Questão de Opinião

1Resenha Por Dia: Olmo e a Gaivota (Petra Costa e Lea Glob)

Especial de Resenhas - 2 anos AC


*Por Beatriz Farias

Nota pessoal: quanto mais me debruço a querer entender o que me faz estar em cena, mais indagações a respeito do senso comum de que atuação é uma mentira contada para simular a vida me surgem. Não porque existe a permissão da quebra para o surreal. Não porque não acredito na imitação das coisas ou não também porque creio na importância que entretenimento carrega de te fazer sorrir por dois minutos, sem necessariamente uma grande revelação. Mas é que existe uma linha tênue entre a representação e vivência que a cada dia noto mais entrelaçada. Divido com dificuldade essa noção de que o ser humano vive atuando em suas relações ou se o que de fato acontece ao subir num palco é um ultrapassar de acreditar na história que se conta, mas vivê-la porque aquele momento existe e o que preciso é do meu corpo para acontecer. Não sou atriz, não possuo diploma na parede, ainda não tenho embasamento teórico para minhas inquietações. Mas acreditei desde o primeiro dia que me interessei por isso na ideia de viver como salto “quase” e estar no palco chegar. A completude as vezes se encontra em esperas e processos mesmo, por isso gosto de Olivia. Por essa razão ou ainda com isso, existe um temor expressado na figura da atriz potente para a identificação que é o questionamento do ser realmente boa no que se faz, ou só ter feito isso a vida inteira, antes de saber que tinha um nome e dessa maneira enganar muito bem.

O questionamento existencial acima (pouco profissional – ainda bem que nunca tive premissa de exercer tal papel aqui – mas de qualquer forma fica o pedido de desculpas) surgiu logo depois de assistir o filme “Olmo e a Gaivota” como anotação de estudo. Ainda que confuso e desrespeitando a ordem que uma resenha deve manter para sua coerência, entendi que as discussões a respeito de uma obra que sugere exatamente a ruptura de razões pré-estabelecidas não se daria por sua cronologia, porém se me esforçasse nos fragmentos da ideia atravessada, talvez encontrasse a síntese do que tanto se trata o susto de Olivia (a personagem retratada), e assim o meu próprio a respeito do teatro, ser mulher e situações não experimentadas. Então com a lógica determinada, sigamos.

1871_capa “Olmo e a Gaivota” – longa de 2015 realizado e escrito por Petra Costa e Lea Glob – conta a história de
Olivia, atriz que se prepara para encenar a peça “A Gaivota”: “uma comédia, três papéis de mulher, seis para homens, quatro atos, uma paisagem (vista para um lago) muitas conversas sobre a literatura, um pouco de ação, um toque de amor”, na definição do próprio autor, Tchekov. Quando o espetáculo começa a tomar forma, Olivia e seu companheiro Serge que também é ator, descobrem que ela está grávida. Com uma gravidez de risco ela se vê obrigada a escolher entre o
sucesso profissional e aceitar os limites impostos pelo seu próprio corpo. “Ela se olha no espelho e vê as duas personagens femininas de A Gaivota – Arkadina, atriz que está envelhecendo, e Nina, atriz que se perde na loucura – como inquietantes reflexos de si mesma”. Permeando o caráter ficcional e de registro, a virada acontece quando o que imaginávamos ser encenação se revela concreto. Estamos então assistindo dois atores que de certa forma também se assistem, e é dentro da condição principal de gravidez que ressurge a pergunta do que é essa tal da vida real.

Recebendo o prêmio de “Melhor longa-metragem de documentário” no Festival do Rio de 2015, o filme ganha pontos por sua qualidade no tom confessional, provocando curiosidade ao despertar nossos incômodos em espiar a crueza diária. Com uma sensibilidade brutal – característica exposta também no outro longa de Petra Costa, “Elena” – somos levados às próprias investigações que Olivia ensaia sobre si e seu questionamento da loucura que tão gritante em seu apartamento de tons acolhedores. Ao contrário de um conceito pregado em diversas críticas, o filme tem leveza o suficiente para nos fazer rir em sutilezas e entender que as celebrações mais grandes que ousamos presenciar em nós tem percurso de flores e assombros.

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A forma com que a gravidez foi desdobrada é uma obra de arte em diversos tons. Olivia mostra um lado do processo que não estamos acostumados a ver, o espanto. Existe beleza no espanto porque ela vem de uma sinceridade que atrapalha nossas impressões cotidianas. Ao dessacralizar a ideia de que estar grávida é simplesmente uma dádiva, temos o olhar aberto para compreender (tendo claro uma superficialidade de entendimento, já que processo completo depende de uma vivência que não tive) que a moça está sim chateada por aquele tédio que lhe assombra. Nos assustamos com suas frustrações em não entender exatamente o que se passa e brigar o direito de sentir tudo isso também, porque as nuances de intuições não significam o “indesejamento” do ser que se forma, mas o embate de sentidos que aquilo lhe provoca. Seu corpo que sempre fora instrumento para o teatro, vivenciando na pele os diversos seres a qual foi designada, é agora ocupado por algo que cresce e exige sua total atenção. São os contrastes da liberdade entre ver a vida pela janela, observar o mundo em cima de um palco, lidar com os desdobramentos de uma escolha e encontrar dentro disso tudo o que dói e produz alegria.

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O relacionamento de Olivia e Serge abre porta para diversas discussões a respeito do amor e suas implicações perante o tanto que é preciso tentar para continuar. (Continuar o que? Continuar apenas). Ainda que compreendendo a preciosidade em deixar com que o amor seja o poema que é designado a cumprir sem funções teóricas de entendimento, impossível não vislumbrar a crueldade a respeito do que cada um precisa abrir mão. Independente de parceria e partilha, o malabarismo entre o quanto de outra pessoa você pode querer e a frequência que ela tem a oferecer, é perigo de pender para um dos lados. A honestidade com que os atores se revelam um ao outro, mesclando dureza e doçura faz compreensível a descrição da “matéria” que Olivia comenta ser composta o amor deles, deixando apesar disso indagação tão presente nas contradições em se atuar: “as vezes me pergunto se poderíamos sobreviver na nossa própria pele”.


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