Questão de Opinião

1Resenha Por Dia: Relatos Selvagens (Damián Szifron)

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*Por Meiri Farias

O caminho que nos levou a assistir Relatos Selvagens foi “tortuoso”, pequenos incidentes que não valem a pena recordar, mas que impediam que levássemos a cabo nossa sessão. O que é preciso destacar é que parei para assistir o filme depois de uma semana exaustiva e cruel. Não aconteceu nada especificamente ruim, mas foi o fim de uma sucessão de dias cansativos, onde o ânimo não se fez muito presente. Ao sentar para o início do filme, com um pacote de cookie como munição e a tradicional “roupa de ficar em casa quando não precisa se preocupar em acordar no dia seguinte”, já desafiava o universo a me frustrar novamente, mas conseguimos prosseguir (não sem umas provocações do cosmo, o computador desligou sozinho).

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O que aconteceu nas duas horas seguintes só se pode nomear como “Catarse”, sensação de expurgar completamente toda a sensação de marasmo mental na qual me inseri durante a semana. Relatos Selvagens reúne seis “contos” que expõe quão tênue é a linha entre civilidade cortês do cotidiano e a mais absoluta barbárie. Qual é a fagulha capaz de atender a fogueira da insanidade humana? É isso que essas histórias contam de forma tragicômica.

Da garçonete que se depara com o homem que arruinou sua família, passando por uma briga na estrada que saiu do controle até chegar em um casamento com desfecho imprevisível, o diretor Damián Szifron nos conduz como marionetes por sua teia de ideias. Com um elenco que conta com atores Ricardo Darín, Dario Grandinetti e Erica Rivas (absolutamente brilhante em seu papel), o diretor ainda mostra situações mais cotidianas, como o caso do homem vencido pela burocracia que insiste em guinchar seu carro até que ele decide se vingar. E encontra paz e “justiça” no lugar mais improvável. É o nosso estresse de todo dia refletido no ódio aparentemente irracional de personagens que dão o passo que refreamos: perda total do controle e proximidade com os animalzinhos que vemos na abertura do filme, encontro com o nosso animal interior guiado pelos instinto de selvageria.

É interessante como o nível de identificação com a obra tem muito a ver com um contexto cultural e com a questão geográfica. O estresse de Buenos Aires tem muito mais semelhanças com as situações limites paulistanas do que qualquer obra do hemisfério norte poderia tentar. O cinema dos hermanos é muito eficientes em desenvolver conflitos dentro do universo caótico de uma metrópole latina e suas adjacências. Do tédio à insanidade, se usarmos um dos meus filmes favoritos para comparação. “Medianeras”, de Gustavo Taretto, tem outra tonalidade e traz a tona a relação com a tecnologia e relações humanas pós-modernas. E mesmo que a tonalidade seja outra, no fundo as cores são bem parecidas com as de Relatos.

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O que mais me intrigou no longa, foi a capacidade de se identificar com situações aparentemente impossíveis de se conceber, enquanto a história mais “real” causa tanto desconforto. Um relato que envolve crime de colarinho branco, corrupção judicial e desfecho trágico para o mais fraco. É estranho como é mais fácil deglutir uma briga de gato e rato com acidentes absurdos na estrada, do que esse tipo de crime “tradicional”. Talvez porque o absurdo seja metáfora. O real é apenas cruel. E selvagem.


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