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1ResenhaPorDia: Dois Tempos de Um Lugar (Dandara e Paulo Monarco)

Copy of Especial de Resenhas - 2 anos AC


*Por Beatriz Farias

Existe uma agonia na espera do disco hoje comentado que muito se assemelha ao período antes de compreender o significado de um poema para si. Essa urgência em observar sua construção enquanto aprecia o tempo de gestação da poética é o que reúne essas duas histórias e suas implicações pós e antecedentes. Quando porém o vulcão já anuncia erupção é hora de observar a formação do trabalho e tudo o que causou. Reunir as coragens e explorar os lugares alcançados nos tempos de transformações a cada um acometido. “Pega a vida e venha”

Capa

Capa do disco Dois Tempos de Um lugar

Viabilizado por financiamento coletivo e gravado no estúdio-fazenda Gargolândia, algumas das canções que compunham o espetáculo Dois Tempos de Um Lugar estrearam em disco homônimo nesse dois mil e dezesseis. As músicas conhecidas para os frequentadores dos shows do duo ganharam tratamento cuidadoso, que entende exatamente o que cada música necessita tornando possível trazer a teatralidade do palco para o CD. Com produção de Swami Jr. e Tó Brandileone, fica visível que fazer música que preenche todos os espaços não tem a ver com longa lista de músicos ou instrumentos, já que tirando a participação especial de Zeca Baleiro em uma faixa ou a de Tó Brandileone tocando em outras duas, o milagre acontece exclusivamente entre Dandara e Paulo Monarco.

Por meio da investigação sonora se percebe o entrelaçamento de ideias que as vezes mais que proferidas verbalmente são entendidas no conjunto da obra. O próprio destrinchar das canções indica pistas do que é o disco, já que seus significados dependem da condução dirigida a cada música. Por se tratarem de canções extremamente sensíveis na dimensão de vislumbrar com uma lupa o que é precioso na minuciosidade de uma situação, parece entender a dor – ou qualquer outra realidade  – dentro do que nos é precioso, é um disco que habita e emerge frestas desconhecidas dentro da gente. O processo de apropriação da canção é nesse caso muito potente: os dois vivenciam aquilo que tocam e entregam com a verdade que cada faixa exige, podendo ser doloroso, voraz, feliz, a canção precisa soar.

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Fotos do encarte do disco: Manu Oristanio / Projeto gráfico: Patrícia Black e Uibirá Barelli

A atmosfera de densidade e grandeza de músicas como “Contenteza”, “Ame” e “Tem Dó” são essenciais para o entendimento do todo. É impossível não ser abraçado pela completude de suas narrações e a todo momento puxado para mais próximo dos mistérios que elas carregam. Quanto mais me debruço sobre elas em mais sentidos elas se desdobram dentro de mim. Há também as faixas que parecem estar sendo escritas na pele como “Pra acordar” e “Toca aí”, exemplos de canções que tem o poder de nos olhar de volta. Subitamente, como “numa brusca mudança de cena” alívios de leveza são indicados em faixas como “Lá do outro lado” que levando “os olhares lá pra uma morena que tem nos olhos todo azul dos mares” reflete que beleza no ambiente inimaginável é só uma questão da perspectiva de quem aprecia.

A tontura provocada pela canção de amor mais bonita do nosso tempo relaciona-se à sua sinceridade vertiginosa. “Trovoa” (de Maurício Pereira) tem dos pesos cotidianos e maravilhamentos dolorosos de habitar o instante. Quando já não existe no corpo resistência suficiente para o tipo de abraço necessário que o amor impõe então juntam-se as extremidades da arte (“deslocamento atômico para o instante único em que o poema mais lírico se mostre a coisa mais lógica”), dialoga sobre a presença do amor que provem de barulhos que se chocam não para aquietarem um ao outro, mas suportarem o caos em conjunto.

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Foto: Manu Oristanio

A dificuldade em dissertar sobre o que é o Dois Tempos tem cura por sua própria nomeação. Canção de Celso Viáfora e Paulo Monarco, “Dois Tempos de Um Lugar” cumpre a função de apresentar o projeto de forma mais eficaz que resenhas ou releases, enquanto cessa pequenas questões – se é um espetáculo como coube tão bem em disco? -. A essencialidade de ter um registro como forma de armazenar um fragmento de tempo ou ainda pela necessidade de guardar relembramentos da convergência de forças, em um espaço que está além do plano palco: arte é lugar porque causa esse tal do encontro tantas vezes aqui mencionado. Aproximando da entrevista que fizemos com Dandara e Monarco em 2014, os contextos mudam constantemente, mas ainda é sobre inquietações e talvez alguns entendimentos que são mais que certezas absolutas, interpretações de vivências. Resolvendo dessa maneira a questão levantada, ainda que a presença dos artistas em um palco seja momento de catarse que todos os seres carecem presenciar, quando as vontades são tão fortes se fazem entender ainda que não se tenha auxílio da circunstância física para guiar a sensação.

Para descrever as importâncias do disco, destaca-se ainda a possibilidade de brincar com as duas linguagens de um mesmo experimento: algo de tão bonito e não palpável que existe e se captura no místico. É preciso acreditar na canção para que ela cumpra todo seu papel de não deixar pedra sobre pedra que tem, vibrar com alma e sentir com o físico – espécie de dormência corporal em que os movimentos ganham liberdade de não serem coerentes com a lógica -, entender com a fragilidade do saber teórico é pouco.

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Foto: Nadja Kouchi

Chegar então no fim da audição para perceber o susto em tomar de uma golada só o estrondo (Gregorio Duvivier já diria em um poema seu do livro “Ligue os pontos”: “a música para calar o estrondo”, ou a música para deixar o estrondo dizer). Esse silêncio causado por imensidões que se adentram entre perceber as ondulações do amor se aproximando “na delicadeza do origami” até o desejo mais sincero e intuitivo de “morrer cantando” ainda não tem expressão que traduza de forma verossímil. Sigamos então no entendimento do poema que vai além da descrição, sabendo que algumas vezes é realmente importante a ausência de palavras. E a contenteza do “contemplar”.

*O lançamento oficial do disco acontece 14 de agosto no Auditório do Ibirapuera.


 

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