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Im.pessoais: Quadrinho sobre Cotidiano

Abre Aspas*Por Meiri Farias

Com a ideia de apresentar os dilemas do cotidiano de pessoas comuns, os artistas Letícia Pusti, Daniel Trindade e Pablo Sanches apresentam “Im.pessoais“, projeto de HQ que busca financiamento coletivo por meio do Catarse. A HQ conta a história de três mulheres que se encontram em momentos decisivos e acabam influenciando na vida uma da outra sem nem mesmo se conhecerem: Bóris, Eva e Andressa, cada história com um tom de narrativa e um traço específico.

“É uma forma de evidenciarmos as coisas pequenas que fazem muita diferença nas nossas vidas sem que a gente perceba a importância delas”, conta Letícia em entrevista para o Armazém. “A HQ também é a nossa forma de dizer que nem todos os problemas precisam ter uma solução épica ou grandiosa. Às vezes nem mesmo precisamos de uma solução.” Os autores contam sobre a experiência com o crowdfunding, mercado de quadrinhos e referências na entrevista que a seguir!

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Armazém de Cultura: Como surgiu a ideia da HQ? Contem um pouco para nós sobre o tema!

Letícia: A ideia da HQ surgiu a partir da leitura do livro Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke. Conhecer escritos de um poeta aconselhando outro a prestar mais atenção na sua própria vida foi decisivo para a definição das histórias que seriam contadas, principalmente porque o cotidiano é o tema que mais gosto em histórias em quadrinhos. Depois de observar coisas que são importantes na vida das pessoas decidimos quem contaria cada uma das histórias que surgiram.

Nossa ideia é mostrar pessoas em dilemas comuns e como cada uma resolve lidar com isso. Todas interferem um pouquinho na vida da outra, mas elas nem mesmo se conhecem de verdade. É uma forma de evidenciarmos as coisas pequenas que fazem muita diferença nas nossas vidas sem que a gente perceba a importância delas. Coisas como um livro que nos faz ter uma ideia genial, um olhar que torna o nosso dia melhor etc. A HQ também é a nossa forma de dizer que nem todos os problemas precisam ter uma solução épica ou grandiosa. Às vezes nem mesmo precisamos de uma solução.

AC: O projeto é formado por três artistas, como será esse processo? Todos participam do roteiro e da arte?

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Pablo:  O projeto todo tem como finalidade 3 histórias cotidianas mostrando visões específicas sobre algum assunto, por isso cada história tem um tom de narrativa e um traço específico. Não significa que o processo foi ou está sendo isolado, desde o começo trabalhamos junto, nos apoiando nos roteiros e nas artes, sempre trocando ideias. Apesar de visualmente parecer diferente, a narrativa engrena as diferentes situações.

Letícia: Definimos juntos as histórias mas todos tivemos a liberdade de trabalhar cada um em um roteiro. Mesmo assim sempre há conversa. Nos reunimos para desenhar e fazer observações dos trabalhos uns dos outros para que ele seja uma HQ harmônica mesmo com todas as singularidades.

AC: Falando nisso, como foi que se uniram para esse projeto?

Pablo: Nos conhecemos há um bom tempo já, mesmo antes de pensar em trabalhar com hq’s. E na ComicCon RS 2015, quando estávamos lá, Letícia e Daniel como expositores e eu como visitante, nós decidimos que faríamos um trabalho juntos. A Letícia sugeriu o tema e nós começamos a pensar sobre o roteiro.

Letícia: Na verdade eu estava como na CCRS convidada para um painel, foi meu primeiro evento como artista convidada, inclusive. Eu e os guris nos encontramos no Beco dos Artistas do evento e no meio de tantos artistas vendendo seus trabalhos e discussões muito interessantes nos painéis, nós três concordamos que deveríamos nos reunir e fazer algo juntos, principalmente porque eu e o Pablo estávamos sem exibir produções na ocasião. Acho que rolou aquele sentimento de vazio e uma dose de energia para fazer algo.

AC: Conversamos com frequência com artistas que desenvolvem projetos via financiamento coletivo. Como está sendo a experiência de vocês?

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Daniel: Nunca tinha participado de uma projeto por financiamento coletivo antes, mas até o momento está sendo tranquilo. De vez em quando vem o pensamento de que podemos não atingir a meta, porém tento manter um espírito otimista.

Letícia: A experiência tem sido muito intensa para mim, acho que todos os amigos próximos sabem de todos os meus receios. Ao mesmo tempo que sinto um certo desespero (vindo da minha ansiedade), me sinto muito grata pela resposta do público. Entramos na segunda semana de campanha com resultados animadores, mas, ainda assim, a campanha exige esforço constante para que as pessoas acreditem e apoiem o teu trabalho mesmo em momentos em que as finanças de todos estão bem apertadas.

