Questão de Opinião

1ResenhaPorDia: Guadalupe (Angélica Freitas e Odyr)

Especial de Resenhas - 2 anos AC


*Por Meiri Farias

Guadalupe é uma HQ cheia de boas ideias: com roteiro da poetisa Angelica Freitas (autora de “Um útero é do tamanho de um punho” que também ganhará resenha!) com arte de Odyr, a história apresenta a personagem título, Guada é uma mulher que está prestes a completar trinta anos quando fica sabendo do falecimento da avó Elvira. A história se passa no México e a missão de Guadalupe é realizar o último desejo da avó, um enterro com música em Oaxaca,  sua cidade natal. Os coadjuvantes da “heroína” são Minerva, tia travesti de Guadalupe para quem ela trabalha, e Chino, amigo da protagonista. Aí esta: um conflito relacionado a idade adulta e chegar aos trinta, descobrir-se e sentir a confusão com a falta de expectativa. Ótimo tema.

capa

Segunda situação, Minerva é travesti ex dançarina de boate e dona de uma livraria, que ao consumir cogumelos alucinógenos se transforma em uma super-heroína, a “muxe maravilha”.

Terceira situação: o amigo Chino está claramente apaixonado por Guada. Não é a melhor das opções, mas é um enredo (clichê) em potencial.

Quarta situação: Guada conhece a história de sua avó Elvira, que manteve um casamento tradicional, enquanto viveu um grande amor com outra mulher.

Tudo isso com um o México como cenário, intenções e onomatopeias em espanhol, o desenho divertido de Odyr e road movie com mitologia asteca. Em 120 páginas e é aí que mora o problema.

A edição bonita do Quadrinhos na Cia. não consegue conter o problema que é a abundância de narrativas dentro de uma mesma história. Todos os enredos prometem ótimas histórias que caminham individualmente, ou até mesmo com elementos de outra, mas todas essas possibilidades saturam ao ponto de nenhuma se desenvolver inteiramente e isso é um pouco frustrante.

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Guada é uma personagem interessante e o seu conflito poderia render uma reflexão bacana sobre ser adulto. A história de Minerva tem tanto potencial que sustentaria sozinha uma HQ inteira: travesti que abandona o palco para cuidar da sobrinha, se torna livreira e heroína? Eu quero ler essa história. Mas essa HQ não permite que ela seja explorada. Há ainda a história de Elvira, como uma mulher do interior do México – com todo o preconceito e religiosidade da região – que viveu e perdeu sua chance de amar outra mulher? Não dá pra saber porque é tudo muito rápido. E temos o México! As possibilidades são inúmeras com esse plano de fundo e ainda sobre a sensação de que falta algo.

Não entenda mal, Guadalupe é divertida e apresenta um desempenho muito legal para a situação 1 e para a situação 2, mas a sensação que sobra ao fechar o livro, é de que ele não acabou. E a frustração chega não por falta de qualidade, mas sim por um potencial inexplorado.

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