Questão de Opinião

1Resenha Por Dia: Fico à Espera (Davide Cali e Serge Bloch)

Especial de Resenhas - 2 anos AC


*Por Meiri Farias

A arte tem dessas de suscitar novos sentidos e nos deixar criar apego por alguns verbetes específicos. Já faz algum tempo que me debruço sobre o significado da palavra “Nó”. Não tenho certeza, mas creio que começou quando conheci a música “Feitos Nós”, composição do Pedro Viáfora presente no disco “Ao Vivo no Auditório do Ibirapuera”, do coletivo 5 a Seco. Me deslumbrei com as possibilidades que cabiam dentro desse trocadilho. O mesmo disco me trouxe o avesso da sensação divertida da canção de Viáfora, “Nó”, de Vinícius Calderoni e Léo Bianchini, é aquele entalado na garganta, reflexo da obrigação de se conformar com a “dor que vem para melhor”. Nó complicado esse aí, mas com a mesma potencialidade de poesia que o anterior.

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A resenha de hoje traz os dois nós: “Fico à Espera”, livro do suíço Davide Cali e o francês Serge Bloch. O nó começou quando ganhei a delicada edição publicada no Brasil pela já saudosa Cosac Nayfi, como parte do meu presente de despedida do último estágio que fiz antes da graduação. Trabalhei por dois anos na divisão de Programas e Projetos da Coordenadoria do Sistema Municipal de Bibliotecas de São Paulo, uma experiência extremamente especial que ajudou a moldar minha preocupação política com o espaço público e a forma que a cultura me atinge. Nesse tempo, convivi com pessoas tão geniais, quanto gentis, com quem aprendi mais do que posso colocar nesse texto. O adeus ao final do estágio foi dolorido e difícil. O nó, a garganta embargada.

Mais de um ano se passou e vejo que o que vivenciei a CSMB não se perdeu, o nó virou laço. E esse livro é testemunha e lembrança disso. Cali e Bloch contam a história da vida de um homem. Ele não tem nome, nem qualquer indicação de quem seja, a referência mais próxima que temos de uma personificação, é saber que ele foi a guerra. O livro começa com a frase título “Fico à Espera” e somos guiados página a página pelas “esperas” do nosso personagem. A espera de crescer, a espera do natal, a espera do amor. Seu crescimento é puxando por um pedaço de lã, um fio que vai acompanhado nosso folhear de páginas até o fim da história.

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A arte é simples, embora carregue o primor e sofisticação dos livros da Cosac, a pagina limpa e o desenho quase infantil. Mas sua mensagem é impactante pela proximidade. Poderia ser a minha história ou a sua. Talvez seja. E mesmo que a identificação não seja imediata, é difícil não se emocionar com a simplicidade e verdade que essas páginas carregam. Permeando os altos e baixos da trajetória humana, Cali e Bloch se utilizam da sutileza para narrar o quão épico e simples pode ser uma vida normal.

Leio esse livro quando preciso de coragem. Acreditar que perdas e encontros são elementos necessários para sobreviver a rotina, ajuda a aceitar o lugar para onde o fio da vida quer nos levar. Com nós e laços, mas sempre seguindo seu fio.

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