Questão de Opinião

1Resenha Por Dia: Um Útero é do Tamanho de um Punho (Angélica Freitas)

Especial de Resenhas - 2 anos AC


*Por Beatriz Farias

Um útero é do tamanho de um punho. E haja Google pra auxiliar. Útero que é este órgão composto de vários nomes difíceis de pronunciar e ideologias é “patrimônio da vida” segundo um dos sites verificado. Quisera o governo que este útero fosse órgão seu também para desfrutar do prazer de ser administrado por vários seres humanos que não o possuem. Praticamente patrimônio publico, o útero só não é de opinião daquela que o carrega. Um útero é do tamanho de um punho. Já um punho se caracteriza por dois principais movimentos, o de flexão e extensão. Um útero se alarga no período de gestação para abrigar o feto e do punho se exige a mesma elasticidade. É necessário que permaneça no sentido de extensão pois assim facilita a verificação, assim cabe mais da intervenção de quem observa. Vamos esticar os dedinhos porque punho fechado demonstra força. E força é tudo que assusta a opinião alheia – indicação de que ali já se cuida muito bem, obrigada. Um útero é do tamanho de um punho. E pesa.

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Publicado em 2012, “Um útero é do tamanho de um punho” é o segundo livro da escritora gaúcha Angélica Freitas. Em 35 poemas a autora destila com sarcasmo e uma sinceridade desconcertante o ser mulher e suas implicações, tornando impossível não ser surpreendida por tapas na cara de realidade com a maneira com que os assuntos são abordados. O raciocínio nos é apresentado por um desmontar de conceitos pré-estabelecidos que quanto mais se desfazem mais se encontram com a liberdade de pensamento, grandeza que aqui tem gosto de coisa cultivada.

Os poemas estabelecem um paralelo entre criar situações consideradas absurdas – aquelas não tão distantes do nosso imaginário porém despistadas por seu grau de aleatoriedade e insignificância – brincando com o que é nojento e esquisito, ao mesmo tempo em que lida constantemente com as decadências cotidianas. Ao comentar do creme dental ou dos congelados da Sadia, a sensação alimentada é de estar constantemente provocando o dia-a-dia, o tédio como artifício a ser cutucado para ver o que sai de interessante – ou não – de seus de seus desdobramentos.

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Trecho do poema: “A mulher é uma construção”

O estudo do ócio como estado de absoluta importância se faz presente não apenas em sua utilização do rotineiro, mas por uma necessidade – histórica mesmo – de movimentação da figura do feminino. A retirada da mulher dos lugares pré-colocados socialmente é feita de forma eficaz enquanto ironiza os rótulos limitados que sempre tentaram nos impor, apontando que a mulher já não precisa caber dentro de um lugar só. Há também um deslocamento muito pessoal evocado nas páginas. Por meio de amostras habilidosas de que não existe script a seguir, se é conduzido ao processo de desconstrução dos papeis que involuntariamente assumimos em nós mesmxs.

O questionamento dos dois eixos “sagrado”/”profano” – presente também na escolha do título, já que um útero é sempre razão de tremenda ambiguidade – permeia toda a obra ao indagar qual a escala circunstancial para que algo penda a um lado ou outro, alcançando berrante incomodo no primeiro capítulo do livro: “uma mulher limpa”. Ao expor a tendência de “tranquilização” social que temos com o considerado bonito (sinônimo nesse caso de discrição e submissão) surge a dúvida: por que o diferente, aquilo que nos tira do conforto de visão ou de opinião, agride tanto? Uma “mulher suja” é tão vital por simplesmente fugir desse ideal de sagrado e profano que adotamos? Não, não senhoras e senhores. Uma “mulher suja” alarma porque apresenta o risco de desprendimento dos costumes unilaterais tão enraizados nas nossas ideias.

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A capacidade que Angélica tem de contar histórias com precisão desdenhosa semelha espremer da palavra algo de muito intrínseco para sua significação, não é necessário então um bocado delas para resultar os entendimentos dentro da gente. A maneira como um poema se costura a outro com espaços para percepções pessoais indica que não é passatempo para ler enquanto se ouve uma música ou realiza outra atividade que não a de imersão total na leitura. Por se tratar de investigações intensas nas possibilidades de situações, as reações podem ser peculiares conforme o virar das folhas. São poemas que podem causar náusea, cheirar mal as vezes, o desconforto é parte do rito de compreensão identificado.

Após observações a respeito do Útero vem a mente a possibilidade de possível desacerto ao tentar também a ele esticar com os novos sentido que pessoalmente atravessaram. Quando a dúvida fica grande na pessoa que vos escreve, peço licença moças e moços para terminar por aqui com uma justificativa provinda do livro hoje tão comentado, alegando que realmente eu
“não queria fazer uma leitura
equivocada
mas todas as leituras de poesia
são equivocadas”.


 

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