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1ResenhaPorDia: Capitolina

Copy of Especial de Resenhas - 2 anos ACq


 *Por Beatriz Farias

Conheci “Dom Casmurro” do Machado de Assis faz um tempo relativamente grande, em uma conversa de ônibus com Meiri Farias em que ela me contava a história do romance e explicava porque tanta polêmica a respeito da personagem Capitu. Talvez inconscientemente influenciada por sua opinião, sempre me soou claro que não, Capitu não tinha traído Bentinho. Já o mesmo tinha tendências óbvias ao ser lunático/obsessivo e por isso seus relatos vinham acompanhados de uma carga tendenciosa de sua paranoia. Foi só anos mais tarde que descobri não ser a toa aquela representação, já que mostrar a mulher como mau caráter e fruto de perdição é herança de toda uma cultura.

De tanto defender Capitu e quão significativo é a opinião formada a seu respeito, despertei interesse por tudo que indicava seu nome (pausa para uma indicação de música: Capitu por Ná Ozzetti. Obrigada), chegando assim na revista Capitolina, “um símbolo de feminilidade para homenagear a audácia de viver sem preconceitos e imposições”, como declaram.

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revista digital que em 2015 virou livro pelo selo Sextante da Companhia das Letras, é um trabalho colaborativo que tem como objetivo produzir conteúdo para garotas, do ponto de vista de moças com idades diferentes e opiniões diversas. Desde muito nova sempre quis algo como o tipo de interação que a edição impressa dessa publicação propõe. O material é de extrema relevância para um aprendizado de mulheres mais conscientes de seus direitos, sem subestimar-nos por sermos jovens. Desde o contato direto entre as autoras dos escritos com a leitora até a interatividade que se aproxima de um diário, o livro cria um ambiente seguro para meninas pensarem e se formarem enquanto seres humanos.

Com qualidade estética atraente, e interessante escolha de textos, há um equilíbrio inteligente entre a leveza em fazer os assuntos circularem, com abordagens mais sérias quando se faz necessário. A escolha demonstra que é sim possível falar de todos os tipos de assunto, o que merece atenção é a maneira como esses temas são tratados. Apontando, por exemplo, que não tem problema falar de moda – tema que ainda sofre certo preconceito por ser tratado de forma banal e ainda considerado futilidade em muitos meios -, contanto que não se assuma um padrão “correto” e excludente que devemos adotar como meta.

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Dentre as vários aprendizados no decorrer das páginas a missão de cultivar e transmitir sororidade é cumprida com sucesso, já que é impossível enquanto se lê e principalmente depois não passar a observar de outra forma as mulheres que nos cercam. Com o olhar coberto de empatia não existe mais espaço para possíveis rivalidades que desde crianças colocaram na cabeça ser importante manter para chegar em algum lugar. Aprende-se que apesar de necessitarmos de autonomia para evitar relacionamentos abusivos ao longo da vida, o caminho fica mais bonito quando podemos dar as mãos a outras moças que compreendem as dores e delícias de cada dia e se comprometem a enfrentar unidas.

Quebrando preconceitos e idealizações, o conceito de empoderamento vem apresentado muito mais do que por uma breve definição de seu significado. É por meio dos vários processos que precisam ser enfrentados ao assumir lutar por quem se é que se compreende a importância do termo e libertação que seu exercício sugere (o texto que fala sobre conhecer as raízes – “O sol que iluminou nossas raízes também nos ilumina”, pg. 93 – tem uma grandiosidade extraordinária neste quesito). Porque nada desestabiliza mais o patriarcado do que ver garotas entendendo cedo o poder que possuem para alterar essa realidade (o subtítulo na capa já dá spoiler de seu objetivo), e é esse o objetivo. Bem como diria a música que indiquei logo no início do texto: “esse seu site petulante www ponto poderosa ponto com”.

*a autora do texto declara que poderia passar o resto do dia fazendo ligações bizarras entre a canção e o livro comentado, como o trecho: “Você é virtualmente amada amante, você real é ainda mais tocante. Não há quem não se encante…”. Percebeu?


 

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