Copy of Era como se a história já existisse e só transcrevesse pro papel. Quis que as sensações fossem além da descrição psicológica do autor, mas que quem estivesse lendo pudesse imaginar os sabores, as vozes, o

AC: Ainda dentro desse do tema “viabilização de projetos”, comentem um pouco sobre como veem o mercado de quadrinhos atualmente! qual são as maiores vantagens e desvantagens de se autopublicar?

Letícia: Vejo o mercado mais aberto e em expansão. Muitas pessoas têm se mostrado interessadas em apoiar artistas brasileiros e do cenário independente. Isso é ótimo, porque acredito que exista público para todos os tipos de artistas, trabalhos, traços, cores, visões que o Brasil oferece. Acho que com dedicação, todos têm grandes chances de conseguir ótimas oportunidades, ainda assim, é um meio que precisa amadurecer em muitos pontos. A grande vantagem de se autopublicar é, pelo menos para mim, a liberdade de poder fazer a sua história sem interferências, é um processo mais puro e é um processo que define se você quer de verdade contar aquilo ou não, porque quase todas as etapas vão depender do esforço próprio. O ponto negativo, acho, é que se você não tem dinheiro e não consegue um apoio financeiro isso pode ser um balde de água fria. A vida de artista sempre é complicada, artista independente tem um adicional nesse quesito.

Daniel: Sou péssimo para dar um plano geral sobre qualquer assunto, a impressão que tenho é a de que ele está bem mais acessível do que alguns anos atrás, mas ainda em processo de “amadurecimento”. Acredito que uma das maiores vantagens de se autopublicar seria a de não sofrer tanta burocracia em cima do próprio trabalho e a desvantagem acredito que fica por conta de não ter um publico amplo para apresentar o trabalho, nesse caso pra quem está começando.

A: Contem um pouco sobre os projetos individuais de vocês! o que produzem além do trabalho com o Im.Pessoais?

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Pablo: Dou aula de desenho, estou com a graduação em Artes Visuais em andamento e faço algumas ilustrações por fora. Mas quero trabalhar mais com hq’s e produzir mais histórias no futuro.

Daniel: Além da HQ Im.pessoais trabalho com pequenas ilustrações, fora isso tenho planos futuros para mais algumas histórias que já escrevi. Uma delas inclusive está como meta estendida no projeto do catarse.

Letícia: Bom, basicamente publico tirinhas na minha página no facebook, chamada Another Art Book. Tenho um público lindo para alimentar com publicações semanais. Além disso produzo ilustrações e tenho trabalhado em outro projeto de quadrinho, um conto meio de horror com uma pequena base em Alice no País das Maravilhas. Essa HQ é uma das metas estendidas do nosso Catarse.

AC: O quadrinho vem conseguindo se estabelecer cada vez mais como uma linguagem que abrange todos os temas e idades, muito além do quadrinho infantil ou super-heróis, o próprio trabalho de vocês traz uma proposta de reflexão sobre o cotidiano. Que HQs com esse tipo de temática influenciaram o trabalho de vocês?

Pablo: Gosto muito desse tipo de história que é o slice of life, e principalmente se for em formatos de volume único. Duas histórias que li que adorei e fazem esse tipo de gênero são This One Summer, de Jillian e Mariko Tamaki, e O Espinafre de Yokiko, de Frederic Boilet. As histórias do Will Eisner também são boas referências.

Letícia: São tantas as influências… Três Sombras (Cyril Pedrosa), Pílulas Azuis (Frederik Peeters), Daytripper (Moon e Bá), This One Summer (Mariko e Jillian Tamaki), Retalhos (Craig Thompson), Calvin e Haroldo (Bill Watterson) são alguns entre muitos. Mas acho importante contar que muito da minha inspiração vem da música também.

Daniel: Recentemente li duas HQs que tratam dessa temática. A primeira foi “Pílulas Azuis” e a segunda “Azul é a cor mais quente”. Ambas tratam de forma sublime esse tipo de situação mais cotidiana e que pode vir a ser comum a todos.

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AC: E atualmente, quais trabalhos de jovens artistas vocês indicariam para quem também se interessou por Im.Pessoais?

Daniel: A maioria esmagadora de HQs que consumo são as japonesas (mangás) e um dos quais mais gostei de ler foi “Solanin”, o autor Inio Asano sabe retratar com maestria esse tipo de situação do dia-a-dia. Recomendo fortemente.

Pablo: Atualmente estou lendo 3 Sombras, do Cyril Pedrosa, que não é tão novo mas pra quem não conhece vale. Os trabalhos do Rafael Coutinho também contam.

Letícia – Existe uma infinidade de pessoas que poderiam ser citadas. Vou citar Rebeca Prado, Catharina Baltar – ambas tiveram sucesso em financiamento coletivo recentemente. Giovana Medeiros é outra artista que gosto bastante. Acho importante também falar de artistas como Ana Luiza Koehler, Cris Peter, que são extraordinárias e compartilham de seus conhecimentos com todos, o que é muito importante para os artistas nacionais!

Saiba como apoiar o projeto no link

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