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Rico Ayade: Operário a Serviço da Arte

Abre Aspas

*Por Meiri Farias

Rico Ayade não faz distinção dentro da arte. Entre a música, teatro e literatura, o artista se considera um instrumento que recebeu um chamado. “Um operário mesmo, que está ali a serviço do que ela (arte) me requisitar.” Seu projeto mais recente, o livro “Um Passarinho me Contou”, parceria com Matheus Ribs, está em campanha de financiamento coletivo na plataforma Catarse.

Recentemente, o artista também interpretou Caetano Veloso no musical “Os Tropicalistas”. “Homenagear o Caetano através desse espetáculo foi uma grande honra. Eu cresci ouvindo Caetano, e praticamente todos os baianos dessa geração”, conta o artista que nasceu em Salvador, cresceu em Jequié, já passou pelo Rio e atualmente vive em São Paulo. Conheça um pouco mais sobre os múltiplos projetos e facetas de Rico!

Foto: Weslei Soares

Foto: Weslei Soares

Armazém de Cultura: Você está em campanha de financiamento coletivo, para o lançamento de “Um Passarinho Me Contou!”, livro em parceria com Matheus Ribs. Como está sendo a experiência com essa forma alternativa de viabilização? Quais são as principais vantagens e desvantagens desse formato?

Rico Ayade: É a minha primeira experiência com o financiamento coletivo. Acho que a oportunidade de gerar um produto artístico junto com o seu público é maravilhosa. O público se sente parte do projeto e isso é muito bom. A desvantagem é só a ansiedade de conseguir logo bater a meta e realizar o trabalho (risos).

AC: Falando nisso, conta um pouco mais sobre o livro! Como aconteceu e vem se desenvolvendo essa parceria?

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Para conhecer mais do projeto e apoiar, entre o Catarse

Rico: O livro nasce de uma ideia que eu tive em 2012, de fazer um livro de frases ilustradas. Um dos meus apelidos é Passarinho, então eu achei que seria legal fazer essa brincadeira com o apelido e o ditado popular. Daí fui pensando nas frases, pouco a pouco, e anotando. Em seguida conheci o Matheus e me apaixonei pelos desenhos dele. Matheus era um menino tímido, tinha vergonha de mostrar os desenhos, então eu criei a página dele e o convidei para ilustrar o livro em parceria. Agora o livro está praticamente finalizado, restando apenas as etapas de diagramação e tal.

AC: Você transita por diversas linguagens artísticas, música, teatro, literatura. O que chegou primeiro a você? O que te despertou primeiramente para a arte, e como que se dá essa “necessidade” de permear várias linguagens desse mesmo caminho?

Rico: Muita gente me pergunta isso. Eu canto desde muito pequeno. Meus pais tinham barzinho quando eu era criança e eu cantava de brincadeira. Mas me lembro de também imitar os personagens da novelinha Carrossel (a 1ª versão), e dizer que eu queria ser ator, isso com 5 ou 6 anos de idade. Acho que então música e teatro vieram juntos. Mas também sempre escrevi e compus. Acho que quando a gente tem um chamado, tem que se entregar. Eu nunca consegui fazer muita distinção dentro da arte, pra mim tudo é arte e eu sou apenas um instrumento, um operário mesmo, que está ali a serviço do que ela (arte) me requisitar.

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AC: Recentemente você interpretou o Caetano Veloso no musical “Os Tropicalistas”, como foi essa experiência? E em relação ao Caetano e a Tropicália como um todo, são referências para o seu trabalho?

Rico: Homenagear o Caetano através desse espetáculo foi uma grande honra. Eu cresci ouvindo Caetano, e praticamente todos os baianos dessa geração, Gil, Gal, Bethânia, Tom Zé, Capinam, Novos Baianos etc., além dos nordestinos todos, Alceu, Elba, Geraldo, Zé Ramalho, Belchior etc. Mas a Tropicália com certeza é o movimento brasileiro que mais me influenciou, e isso não apenas musicalmente, mas como ser humano também. No dia que o Caetano foi nos assistir eu tive que criar uma realidade alternativa (risos), pra não pensar que ele estava na platéia me ouvindo cantá-lo e ainda vestido à caráter. Mas foi lindo porque ele amou!

