os primeiros ensaios foram no estúdio da Vila Mariana, onde fomos gravando as ideias. Depois passamos a ensaiar no Estúdio da Mata, no Jaçanã, onde gravamos o disco. Michel conta que, a princípio, até pensou ter seu nome como título do projeto mas que, conforme os ensaios foram rolando e a galera se envolvendo cada vez mais veio a vontade de que formássemos de fato uma banda. O processo de criação foi bem fluido, o entrosamento veio com bastante facilidade e assim fomos encontrando os caminhos das músicas.

Ouça “A modernidade não cumpriu o seu papel”:

AC: Vocês se definem como uma banda “afropunk benjaminiana” com referências de samba, jazz, música experimental. Poderiam comentar um pouco sobre esse conceito e como essas referências se costuram para vocês?

Copy of Era como se a história já existisse e só transcrevesse pro papel. Quis que as sensações fossem além da descrição psicológica do autor, mas que quem estivesse lendo pudesse imaginar os sabores, as vozes, o

Fernanda: Bom, acho que se autoclassificar é sempre uma tarefa difícil, né? Em nenhum momento decidimos que seríamos uma banda de um estilo específico e em nenhum momento paramos para refletir sobre qual seria o tipo de som que estávamos fazendo. Como falei, durante os ensaios para a gravação do disco, as ideias foram surgindo e sendo incorporadas ou descartadas de uma forma quase que natural. Afropunk benjaminiano foi uma tentativa de unir algumas categorias que, juntas, pudessem transmitir melhor o que seria nosso som. Afinal, o que fazemos não é samba, jazz, punk, música experimental, nem africana ou afro-brasileira mas sim um pouco disso tudo. Acho que dentro desses gêneros cada um de nós temos nossas referências, que podem, facilmente, ser identificadas quando se ouve o disco. Sobre o “benjaminiano” ele vem de Walter Benjamin, um filósofo alemão, critico da modernidade, que muito inspirou as letras escritas por Michel. A introdução de Ira, narrada por Bjanka, é um excerto de uma de suas teses do texto “O conceito de história”. De qualquer forma, posso te dizer que ainda há controvérsias sobre essa forma de nos definirmos. (risos)

AC: Vocês também se apresentaram na Ocupação Funarte, movimento que reivindicou o retorno do Ministério da Cultura, além de se opor ao governo Temer. Para vocês, qual é o papel do artista (principalmente na música, onde acontece uma comunicação direta com interlocutor) na construção de uma mentalidade política? 

Fernanda: Acho que a arte tem um papel importante na construção de uma mentalidade política sim. Mas a maneira do artista abordar a política, tanto por meio da música como de outras formas artísticas, é diferente daquela dos espaços “consagrados”. O artista pode criar a sua forma de se expressar, a gente não está lá pra fazer discurso bonito, ser polido, ou usar um vocabulário refinado. Tampouco em busca de votos, ou de fazer as pessoas acreditarem em suas ideias ou mesmo de defender um projeto para a sociedade, para a política, economia etc. O que o artista pode fazer é expor sua reflexão, é se posicionar e, mais importante, se comunicar através da sua arte, que é seu principal meio de comunicação. Na canção, ainda temos outra arma a nosso favor, que é a poesia. E ela cantada e tocada tem muita força. Enfim, acho que é importante usarmos essa força para trazer à tona questões políticas, sim. Muitas vezes vemos os músicos preoucuparem-se muito mais com a forma ou com a técnica e pouco com o conteúdo. Claro que a forma também comunica, mas é preciso refletir sobre aquilo que se tem a dizer e, principalmente, sobre o que é necessário ser dito.
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AC: Com que artistas contemporâneos vocês se identificam e indicariam para quem gostou do trabalho de vocês?

Fernanda: Acredito que todos nós, em menor ou maior grau, nos identificamos com o Metá Metá e indicaríamos o som delxs, sem hesitar – eu, pelo menos, indicaria. Ava Rocha, também, artista foda, e o Negro Léo também. Para falar de artistas contemporâneos, mas com uma estrada mais longa na música: Tom Zé e Itamar Assumpção, que apesar de não estar entre nós, talvez seja o mais contemporâneo dos artistas.

AC: Para terminar, a modernidade não cumpriu seu papel?

Fernanda: Não, cumpriu não. (Risos)

Ouça o disco “Farpa”:

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