Questão de Opinião

1Resenha Por Dia: Hinário Nacional (Marcello Quintanilha)

Especial de Resenhas - 2 anos AC


*Por Meiri Farias

As páginas de Quintanilha parecem frames de um filme. Sei que li ou escutei isso em algum lugar, mas peço desculpas por não saber referenciar adequadamente. (O autor da frase que me perdoe e não me processe). Os olhos de Marcello Quintanilha realmente se assemelham a uma câmera, mas ouso dizer que não se trata apenas de frames e sim trechos em movimento da vida cotidiana. Um filme da vida real em páginas de HQ.

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Páginas amarelas, no caso Hinário Nacional, seu trabalho mais recente. Marcello Quintanilha, premiado no Angoulême 2016, apresenta aqui um compilado de crônicas visuais. Partindo de situações corriqueiras, o artista nos transporta rapidamente por suas narrativas intensas. Ler Quintanilha é caminhar pela superfície até a página dois. Depois você experimenta a sensação de ser completamente tragado para a complexidade de seus personagens.

Em Hinário Nacional, ao começar a compreender realmente determinado enredo, os personagens nos abandonam e somos guiados por novas situações. Elementos sobre a personalidade de casa protagonista são apresentados e se sobrepõe aos anteriores, como no caso de Michele, de “Ave Maria, cheia de graça, o senhor é convosco”, onde rapidamente passamos pela dificuldade de comunicação da moça com Arruda, seu companheiro, pela marca de nascença que cobre a metade de seu rosto até compreender a abdicação de sua individualidade em detrimento do outro. Cada “frame” leva até esse momento. Mas a parte não é menos importante que o todo. Todos os detalhe importam, todo quadro é o mais importante na página do Quintanilha.

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Já “Pai Doce” apresenta o elemento que mais me atrai em uma narrativa: não linearidade cronológica no relato do personagem. Seu Menezes, ou melhor, Josué Aparecido Paixão de Sousa, sofre um acidente e por meio de seu delírio (ou não) vamos conhecendo traços de sua personalidade e memória. A confusão e completa incoerência, principalmente na relação com sua filha Lina – que Seu Menezes insiste que ainda tem doze anos, embora a mesma já seja uma mulher adulta – me recordou do personagem Eulálio, de Leite Derramado de Chico Buarque, um dos meus livros favoritos.

Escolhi citar o primeiro e o último capítulo da HQ, mas é preciso destacar que há muito mais nas entrelinhas de cada balão, de cada página no miolo do livro. Hinário é uma obra de arte do homem comum, a pessoa normal que você cruza na esquina de casa. Só que ela é extraordinária.


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