AC: A partir das entrevistas que fazemos e do trabalho com o Armazém, notamos como os artistas acabam se conectando por meio do seu trabalho e que essa “cena” artística está cada vez mais conectada, mesmo com sua diversidade e multiplicidade de referências. O “Sarau do Rico” é mais um dos exemplos de como os artistas estão juntando forças. Conta um pouco como surgiu essa ideia!

Rico: O Sarau do Rico é um projeto xodó, (risos). É mais como juntar os amigos e fazer um som no quintal de casa. A gente mora num país em que viver de arte não é tão simples e mostrar seu trabalho nem sempre é algo fácil. Então, a gente acaba criando formas de se movimentar, reunir os amigos e multiplicar o amor. O Sarau é isso, a gente se reúne e se ama! No Sarau nascem novas amizades, parcerias, e é esse o espírito da coisa. E os amigos que participam, além de seres humanos lindos, são incrivelmente talentosos. Esse é o segredo!

AC: Um dos principais focos do Armazém de Cultura é comentar a influência do espaço físico na forma com que enxergamos, damos e recebemos da arte. Você é baiano, certo? E mora em São Paulo. Você percebe a sua cidade expressiva na sua criação artística? 

Rico: Sou baiano, nasci em Salvador, mas cresci no interior, em Jequié, e por isso minhas influências são mais do interior, minhas raízes estão lá. Morei 9 anos no Rio e estou radicado em São Paulo há pouco mais de 1 ano. Percebo as influências baianas no meu trabalho, as influências da caatinga de onde eu vim, do sertão. Mas hoje em dia me sinto um tanto do mundo e isso acaba somando muito também, misturando tudo e refletindo no que faço.

Copy of Era como se a história já existisse e só transcrevesse pro papel. Quis que as sensações fossem além da descrição psicológica do autor, mas que quem estivesse lendo pudesse imaginar os sabores, as vozes, o

AC: Você tem um disco intitulado “Distraído” e um livro publicado, o “As vidas dos outros”, certo? Poderia comentar um pouco sobre esses dois trabalhos? Refletindo a respeito do título dos dois trabalhos pensamos bastante no cotidiano e na contradição em observar o que está ao redor (a vida dos outros) e uma observação subjetiva das coisas (distraído). Faz sentido no seu modo de compor e registrar esses diálogos com o dia a dia?

Rico: Vamos começar pelo livro. “As Vidas dos Outros” é um livro gostoso de ler, engraçado e tocante, com histórias de pessoas que conheci nas minhas andanças por aí. Escrever sempre foi uma paixão e o ser humano sempre foi a minha maior inspiração. Mas como disse Jean Wyllys, que escreveu o prefácio do livro, “As Vidas dos Outros não é um livro de fofocas”, (risos) e eu completo dizendo que é um livro das observâncias do ser humano.

Já o Distraído, foi um disco muito sonhado, o primeiro, né? (risos). É uma loucura gravar um disco. Uma experiência tão gostosa ver as músicas nascendo, ganhando corpo, forma, é bonito demais! Eu compus ele até o último minuto. Lancei no final de 2012, mas tem músicas de 2006, 2008, e como eu falei, tem música até de dentro do estúdio, rsrs.

Acredito que existe um estado de distração atenta que nos permite captar o que nos rodeia e tantas vezes nos é invisível. É nesse estado que eu tento me manter, para entender o mundo que me cerca, o meu semelhante e até a mim mesmo. A observação distraída, ou a distração atenta, é fundamental nesse processo de criação, é um portal à inspiração. É estar constantemente em estado de contemplação e deixar que as coisas se mostrem a você, se permitir ouvir o inaudível e enxergar o invisível, que sempre existiu, mas que quase nunca nos demos conta.

Ouça o disco “Distraído”:

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