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Recorte: 08 de julho de 2016

Recorte


*Por Talita Guimarães

– Como é o seu nome? – a criança de olhos fechados me pergunta com seu sorriso banguelinha.
– Talita.
– O que ela disse? – ele pergunta para a mãe.
– Talita. – a mulher informa.
– Tchau, Talita!
– Tchau!

E assim ganho meu dia.

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Arte: Talita Guimarães

Instantes antes eu e a criança – um menino cego – nos demos a mão em um gesto rápido e instintivo. Quando ele e a mãe – uma mulher de fala mansa e gestos afáveis, que viera o trajeto todo do ônibus ao meu lado sussurrando para o filho no colo descrições gentis do que acontecia no caminho, com direito a uma orientação dulcíssima sobre ceder lugar para pessoas idosas – levantam-se para descer me posiciono com as pernas para o corredor a fim de dar espaço para que passem. Ao buscar apoio no ar a mão da criança encontra a minha. Em silêncio, aproveito o contato para transmitir via mãos dadas uma mensagem de paz, desejando que a vida dessa criança seja especial e que lhe sejam fornecidas experiências bonitas.
Como que em resposta a criança se interessa por quem sou para me chamar pelo nome. Emociona-me profundamente ser tocada por olhos de dentro tão abertos, alma ouvinte atenta.
Ao chegar no trabalho descubro que o prédio está sem energia. Mesmo assim avanço pelo corredor rumo a minha sala, que tem uma janela que intenciono abrir. É então que chego a um trecho do prédio onde a luz solar não entra mais e me deparo com um corredor encerrado em breu. Meu coração imediatamente se aquece, como que em profunda conexão com o ser que me tocara há pouco. Sinto-me em seus olhos ao mesmo tempo que sinto-o em meus olhos. E passo a passo sigo em frente, ciente do caminho até a porta, que por motivos previsíveis está trancada. Impressiono-me com a coincidência que me coloca numa experiência de sentir tão profunda, ainda que sutil. Uma ligação incrível entre acontecimentos aparentemente isolados.

NinaUma hora antes, vivera a terrível experiência de presenciar um acidente de trânsito envolvendo dois motoqueiros. Indignara-me com o condutor da moto que após bater e derrubar um igual seguira reto sem prestar socorro. Entristece-me ver o quanto ainda atropelamo-nos uns aos outros sem levar em conta que somos iguais, estamos nessa juntos e precisamos muito de mais gestos que ao menos sejam capazes de redimir nossos – quando inevitáveis – erros. Mais adiante, pego um ônibus biarticulado com minha irmã e viajamos pela primeira vez no espaço de conexão entre os dois vagões do veículo. A sensação de estar dentro de uma sanfona gigante me parece muito engraçada provocando um acesso de riso que me leva às lágrimas. Lembro-me de estar em situação semelhante com a Bia no metrô em São Paulo, quando a amiga me conta da sensação de infinito que dá olhar todos os vagões conectados a perder de vista.
Em um começo de manhã em que situações intensas se sucedem em um curto espaço de tempo penso em tudo o que faz pulsar tão louca vida urbana. E me ocorre que tudo, no fim das contas, é sobre a mesma coisa. Abrir os olhos de dentro para efetivamente nos enxergarmos infinitamente.


Recorte 1

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